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“Musk” chegou a Veneza: quatro horas de retrato de um egomaníaco

É um documentário de Alex Gibney sobre o homem mais rico do planeta e pergunta-nos: como é que uma só pessoa obteve tanto poder?

Francisco Ferreira
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São quatro horas de filme, com um intervalo de dez minutos cronometrados no ecrã (como recentemente aconteceu com a exibição de O Brutalista). Não era suposto ser tão longo, mas quando o biografado entrou na campanha eleitoral de Donald Trump, Alex Gibney considerou que o projecto de filme que havia planeado tinha que ser ampliado. Gibney é umn documentarista batido, hábil a trazer para o cinema processos narrativos familiares à televisão, e tem matéria aliciante à sua frente: infância, crescimento, vida privada e meteórica ascensão profissional de um empresário inteligente e autodidacta, aquele que, acima de tudo, mais depressa apostou em assuntos vitais da economia do nosso tempo. Ficou estupidamente rico. “Mas a história dele nem é nova. A sua riqueza e poder vêm de acções sobrevalorizadas”, avançou Gibney a abrir a conferência de imprensa. Falamos de Elon Musk, pois claro.

A construção do filme não foi fácil para Gibney. Musk não lhe pôs travão, mas também não colaborou, declinou o pedido de entrevistas, o que levou o cineasta a assumir um Musk narrador gerado em IA. Justifica-se: segundo Gibney, “muito do que Musk diz está rodeado por uma forma de irrealidade.” Há imenso material de arquivo, como se esperava. E depoimentos de gente que rodeou Musk na sua escalada estratosférica (escrevêmo-lo de forma literal, com os foguetões da Space X). “Muitos outros tiveram medo de falar, quase um medo existencial, o que não me surpreendeu.” Ao lado de Gibney, em Veneza, estiveram a jornalista Zoë Schiffer e a influencer Ashley St. Clair, uma das mulheres com quem Musk se relacionou e de quem tem um filho. Conheceram-se pelo Twitter, que hoje se chama X, desde que Musk comprou a empresa.

https://www.youtube.com/watch?v=oYwso9mF-fA

A pergunta mais certeira que Musk (o filme) nos coloca é esta: também estamos implicados, todos nós, enquanto sociedade, no êxito dos “tech broligarchs” que Elon representa? Como é que um só homem obteve tanto poder? Esta jogada por parte de Gibney é inteligente porque a responsabilização sugerida mantém a audiência atenta, isto para lá do fascínio que o homem mais rico do planeta possa causar num ou noutro espectador.

Dito isto, Musk tem altos e baixos. O primeiro negócio com a empresa Zip2, que Musk vendeu no final dos anos 90, embolsando os seus primeiros 22 milhões de dólares (gastou logo 1 milhão na compra de um McLaren F1) tem imensa piada. Apanhar meia hora de lições sobre a história da Tesla nem por isso. No fim da primeira parte, quando conhecemos (tudo através de arquivos) o patriarca da família, Errol Musk (o pai de Elon), engenheiro de Pretória que construiu a carreira na África do Sul, durante o apartheid, perguntamo-nos se o biografado não será, afinal, uma ex-criança traumatizada a precisar de psiquiatria.

Mas a informação mais controversa do filme, entre viagens à Rússia no início do século para comprar foguetões (Musk acabaria por aprender a construir os seus) e a indómita vontade actual de colonizar Marte, é provavelmente a relação de Musk, sempre conduzida com frieza, com as mulheres da sua vida e a “legião de crianças que é preciso fazer antes da chegada da Guerra Civil” (Musk é pai de 14). A frase citada foi enviada a Ashley St. Clair por mensagem, quando estavam juntos, nos tempos em que ela se orgulhava de ser conservadora e apoiar o MAGA. Houve em Veneza quem acreditasse que, para Musk, esta preocupação urgente com a prole é assunto para levar muito a sério.

Alex Gibney mostrou em Veneza quatro horas de retrato de um egomaníaco ampliadas no grande ecrã. Daqui seguem para o Festival de Toronto e, pelo que se percebeu, para uma estreia comercial pontual em sala, nos Estados Unidos, em meados de Outubro, antes da chegada à grelha da HBO.

Na competição, a influência televisiva fez-se notar nos primeiros dias em Primetime, o drama de Lance Oppenheim sobre o polémico reality show To Catch a Predator, que foi para o ar em 2004 e cancelado em 2007. A reputação infâme do programa colou-se ao rosto do apresentador Curtis Hansen, que Robert Pattinson interpreta sem rasgo. Mas o problema do filme nem vem dos intérpretes, antes da inaptidão em tratar dramaticamente um episódio aberrante da história da televisão americana que ultrapassou todos os limites éticos e morais do jornalismo.

Primetime precisava de outras mãos para explorar as obscuras dinâmicas de um voyeurismo televisivo do princípio deste século que, entretanto, talvez tenha sido deslocado para os smart phones e para as redes sociais mais agressivas. Também neste ponto, o filme é uma oportunidade perdida. Vai ser o primeiro filme de Veneza a chegar às salas portuguesas, com estreia marcada para 8 de Outubro.

Curiosamente, L’estranea / A Estranha, entrada italiana no filme de género a concurso no Lido, também decorre duas décadas antes do tempo presente, explorando um drama familiar e uma desajeitada investida no terror sobrenatural. Paolo Strippoli, que realizou fica uns furos abaixo do filme que mostrou no Lido no ano passado, La valle dei sorrisi / The Holy Boy.

O autor escreve segundo a antiga ortografia