Em Bunker, Florian Zeller não joga apenas com a história de um casal espanhol socialmente privilegiado, embora já ameaçado por sinais de ruptura, ele arquitecto de renome, ela editora de livros. Têm uma filha adolescente, uma casa frondosa com jardim, Londres está em pano de fundo. Têm mais do que isso porque Miguel e Sofia — assim se chamam as personagens interpretadas por Javier Bardem e Penélope Cruz — são o casal do ecrã interpretado pelo casal na vida, entrando assim na selecta lista de estrelas em que já estavam Humphrey Bogart e Lauren Bacall, Vivien Leigh e Laurence Olivier, Joanne Woodward e Paul Newman, Tom Cruise e Nicole Kidman ou Brad Pitt e Angelina Jolie.
Esta dinâmica entre o que é realidade e fingimento afecta o filme e, inevitavelmente, o modo como este é desfrutado pela audiência, incapaz de se afastar por completo do facto de Javier e Penélope serem marido e mulher. E se não fossem, que resultados teria a interpretação de um e outro? No novo filme de Zeller, cineasta que tem explorado a confusão dos sentimentos e das filiações, torna-se então claro que esta é a história de um casal posto à prova.
Javier e Penélope, numa outra reflexão que entra aqui, vão ter que bater-se contra um argumento que tenta rasteirá-los, pois está repleto de metáforas. A primeira: um vizinho tresloucado da casa de Londres decidiu partir o muro do jardim, sem dar cavaco a ninguém, e está a construir uma janela, ameaçando a privacidade daquela família e, particularmente, do arquitecto, que tende a fechar-se sobre si próprio em crise de meia-idade.

O cúmulo desta exposição vem de seguida, quando Miguel é contactado por um multi-bilionário, um daqueles que engorda o património sempre que cada um de nós entra numa rede social. Está disposto a pagar o que for preciso para o arquitecto lhe construir um bunker luxuoso e super-resistente no Hawai, obra nunca vista, capaz de albergar e assegurar a sobrevivência de 30 pessoas por tempo indeterminado, em caso de catástrofe (nuclear, evidentemente). O curto papel de Paul Dano imita um modo de falar facilmente reconhecível, sobretudo para quem, horas antes, visionara as quatro horas do documentário Musk…
E Miguel fica entre a espada e a parede, a sentir o casamento a perder-se, sem saber como se relacionar com a filha adolescente (personagem desaproveitada). Quer construir laços, edifícios de união, de bem-comum — mas é um bunker egoísta que se apresenta no horizonte. “Porque é que estás tão distante de mim?”, pergunta ele, às tantas, a Sofia. “Porque mudaste, já não te reconheço nem estou a gostar do que agora vejo em ti.”
Bardem e Cruz resistem com diálogos destes, na cumplicidade dos gestos, nos olhares. Já andam nisto há uns tempos. Foi no ecrã que se conheceram, no Jamón, Jamón de Bigas Luna, juntos estiveram no ecrã em Vicky Cristina Barcelona, também em Todos Sabem. O que se passa entre eles deixa sempre tudo o resto (o próprio filme que estão a interpretar) em segundo plano.
“Company”, um filme de truques segundo Casey Affleck
O mais jovem dos manos Affleck investiu seriamente numa carreira de cineasta desde a vitória nos Óscares (Manchester by the Sea) e chega agora a Company, o seu filme mais elaborado, com o veterano Nick Nolte rodeado de jovens intérpretes da esfera anglo-saxónica, como Adelaide Clemens, Emily Alyn Lind e Caylee Cowan. Company quer mostrar-se misterioso, com um arranque em 1975 e a chegada de uma mulher a casa que não foi convidada, em noite de tempestade. Depois vamos ter com Nolte em flashback, ele é um eremita do Colorado, e em torno dele outros flashbacks surgem, bem como um twist, que entra no filme a martelo, à nossa espera. Em ambiente acabrunhado e à volta de uma fogueira, bate Casey Affleck à porta do sobrenatural e de um mito cinematográfico que, por ora, não queremos revelar.

Não se falou ainda do sólido Woman Unknown, da dinamarquesa de origem egípcia May el-Toukhy. Esta co-produção nórdica foca-se no destino de Marie (Mathilde Arcel), uma babysitter na Copenhaga do imediato pós-II Guerra Mundial, quando o país se livra finalmente da ocupação nazi. Para Marie, a liberdade também traz fortuna, já que ela é pedida em casamento pelo abastado viúvo que serviu como empregada. Só que Marie tem um segredo que lhe pode trazer desgraça. Envolveu-se, durante a guerra, com um soldado alemão. Viva agora com o terror de ser descoberta. E há quem se lembre da “infâmia”.

Vem imediatamente à memória a Hanna Schygulla de O Casamento de Maria Braun, de Fassbinder, que usava o corpo para sobreviver e não hesitava em trocar de campo para apanhar a onda do milagre económico que sucedeu à catástrofe, ou a Carice van Houten de Livro Negro, de Paul Verhoeven, outra mulher apaixonada pelo inimigo e que fazia de tudo para sobreviver em ambiente adverso. A heroína de Woman Unknown não tem a determinação da personagem de Fassbinder nem o cinismo da de Verhoeven, mas possui argumentos para entrar nesta fila. Sóbrio na realização, o filme tem atributos para chegar ao palmarés e Mathilde Arcel mostrou-nos uma das melhores interpretações deste festival.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.