Entre as 6h e às 7h da manhã, as primeiras pessoas começaram a deslocar-se para o parque do Palácio Real. Pelas 11h30, já não havia espaço nos passeios da Karl Johans Gate, a principal avenida de Oslo. Uma hora antes de começar o cortejo, a banda das Forças Armadas ensaiava os últimos acordes da marcha fúnebre, tocada a um ritmo de 60 BPM, que embalaria a caminhada lenta de centenas de autoridades e membros da realeza internacional, no arranque das últimas homenagens a Harald V.

O primeiro homem a entrar na Capela do Palácio a 1 de setembro, Frode Eriksen, de 64 anos, também foi dos primeiros a chegar à Karl Johans Gate. Entre os populares, pessoas que descrevem terem feito viagens de horas e que trouxeram cadeiras para guardar o melhor lugar diante da grade de proteção. Crianças, adultos e idosos, famílias inteiras ou indivíduos sozinhos, que vestiam preto, véus, ou trajes típicos noruegueses. Houve quem apelasse para a altura das árvores na tentativa de ter um melhor ângulo de visão. De acordo com as autoridades, terão sido mais de 50 mil pessoas ao longo da avenida, com pelo menos 180 mil pessoas a circular pelo centro da capital norueguesa, que tinha todos os acessos condicionados.
Ao mesmo tempo, as autoridades e membros da realeza internacional começavam o movimento a partir do Grand Hotel e do Radisson Blu em direção ao Palácio Real, por meio de uma frota de autocarros, através de vias fechadas especialmente para o efeito, seguindo a tradição de organização nórdica. Pelas janelas a imprensa ia apanhando os primeiros vislumbres de Reis e Rainhas — e uma cabeça do príncipe William — sentados lado a lado dentro do veículo, com as suas faixas e joias, que adornavam trajes maioritariamente pretos.

E quando às 12h a cavalaria deixou os portões do Palácio, todos os olhos se fixaram na rua. Uma salva de 21 tiros de canhão a partir da Fortaleza de Akershus deu início ao cortejo, que seguiu um percurso ornamentado por 219 bandeiras hasteadas a meio mastro. Ao som da banda militar, uma Mercedes Geländewagen preta trazia a urna do monarca que morreu a 28 de agosto aos 89 anos. Atrás, o novo Rei, Haakon VIII, a filha mais velha e provavelmente a próxima a ocupar o trono, a princesa Ingrid Alexandra, o segundo na linha de sucessão e filho mais novo, o príncipe Sverre Magnus, e a terceira na lista de possíveis herdeiros, a princesa Märtha Louise, irmã do Rei. Na sequência vinham as duas rainhas, Sonja e Mette-Marit, dentro de um carro preto — a caminhada de quase dois quilómetros terá sido desaconselhada à rainha de 89 anos que tem um pacemaker e à sua nora, que ainda recupera de um transplante de pulmão realizado em junho.
A “maratona” para a família (especialmente mais dura para as duas rainhas de saúde frágil), só ia chegando ao fim por volta das 17h locais, 16h em Portugal, quando todos foram à varanda do Palácio Real, acenar para os milhares de pessoas que se aglomeravam na praça, aberta ao público 15 minutos antes, e ainda decorada com as flores e homenagens deixadas a Harald V ao longo das últimas semanas. Com cinco minutos de atraso, apareceram primeiro Haakon e Mette-Marit, de agradecimentos emocionados face ao aplauso demorado do público. Com um leve sorriso, acenaram. Depois foi a vez de Ingrid Alexandra e Sverre Magnus, que chegaram muito mais sorridentes, também a acenar. Por fim, a família abriu espaço para a viúva, a rainha Sonja, que não conteve a emoção ao receber o carinho do povo norueguês. Levou as mãos ao peito num respiro profundo, simbolizando o alívio que todos na varanda transmitiam, e que assinalava o início de um novo capítulo.
O esforço da nora doente e as presenças do genro xamã e do “neto” condenado
O perfil conciliador de Harald V foi honrado durante as cerimónias fúnebres, assim como a narrativa sustentada por Haakon VIII no seu primeiro discurso como Rei, ao reafirmar a união e o apoio da família. Porém, até o momento dos rituais religiosos oficiais na Catedral de Oslo, a imprensa norueguesa tinha poucas certezas sobre os exatos papéis de alguns membros da família — em especial o da Rainha Mette-Marit, que falhou a cerimónia de juramento do marido na última semana por complicações de saúde. O filho mais velho, Marius Borg Høiby, que depois de meses sem aparecer em eventos oficiais da realeza, surgiu a carregar a urna de Harald V junto dos irmãos e do padrasto na chegada ao Palácio Real na última semana. E o marido de Märtha Louise, Durek Verrett, que também foi submetido a um transplante de rim em agosto e, ao lado da mulher, não desempenha funções oficiais em nome da coroa norueguesa.
De facto, ao sair do Palácio Real, a urna foi acompanhada apenas pelos membros na linha de sucessão ao trono e as duas rainhas consortes. A presença da Rainha Mette-Marit já estava confirmada desde o início da semana, contudo havia alguma incerteza sobre em que moldes participaria na programação, que se antecipava intensa ao longo de todo o dia. Desde junho que a mulher de Haakon recupera de um transplante de pulmão, devido a uma fibrose diagnosticada em 2018. O período de recuperação, de acordo com os médicos que acompanham o caso, pode durar até um ano, e pelo menos até janeiro a Rainha não deveria assumir funções oficiais. A morte do sogro, contudo, alterou os planos — e até ao momento Mette-Marit tem tentado participar em todos os compromissos que consegue, mesmo que de uma forma menos ativa, como nesta quarta-feira, ao integrar o cortejo dentro do carro, junto de Sonja.
A Rainha foi provavelmente o membro da família que mais vezes enxugou lágrimas ao longo da cerimónia. Longe dos equipamentos de suporte de oxigénio que usou nos eventos oficiais nos quais participou no início do ano, a Rainha ainda assim enfrentou um dia exigente considerando o repouso necessário para a sua recuperação. Da saída de Skaugum, a residência oficial, pelas 9h30, até a aparição na varanda do Palácio Real, pelas 17h, foram quase oito horas praticamente sem descanso. Apesar de caminhar pouco, permaneceu ao lado de Sonja e Haakon, em todos os momentos do programa, sem se ausentar.
Já os ausentes no cortejo aguardavam na Catedral de Oslo. A princesa Astrid, de 94 anos, irmã de Harald V e o membro da realeza mais velho ainda a representar a coroa, compareceu à cerimónia em cadeira de rodas. À porta também estavam Durek Verrett, as filhas da princesa Märtha Louise, Emma Isadora, Maud Angelica e Emma Talulah, assim como Marius Borg Høiby, que cumpre pena domiciliária em Skaugum, a residência oficial da família, mas recebeu autorização judicial para ir ao funeral.




E se até à entrada na Catedral de Oslo os membros não oficiais da família real não tiveram grande destaque, dentro da cerimónia ocuparam as cadeiras posicionadas exatamente atrás daquelas nas quais se sentaram os Reis, a rainha Sonja e a princesa herdeira. Também a coroa de flores no altar assinada em nome da família de Haakon e Mette-Marit trazia o nome de Marius, mais um sinal claro de que o filho da Rainha, mesmo condenado por crimes tão graves quanto duas violações, continua extremamente próximo do seio da realeza norueguesa.
Durek Verrett, que acompanhou a mulher a apenas um evento oficial da realeza até hoje, o aniversário de 18 anos de Ingrid Alexandra em 2022, já havia usado as redes sociais ao longo das últimas semanas para manifestar o seu pesar pela morte do sogro. Chegou a chamar Harald V de “papá” numa das publicações, em que destacava a forma carinhosa como terá sido acolhido pela família em geral. Contudo, também em 2022, quando o casal anunciou o noivado, a princesa Märtha Louise viu-se obrigada a abrir mão do seu papel oficial dentro da família real, devido à polémica gerada pela presença do autoproclamado xamã, visto por muitos na Noruega como um charlatão. O casamento aconteceu em 2024, com a presença da família real, apesar de não ter sido uma cerimónia com pompas de realeza. Em 2025 o casal ganhou um documentário na Netflix chamado Rebel Royals — algo como “Realeza Rebelde” — e este ano uma plataforma de streaming norueguesa gravou uma série documental com os dois sobre as terapias alternativas que promovem no país, incluindo sessões de cantos, danças e comunicação com animais. A estreia estava prevista para o dia 2 de setembro, mas, com a morte do rei, foi adiada para o dia 16 — e o vídeo de divulgação removido das redes sociais.
Da cerimónia com budistas, muçulmanos e o povo sámi ao misterioso sarcófago
No geral a cerimónia fúnebre na Catedral de Oslo seguiu os ritos da Igreja da Noruega, contudo, os momentos mais marcantes foram aqueles que assinalaram o respeito de toda a comunidade por Harald V. A começar pelo minuto de silêncio que abriu a cerimónia, realizado em todo o país. No seu discurso, o primeiro-ministro Jonas Gahr Støre dedicou palavras sentidas em homenagem ao antigo monarca, recordando o apoio de Harald V à população em 2011, na altura do ataque terrorista à ilha de Utoya que resultou na morte de 77 pessoas — o então rei reuniu-se com as famílias das vítimas, e foi às lágrimas durante o memorial realizado em homenagem aos mortos.
Ao final da intervenção, Støre também quis prestar a sua homenagem à viúva. “Digo isso em nome de todos nós: Que rainha!”, afirmou, ao olhar para Sonja, que emocionada retribuiu com um movimentar de lábios a dizer “muito obrigada”.
Seguiu-se então uma cerimónia de acendimento de velas com cinco representantes de diferentes religiões e filosofias. Else-Britt Nilsen, representante da fé cristã; Nancy Herz, uma humanista; Ani Chökyi, que segue a religião budista; Rachel Mizrachi, da comunidade judaica; e Bushra Ishaq, uma mulher muçulmana, foram as escolhidas para o momento. “Acendemos uma vela em gratidão por tudo o que nos une. Acendemos uma vela em gratidão pelo calor humano e pelo riso. Acendemos uma vela em gratidão pela diversidade na comunhão, pela fé no futuro e pela esperança”, disseram.

Noutra altura da cerimónia, uma das escrituras foi lida no idioma sámi. Também o cântico de louvor de Simeão foi cantado pelo coro em sámi do norte, latim e nynorsk, outro dos idiomas escritos da noruega. Os Sámi habitam a região de Sapmi, que compreende o território norte da Noruega, da Finlândia, da Suécia e a península russa de Kola. Em 1997, Harald V fez um raro pedido de desculpas público durante a abertura do parlamento Sámi. “O Estado norueguês foi fundado nos territórios de dois povos, o norueguês e o sámi”, disse o monarca. “Hoje, devemos pedir desculpas pelas injustiças que o Estado norueguês impôs ao povo sámi através das políticas de norueguização.” O tema também mereceu reconhecimento no primeiro discurso de Haakon VIII como Rei: “O meu pai pediu desculpa ao povo sámi pelas injustiças cometidas contra eles — em nome de todos nós”, assinalou.
Finalizada a cerimónia oficial, a urna de Harald V seguiu num cortejo menor até à Fortaleza de Akershus, erguida no século XIII. É neste local, mais precisamente na Igreja do Castelo, que decorreu uma cerimónia menor e privada que incluiu o rito de colocação da urna no mausoléu real, onde já se encontram os sarcófagos do Rei Haakon VII e da Rainha Maud, avós de Harald V, e do Rei Olav e da princesa Märtha, pais do antigo monarca.

Contudo, o sarcófago de Harald V continua um mistério. Em 2024, a Casa Real revelou que o projeto do sarcófago duplo foi entregue à empresa norueguesa de arquitetura Snøhetta, um dos ateliers de design mais célebres do país, a um custo de aproximadamente 20 milhões de coroas norueguesas, cerca de 1,8 milhões de euros. A ausência de concurso público e a adjudicação direta à empresa, que também projetara a Ópera de Oslo, mereceu críticas, reforçadas pelo facto de os detalhes do projeto, como materiais ou design, terem sido mantidos em sigilo. E assim permence pelo menos até a próxima semana. “A foto do sarcófago do rei Harald V e as informações sobre ele serão publicadas cerca de uma semana após o funeral”, disse Simen Løvberg, porta-voz do Palácio, ao jornal Dagbladet.