Na horta do número 511 da Rua Guerra Junqueiro, no Porto, veem-se os olhos das couves coração a abrir por entre a vegetação selvagem que se arrebitou com as chuvas do final de agosto. “A terra do Porto é muito boa, as coisas crescem rápido aqui”, diz Catarina Miranda, contornando pequenos canteiros e a magnólia centenária que os vigia.
Estamos no quintal da Escola Normal, a casa de inspiração vitoriana que dá abrigo ao projecto comunitário de Catarina, conhecida no mundo da música como emmy curl, e do seu companheiro Andreas Sidenius. Um lugar para imaginar novos modos de coabitação e co-criação artística, baseada na filosofia solarpunk, movimento cultural que se rege pela harmonia entre o ser humano, a natureza e a tecnologia, tal como as canções do novo álbum de emmy curl, Pastoral 2.0., e a editora recém-criada, Exemplar.
Todos estes ramos são filhos da mesma árvore e todos são consequência do modo de vida que Catarina e Andreas decidiram abraçar aquando da pandemia. “Fomos passar duas semanas à Madeira, mas ficámos lá dois meses”, recordam. Em 2021, eles e mais cinco pessoas — entre as quais se encontrava um antigo road manager dos Pearl Jam — arrendaram uma antiga escola primária do Funchal para criar um coletivo. Decidiram chamar a este laboratório artístico de Escola Normal. “Éramos conhecidos como ‘o grupo dos artistas’.”
A cada terça-feira, juntavam mais de 400 pessoas em jam sessions, evento que se tornou referência da cena cultural da ilha. “Abanámos com a Madeira!”, recordam. Lá, tudo continua a abanar, como dantes, mas já sem Catarina e Andreas, que se mudaram para o Porto com o filho de cinco anos, Alban, para estarem mais perto da família. Fizeram-no, sabendo muito bem que queriam manter a sua “maneira alternativa de viver”, ou seja, trazendo a semente da Escola Normal para a cidade que também é título de álbum de emmy curl (ØPorto, 2019).

Em ano e meio de atividade, a escola portuense foi ganhando os seus próprios ritmos e inquilinos. Atualmente, é habitada por três adultos, pelo Aldan, a criança que está representada no logótipo, e por quatro gatos. Quanto à agenda, sexta é dia de jam sessions e nos restantes há sessões de comédia, concertos intimistas, apresentações de projetos artísticos, jantares comunitários, oficinas para adultos e crianças e o que mais a imaginação plantar. O calendário é publicado nas redes sociais e, geralmente, as atividades têm um custo de €3. Há também uma mensalidade de €5, que pode ser revista a cada 30 dias, e que dá acesso ao que se passa na escola durante esse período.
“Intervenções poéticas” e um sistema de trocas “Exemplar”
Viver num espaço assim — numa zona nobre da cidade, com um jardim, um estúdio de música profissional, uma sala de costura e manualidades, vários outros anexos em reconstrução e arte a explodir por todo o lado — é um cenário idílico para muitas pessoas. Mas também há desafios e Catarina não os nega: “é preciso maturidade e uma empatia muito grande para saberes estar contigo e com os outros”.
Porém, no final das contas, o balanço “é espetacular”: “Quantas mais pessoas estiverem dispostas a viver juntas, mais espaço todas elas têm para viver e menor é a renda”. Estamos a falar de €650 por mês (ou €40 por dia), numa cidade onde arrendar um quarto anda à volta dos €450 mensais.
Neste modelo social, qual sociedade futurista de Jacque Fresco (1916-2017), defensor de uma visão socioeconómica baseada na ciência, na tecnologia e na gestão partilhada dos recursos como forma de eliminar a escassez, todos dão o seu contributo e todos recolhem os frutos daquilo que semeiam. O benefício individual é o benefício colectivo e vice-versa.
Há quem opte por pagar uma renda e ter acesso a todas as valências que a Escola Normal oferece, sem qualquer compromisso extra — e isso é especialmente comum entre inquilinos que chegam através de redes artísticas internacionais como a Artaway e a Res Artists; e outros que ali residem segundo um “sistema de trocas”, explica Andreas: “As pessoas podem viver gratuitamente aqui durante uns tempos para fazer música, gravar, filmar, escrever e, em troca, pedimos uma intervenção poética”.
Uma intervenção poética tanto pode ser um concerto oferecido à programação do projeto, uma instalação artística a dialogar com uma divisão ou objeto da casa, uma atividade pensada para o público visitante, uma mão de poemas deixados numa escrivaninha, à espera que olhos curiosos pousem neles. Mas também o é cozinhar, tratar do jardim, ajudar com obras na casa e tudo o que valoriza o viver em comunidade.

“No início da Escola Normal, no Porto, recebemos muitas propostas, mas praticamente 80% delas não avançaram, porque o pessoal não acreditava neste sistema de trocas”, nota Andreas. Porém, as coisas estão a mudar e o lançamento da editora Exemplar é sintomático disso mesmo: “É uma editora que quer apresentar trabalhos sem o julgamento de mercado, pensada para artistas que não têm muita voz, mas que merecem ser reconhecidos”. Ou, como diz Catarina, para “artistas autênticos”, daqueles que trocam as voltas à Inteligência Artificial e que a obrigam a comer muita sopa para, quiçá, os conseguir replicar.
Para lá do estúdio de gravação e de uma mentoria musical que vai desde a composição à masterização, a Exemplar promete apoiar os artistas em áreas tão distintas como a produção de imagens e textos promocionais, contacto com o público, imprensa e agentes culturais e até na criação de figurinos. “Queremos que eles sintam que têm uma rede por trás, que existe um cuidado”. No fundo, exatamente aquilo que Catarina, ao lado de Andreas, tem feito com o seu alter-ego emmy curl. É precisamente o seu novo disco, Pastoral 2.0, o primeiro a ser lançado pela Exemplar, dando o mote para a Open Call que será divulgada em breve.
“Pastoral 2.0” e a lembrança de um sonho lindo
Pastoral 2.0 é a continuidade do trabalho que emmy curl deu início com Pastoral (2024), álbum ancorado na tradição da música pagã do norte e interior de Portugal e que lhe valeu a distinção com o Prémio José Afonso, em 2025. “Há mais de dez anos que queria fazer um álbum tradicional”, diz a compositora e música natural de Vila Real, que tem olhado com atenção para o “boom do folclore e das tradições” que tem atravessado a Europa: “Está tudo a bisbilhotar o que está para trás”.
Para ela, que já compõe desde os 15 anos, ficou claro de que havia uma parte de si a bradar por se reconhecer nos seus antepassados. Questionou-se, por exemplo, por que é que não sentia uma ligação ao fado e a resposta chegou-lhe naturalmente, como o vento que sopra do Alvão e do Marão: “Porque venho de um sítio em que éramos uma tribo Celta!”.
A partir do momento em que se apercebeu disso, mergulhou no cancioneiro tradicional, nos hábitos e costumes de Trás-os-Montes, mas também das Beiras, que partilham alguns códigos semelhantes, e até no misticismo pagão, criando uma música que, estando povoada de passado, soa a futuro: “Só podemos ser autênticos se abraçarmos as nossas raízes”.
Enquanto Pastoral é grito de fera a reivindicar espaço no cancioneiro nacional, Pastoral 2.0 permite-se a outras subtilezas, revelando o que é do foro íntimo. O primeiro é emmy curl a arrombar o castelo numa toada rítmica e melódica muito vincada, o segundo é ela a instalar-se nele com a candura de arranjos orquestrais entre e muita eletrónica a transcender a alma.

O disco abre com Pássaro e Acorda, um despertar a dois tempos para a primavera do ser cheio de musgo e rosmaninho, abelhas e giesta, flautas, cordas e percussões do amanhecer. Segue-se Romance da Lhoba, canção popular transmontana e a estreia de emmy curl a cantar em mirandês. “Às vezes perguntou-me porque é que não cantei mais cedo em mirandês, mas achava que, por não falar a língua, não ia saber cantar”, partilha, refletindo sobre a falta de representação feminina na interpretação deste cancioneiro. Né Ladeiras, que tinha pegado nesta canção “que a fez chorar” bem antes de ela sonhar em interpretá-la, serviu-lhe de inspiração.
Bento Airoso, com a sua entrada marcada por um corpo de cordas e com uma eletrónica que autoriza o corpo a largar a espinha para dançar, também vem do cancioneiro tradicional e faz a passagem para “Vale de Nogueira”, uma carta de emmy para Catarina e de ambas para o mundo. Nela, cantando uma terra a arder / tudo pelo poder, emmy curl puxa da tristeza daqueles que lutam pela sobrevivência no interior para a transformar em esperança. A nossa história é bela / ainda me lembro dela.
A partir desta lembrança, de olhos postos no futuro, saltamos para a versão de Lembra-me um sonho lindo, de Fausto Bordalo Dias, que fecha o disco. “Deu-me muito trabalho a sacá-la”, nota, aludindo aos dias passados com a guitarra ao colo a “resgatar” uma das “mais belas” músicas do cancioneiro nacional e que aqui se veste com um coro de ninfas. “Para mim, é uma canção para a mãe natureza”. Ainda nos lembramos dela?
A natureza está também em Meu Amor Anda Sempre de Barco, na qual as vozes de emmy e de André Júlio Turquesa (antigo Turquoise) se entrelaçam como as ondas do mar, ou em Há-de Vir Num Amanhã, faixa que chega com um cheirinho da pop etérea dos primeiros discos da artista, que este ano cumpre 20 anos de carreira. “Quando comecei, acho que estávamos a viver numa ilusão. Tudo o que era de fora era bom e o que era português era bacoco e parolo. Então, vinda eu de Vila Real, quando chegava a Lisboa as pessoas diziam-me ‘ei, vieste do Norte’. Não era uma coisa tão charmosa como é hoje em dia”.
Hoje, emmy curl diz-me mais madura. Madura para cantar versos do bisavô Alberto Miranda, poeta e encenador vila-realense, em Incerteza e Encanto; para compor uma Rapsódia 2.0 com samples de Giacometti, numa abordagem dub, eletrónica e jazzística; para representar Portugal na plataforma internacional WOMEX, que decorre este ano em outubro, em Las Palmas; ou para desenhar um objeto 3D “muito kitsch”, com conexão bluetooth, que será um dos formatos físicos de Pastoral 2.0, a par dos velhinhos CDs e vinis. “Esta sou mais eu”. Esta é a emmy curl que queremos (precisamos) de ouvir.