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(A) :: As explicações de Neves dão comichão de inquérito

As explicações de Neves dão comichão de inquérito

O operacional Luís Neves teve falhas éticas? Se sim, foi só porque a burocracia bloqueia quem quer fazer coisas. Eliminamos a burocracia, então!? Claro que não: borrifamos é para a ética.

Tiago Dores
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Que ano é isto? Dois mil e quê? Vinte e seis? De certeza? É que, em 2016, António Costa prometeu que todos os portugueses teriam médico de família até ao final de 2017. E nada. Depois, em Maio de 2019, o governo garantiu que em 2020, aí sim, todos os portugueses teriam médico de família. E ainda nada. Já em Fevereiro de 2024, Luís Montenegro prometeu que até ao final de 2025, aí é que não ia falhar, todos os portugueses teriam médico de família. E… exacto. Portanto, a confirmar-se que estamos em 2026, isto é das esperas mais longas de sempre por um médico, and counting.

Se bem que o senhor que esteve 36 horas nas urgências do Amadora-Sintra, há pouco mais de uma semana, ficou lá perto. Uma espera que pode parecer desagradável à primeira vista, mas que à 37.ª vista até é interessante. É que, com esperas desta duração, acaba por ser desnecessário ter médico de família: uma vez que praticamente já se vive no hospital, não é preciso ir ter com o médico, porque o médico vem ter connosco.

Eventualmente vem ter connosco. Que, segundo consta, boa parte destas 36 horas foram à espera que alguém se lembrasse de avisar o desgraçado do senhor que tinha alta e podia voltar para a sua casa. Melhor dizendo, para a sua — agora — segunda casa. Uma pessoa entra no hospital como potencial vítima de AVC e sai como proprietário orgulhoso de um T2 de férias em Queluz de Baixo.

Ainda se o número de médicos de família aumentasse como aumentam os combustíveis… Ui, aí sim. Neste momento já haveria mais médicos de família per capita em Portugal do que no anfiteatro onde decorrem as entregas de diplomas da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

A verdade é que os temas saúde e combustíveis têm andado a inflamar o ambiente no país. Esta semana até houve marcha lenta junto à refinaria de Sines. Não é que as pessoas não gostassem de ver o problema resolvido rapidamente, é só que, para onde havemos de ir depressa? Para uma consulta com o inexistente médico de família? A boa notícia é que um cenário de protestos mais violentos está posto de parte, porque ninguém tem capital para investir no combustível para os cocktails Molotov.

Por isso, mas mais ainda porque o Ministro da Administração Interna, Luís Neves, está de pedra e cal no governo, claro. Se é a Construbarcelos a erigir a muralha que protege o ministro no executivo de Montenegro com esta pedra e esta cal, isso já não sei. E pedir explicações destas temáticas a Luís Neves é como pedir explicações de Matemática a Mariana Mortágua: horas de conversa para, no fim das contas, continuarmos a não saber quanto é 8×7. Uma coisa é garantida: enquanto Luís Neves for o MAI, é certinho que nenhuma notícia oficial de um eventual aumento da criminalidade nos vai arrombar a porta de casa.

Nem notícias oficiais sobre aumentos de criminalidade, nem notícias esclarecedoras sobre a, para aí, meia dúzia de processos que envolvem o MAI. Ainda ontem teve lugar a audição parlamentar ao ministro, mas a mim, confesso, as explicações de Luís Neves dão-me é comichão de inquérito: fica sempre um irritantíssimo incómodo, que dá mesmo ideia que se fossemos lá inquirir um pouco mais a coisa infectava em menos de nada.

Mas a falha de percepção é de certeza minha, uma vez que se houve falhas éticas por parte de Luís Neves, elas ficaram a dever-se apenas aos bloqueios que a burocracia cria a este tipo de indivíduo extra-dinâmico, que quer fazer coisas. E nestas circunstâncias, poder-vos-ia ocorrer: “Então vamos eliminar a burocracia!?” Ah, ah, ah! Claro que não: borrifamos é para a ética.