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(A) :: O que é um autor na idade da IA? Um pequeno exercício

O que é um autor na idade da IA? Um pequeno exercício

É difícil encontrar um argumento solitário que, dispensando o esforço do humano em escrever, de facto, alguma coisa, possa preservar intacta e absoluta a sua pretensão de autoria.

Hugo Dantas
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A partir de que ponto é que alguém que use um LLM para escrever um texto pode deixar de dizer que o texto é seu ou apenas seu? Alguns farão como o jesuíta da velha anedota e responderão à pergunta com outra pergunta, a saber: O que é que isso importa?

E pur, importa. Antes dos LLMs, e ressalvado o caso de plágio, o texto publicado em nome próprio era um instrumento de revelação pessoal, mesmo quando, ou até porque, não completamente subordinado ao seu autor. O texto comunicava sempre além de si mesmo: era uma sinalização da personalidade e das qualidades de quem o escrevia. Esta sinalização é essencial a todo o processo formal de avaliação por texto, como no caso dos trabalhos académicos, mas desempenha, na verdade, uma função muito mais vasta na interacção social. O recurso extensivo aos LLMs para escrever, que pode significar, no limite, encomendar-lhes o texto, interfere com este sistema de sinalização.

Este facto permanece mesmo perante desconstruções dos conceitos de autor e de autoria, em que geralmente nos citarão, para nossa edificação, Barthes e Foucault, e diante de argumentos mais prosaicos como o de que, no uso de LLMs, e diferentemente do que sucede nos casos de plágio, não existe um lesado. Todas estas teorias aparecem neste contexto sobretudo como racionalizações para a prática de assinar textos que se não escreveu. Se bem que a ética da utilização destes recursos esteja ainda em concepção, parece-me seguro dizer que teremos de qualificar grande parte dos exemplos destes primeiros tempos como fraudes ao leitor, ao editor e, mais do que tudo, ao próprio subscritor dos textos, desculpável apenas porque (parafraseando Peter Medawar sobre Chardin) para iludir os mais, precisou antes de se iludir a si mesmo.

O êxito dos LLMs na produção de texto estava predestinado, como o de qualquer máquina que possibilite a nossa preguiça, e que para mais permita satisfazer a pulsão contemporânea de aparecer, aparecer mais, aparecer sempre, independentemente de como se aparece. É a transição do artesão para a máquina, do artefacto dura e subjectivamente trabalhado para a produção em massa, em campos de actividade humana que, desde há, muito, obedeciam a uma lógica de massificação, conquanto imperfeitamente executada. No entanto, esta nova eficiência convive com estruturas que exigem a imputação pessoal de condutas, méritos e inclinações.

Não digo que não se usem LLMs – eu próprio os uso, para outros fins que não o de escrever. Não digo também, o que seria parvo, que não se deva distinguir entre os diversos contextos e propósitos do uso da linguagem. No entanto, parece-me uma boa máxima a de que se deva assinalar as intervenções de LLMs em textos assinados, de âmbito que não seja estritamente funcional – ainda que que isto signifique partilhar ou mesmo abdicar, substancialmente, da sua autoria. Sinto que me gritam aí de uma caixa de comentários qualquer: mas isso é quase o mesmo que pedir que não se usem! Esse grito é uma formidável contraprova do meu argumento: de facto, a autoria ainda importa, e algo se ganha socialmente em reclamar a autoria exclusiva de um texto, mesmo quando foi um LLM que o escreveu. O argumento implícito no grito é que a grande vantagem de usar LLMs é adquirir os méritos do texto sem realmente precisar do talento ou do esforço. É honesto?

Mas, porque o círculo é uma forma muito bela, retorno à pergunta inicial: a partir de que ponto é que o texto não é nosso? É que existe um arco amplo de intervenções que um LLM pode fazer num texto, em conjugação com um humano, e talvez nem todas justifiquem tributar-lhe os créditos. Analiso a seguir alguns argumentos para preservar o crédito exclusivamente humano do texto, perante diferentes graus de intervenção do LLM.

Fui eu que aceitei o texto e decidi publicá-lo.

O editor que aceita o texto na sua publicação e escolhe dá-lo à estampa teria de ser creditado, por estas mesmas razões, como autor. Não me importo de partilhar crédito com o bondoso editor que permite os meus estragos no Observador, embora ele se pudesse importar com a assunção da responsabilidade. O que é que nos levaria a dizer que aquele que publica um texto redigido por LLM é autor em vez de uma espécie de editor ou procurador de carne do modelo de linguagem?

Fui eu que escrevi o prompt.

É um excelente começo: há quem solicite ao LLM que redija os prompts para si mesmo. No entanto, há prompts e prompts. Um prompt genérico em que se pede ao LLM que escreva um texto sobre um tema é diferente de um prompt que determina a tese do texto ou os argumentos a apoiá-la. O que impede de dizer a um LLM: escreve um texto sobre um tema na ordem do dia que me faça parecer inteligente? Suspeito que é que muitos, incluindo muitos colunistas, já fazem.

Fui eu que determinei o sentido ou tese do texto.

Muito bem. E os argumentos a sustentá-la? A invenção de argumentos soía ser o passo em que o autor demonstrava o seu conhecimento do estado da questão e exibia o engenho do seu intelecto. É justo que reclame o crédito de raciocínios que não são seus?

Fui eu que determinei o sentido o texto e enunciei os argumentos.

Nesta hipótese, o argumento para afastar o crédito ao LLM é decididamente mais robusto. No entanto, a exposição das ideias por escrito, nomeadamente, a organização dos argumentos, a clareza na expressão e o uso competente dos recursos estilísticos detêm também um valor relevante de sinalização das qualidades intelectuais dos autores. Em alguns contextos, o timbre da voz é particularmente relevante para a integridade do texto – pense-se no colunista de um jornal.

Argumento para utilizadores avançados: tenho trinta agentes a trabalhar para mim em diversos sectores da minha vida e um deles foi alimentado com todos os textos que escrevi na minha carreira, com indicação para usar o meu estilo, as minhas referências, as minhas posições.

Antes de mais: bravo! E sinto-me até incomodado por, ante tamanha demonstração de destreza tecnológica e futurismo, encontrar ainda dois mínimos problemas. O primeiro é que não se consegue em qualquer LLM a separabilidade entre o texto da autoria do humano com que se alimentou a máquina e o resto, quantitativamente muito maior, dos seus dados de treino, formados a partir de milhões de autores. O segundo é que, por este critério, tomado isoladamente, alimentaríamos a máquina com todos os textos de Cícero e teríamos agora excelentes textos do filósofo romano, em escorreito e clássico latim, sobre a ascensão da «inteligência artificial», a moção de censura do Chega ao Governo e a vitória da Espanha do Mundial de Futebol deste ano.

Enfim, é difícil encontrar um argumento solitário que, dispensando o esforço do humano em escrever, de facto, alguma coisa, possa preservar intacta e absoluta a sua pretensão de autoria. Não é que estas reservas éticas detenham alguém, como nunca detiveram. Talvez contribuam para cunhar quem as produza como uma forma de vida obsoleta. Seja. Mas que resta aos derrotados senão deixar lavrado o seu protesto nesse fóssil de uma espécie extinta, que é um texto inteiramente humano?