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Igreja da Lapa encheu-se de familiares, amigos e colegas autárquicos no adeus a Nuno Cardoso

Funeral de Nuno Cardoso encheu Igreja da Lapa de conhecidos e amigos do antigo presidente da Câmara do Porto. "Devoção até ao último minuto à nossa cidade", destacou o autarca Pedro Duarte.

Miguel Pinheiro Correia
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A Igreja da Lapa encheu-se esta terça-feira para o funeral de Nuno Cardoso, antigo autarca do município do Porto que morreu na segunda-feira com 64 anos. Apesar de ser grande, não restavam lugares sentados dentro do templo simbólico da cidade do Porto. De pé, e junto ao enorme portão, muitas pessoas não quiseram perder a última homenagem a um político e engenheiro com antiga e dedicada ligação à autarquia.

Pelas 13h30, a meia hora do arranque da cerimónia, já se iam concentrando no topo da escadaria algumas pessoas à conversa ou com abraços de solidariedade para os familiares e amigos. Foi também por essa hora que chegou Fernando Gomes, figura relevante para o percurso político de Nuno Cardoso no Porto.

O antigo autarca — que quando estava em funções chamou Nuno Cardoso para a vida autárquica do Porto — entrou na Igreja da Lapa em silêncio, pouco antes de André Villas-Boas, presidente do FC Porto. Também o dirigente desportivo não quis falar, depois de na segunda-feira o clube ter lamentado a morte de um “portista convicto e adepto fervoroso do FC Porto”, que “acompanhou sempre o clube com paixão e sentido de pertença”.

Se o tempo de Nuno Cardoso à frente dos destinos da Câmara foi curto — entre 1999 e 2002, em substituição de Fernando Gomes — o mesmo não se poderá dizer da ligação à cidade. Por esse motivo, foram muitas as figuras da vida autárquica portuense a marcar presença no funeral.

https://observador.pt/2026/09/07/morreu-nuno-cardoso-antigo-presidente-da-camara-municipal-do-porto/

“Teve esta devoção até ao último minuto à nossa cidade, à região e à causa pública”, destaca Pedro Duarte

O atual presidente da Câmara, Pedro Duarte, chegou à Igreja da Lapa acompanhado da vice-presidente, Catarina Araújo. Pouco depois, chegaram ainda os vereadores Jorge Sobrado e Hugo Beirão, além de Manuel Pizarro. O executivo municipal tinha estado reunido nos Paços do Concelho para a reunião pública da autarquia.

Apesar de ter mantido o silêncio à chegada da cerimónia religiosa, tanto o autarca do PSD e ex-ministro dos Assuntos Parlamentares, como o vereador do PS e antigo ministro da Saúde, elogiaram Nuno Cardoso na reunião dessa manhã. “Diligentemente serviu e muito honrou a nossa cidade enquanto autarca, engenheiro, professor e cidadão”, disse Pedro Duarte.

Além de ter destacado a faceta mais conhecida de dedicação à cidade e à “causa pública” até “praticamente ao último dia”, o autarca quis deixar uma “nota pessoal”. “Mesmo depois das últimas eleições autárquicas, em que poderia dedicar-se a outras tarefas da sua vida, a verdade é que assim não aconteceu: eu tive inúmeras reuniões nos últimos meses com o engenheiro Nuno Cardoso, com algumas pessoas que ele fez questão de trazer. (…) Apresentou permanentemente ideias, sugestões, contributos… senti sempre um apoio incondicional, ele teve esta devoção até ao último minuto à nossa cidade, à região e à causa pública”, acrescentou Pedro Duarte.

Manuel Pizarro lembrou uma “relação muito longa” que começou quando o atual vereador — “então muito jovem” — foi número dois de uma lista encabeçada por Nuno Cardoso. Destacou ainda que mesmo tendo sido “aliados políticos” e mais tarde “adversários políticos”, a relação pessoal nunca esteve em causa. “Um homem cheio de ideias e cheio de vontade de as concretizar”, lamentou o socialista, antes de ter sido votado, e aprovado, o voto de pesar e respetivo minuto de silêncio.

Fora da vida autárquica do Porto, o funeral desta terça-feira também contou com a presença de António Silva Tiago, Presidente da Câmara Municipal da Maia, e de Francisco Porto Fernandes, Presidente da Federação Académica do Porto.

Funeral seguiu-se no Peso da Régua, de onde Nuno Cardoso era natural

Quando terminou a cerimónia na sobrelotada Igreja da Lapa, pelas 15h, o caixão foi levado para um dos carros funerários estacionados no Largo da Lapa. Além do carro que transportou o corpo de Nuno Cardoso, partiram outros dois recheados de coroas de flores para o Peso da Régua, de onde era natural o antigo autarca. Entre as largas coroas de flores viam-se mensagens da Casa da Música, da Câmara Municipal do Porto e do FC Porto.

No Peso da Régua realizou-se uma segunda cerimónia, às 16h30. “Após a cerimónia religiosa, o funeral seguirá para o jazigo de família, no Peso da Régua, onde terá lugar a última despedida em ambiente reservado aos familiares e amigos mais próximos”, lia-se numa nota enviada pela família à agência Lusa.

O antigo presidente da Câmara do Porto morreu aos 64 anos no Hospital de Santo António. Formado pela FEUP em Engenharia Civil, acabou por ficar recordado pela participação política na autarquia do Porto, para onde foi chamado por Fernando Gomes, então autarca, para assessorar na área do urbanismo e transportes.

Quando Fernando Gomes foi escolhido para integrar o Governo de António Guterres, Nuno Cardoso assumiu os destinos da autarquia. Nos quase três anos como autarca — entre 1999 e 2002 — assumiu pastas relevantes para a cidade como a Porto 2001 — Capital Europeia da Cultura e a Metro do Porto. A própria empresa de transportes, através de uma nota de pesar, destacou a importância do engenheiro no setor dos transportes: “Nuno Cardoso dedicou uma parte significativa da sua vida à causa pública, tendo desempenhado um papel relevante em diversos projetos cruciais para o desenvolvimento da cidade do Porto, entre os quais se encontra o do Metro”.

Não se livrou de polémicas, umas com maior peso do que outras. No final do mandato aprovou construções junto ao Parque da Cidade que o envolveriam mais tarde em processos judiciais. E ainda deu a cara quando o fogo de artifício da passagem de ano (de 1999 para 2000) não rebentou por uma falha técnica.

Em 2004 foi alvo de buscas em casa, depois de uma troca de terrenos, de 1999, entre a autarquia e o FC Porto ter sido contestada pelo Ministério Público e pela Inspeção-Geral das Finanças, com alguns proprietários expropriados a processar a autarquia. Nuno Cardoso acabaria por ser absolvido em 2010, depois de alguns anos em que viu a sua imagem pública posta em causa. Em 2009, teve suspensa uma pena por prevaricação, associada a um perdão de multa ao Boavista.

Depois do curto período como autarca, acabou substituído por Fernando Gomes como cabeça de lista nas autárquicas de 2001, que Rui Rio acabaria por vencer. Ainda assim, como recordou agora Pedro Duarte, o interesse pelos destinos da cidade manteve-se sempre, levando-o a candidatar-se em mais duas eleições autárquicas.

Em 2013, como independente, acabou com 1.255 votos, perto de 1%, num ano em que Rui Moreira, também independente, venceu o primeiro de três mandatos na autarquia. Com o fim do percurso de Rui Moreira, Nuno Cardoso voltou a tentar a sua sorte. Integrou a coligação Porto Primeiro — Nós, Cidadãos! / Partido Popular Monárquico (PPM), conseguindo 2.190 votos. Esta terça-feira e na quarta-feira o município do Porto cumpre dois dias de luto municipal.