Primeira pergunta: quem é, quem é, que tem andado a comer as papas na cabeça ao cinema americano, em géneros que eram outrora dominados por este, alguns mesmo de forma quase exclusiva, como a ficção científica, o terror e o fantástico em geral? Resposta: é o cinema sul-coreano, de onde têm saído alguns dos filmes mais inventivos, criativos e entusiasmantes destes últimos tempos, e também nos campos do policial e do drama de fundo social. Segunda pergunta: qual é, qual é, o descomunal filme que junta ação, terror e ficção científica sul-coreano e fez sensação no Festival de Cannes, daqueles que o cinema americano fazia outrora com uma perna às costas, e hoje já não sabe ou não consegue fazer? Resposta: Hope, de Na Hong-jin.
Enquanto Hollywood vai definhando ao persistir na macrocefalia vácua dos filmes de super-heróis, e James Cameron, o único cineasta que poderia hoje defender as cores dos EUA neste departamento, se repete até à exaustão em Avatar, a sua franquia ecossimplório-futurista, a indústria cinematográfica da Coreia do Sul passeia uma pujança, uma imaginação e uma variedade invejáveis. E Na Hong-jin, autor de O Lamento (2016), um dos grandes filmes de terror deste século, realiza, com Hope, o melhor blockbuster “à americana” do ano, e isto sem abdicar da identidade sul-coreana. A fita é também a mais cara até hoje ali feita, mas o dinheiro está todo na tela.
[Veja aqui o “trailer” de “Hope”:]
https://www.youtube.com/watch?v=mYRc2Gl7geY
Em Hope, Hong-jin pegou num tema querido à ficção científica hollywoodesca, e sobretudo à sua série B, a pequena cidade que tem que enfrentar uma invasão alienígena, e afeiçoou-o a uma localização e uma atmosfera tipicamente sul-coreanas: a remota e plácida vila costeira de Hope, próxima da Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias, onde abundam os cartazes avisando contra os espiões e sobre os campos de minas. É numa das estradas que lá vão dar que aparece um boi morto e horrivelmente mutilado por um animal não identificado. Um tigre vindo da Sibéria, provavelmente, como adiantam ao chefe de polícia local, Beom-seok (Hwang Jung-min), os membros do grupo de caçadores que achou o animal.
Enquanto não revela a misteriosa entidade responsável pelo macabro fenómeno, o realizador vai fazendo subir o termómetro do suspense, ao seguir o rasto de devastação e morte que a criatura está a espalhar na vila, pelos olhos do cada vez mais atarantado polícia, e mostrar a forma como ela se vai vendo livre dos cidadãos que a procuram combater, atirando-lhes desde automóveis a bocados de telhados. E paralelamente, na floresta, acompanha o punhado de caçadores que, por seu lado, vão descobrindo mais horrores, pondo-nos a suspeitar de que há mais do que uma criatura à solta.
[Veja o realizador e os atores falar sobre o filme no Festival de Cannes:]
https://www.youtube.com/watch?v=_XOMclwALL8
Uma vez exposto o monstro, Hong-jin engata a quinta velocidade, liga o turbo e faz disparar a adrenalina, e transforma Hope num acelerado, palpitante e visualmente majestoso espetáculo em que, entre gritaria e revoadas de palavrões, humanos de automóvel, a cavalo e a pé combatem extraterrestres velocíssimos, que dão saltos enormes, fazem acrobacias nas árvores e se autorregeneram após serem atingidos por tiros de espingarda, metralhadora ou granadas de morteiro. E durante o qual o realizador filma uma das mais frenéticas perseguições de que há memória recente. Metidos num carro da polícia com o prego a fundo, o atarantado chefe, a destemida e destravada agente Sung-ae (a vedeta da K-Pop Jung Ho-yeon) e um caçador, o aparentemente invulnerável Sung-ki (Zo In-sung), fogem de um dos monstros por uma autoestrada, enquanto tentam rebentar com ele.
Nas poucas alturas em que o filme abranda para respirar, e para nos permitir recuperar o fôlego, Hong-jin aproveita para lhe injetar humor, que tanto pode ser escatológico como negro. Há ainda algum gore, cortesia da sequência de uma autópsia pouco ortodoxa, feita com instrumentos pouco dados para o efeito.
[Veja uma sequência do filme:]
https://www.youtube.com/watch?v=QfLlrTkCeI0
Hope dura 160 minutos, mas que passam num fósforo. E à medida que se aproxima o final deste primeiro filme (Na Hong-jin já escreveu a continuação), vamo-nos apercebendo de que não é apenas um “monster movie” convencional sobre uma batalha alucinante entre terrestres e alienígenas, e que o enredo irá ficar mais complexo na parte II.
Que venha a continuação de Hope, e quanto mais depressa, melhor. E que entretanto Hollywood ponha os olhos neste filme, para perceber como é que um sul-coreano chamado Na Hong-jin, com apenas dois policiais e uma fita de terror no currículo, bateu James Cameron, John McTiernan e Michael Bay no seu próprio terreno, e corar com vergonha.