Durante 24 anos, estiveram perdidas na Câmara Municipal de Nova Iorque 68 caixas, que continham mais de 170 mil páginas de relatórios sobre a qualidade do ar na cidade após os ataques terroristas no dia 11 de Setembro de 2001. Parte dos documentos — que só foram descobertos no ano passado — foi publicada esta terça-feira pela atual administração e sugerem que os responsáveis nova-iorquinos no pós-11 de Setembro tinham conhecimento da má qualidade do ar na cidade, mas permitiram, ainda assim, a entrada de pessoas nas imediações do Ground Zero, o local onde ficavam as Torres Gémeas.
“As pessoas ficaram doentes porque os líderes em quem confiavam mentiram e lhes disseram que era seguro respirar ar tóxico”, afirmou o presidente da Câmara, Zohran Mamdani, numa conferência de imprensa sobre o tema, em que se rodeou de sobreviventes. Em causa, estão as doenças, como cancros no sistema respiratório e no sangue e doenças cardíacas e respiratórias, que afetaram, ao longo das últimas duas décadas, muitos dos bombeiros e trabalhadores dos serviços de emergência que acorreram ao World Trade Center em setembro de 2001.
https://twitter.com/NYCMayor/status/2097306707944706516
As autoridades norte-americanas estimam que as doenças provocadas pela aspiração do fumo e das partículas de pó que cobriram a cidade durante meses terão matado mais do que as quase 3 mil pessoas que morreram no impacto direto dos aviões que embateram nas duas torres. A preponderância deste tipo de doenças nos sobreviventes levou o grupo ativista 9/11 Health Watch a instaurar um processo contra a Câmara que levasse à publicação dos documentos — com a publicação destes documentos, o processo é dado como resolvido.
Entre as milhares de páginas, analisadas pelo New York Times, contam-se resultados de análises feitas em julho de 2002 que encontraram amianto “nas fachadas”, “nos telhados do lado oeste”, “nos cabos elétricos” dos prédios analisados nas imediações do World Trade Center. O lote de documentos inclui ainda o chamado “Memorando Harding”. Nessa mensagem, enviada em outubro de 2001 e intitulada “Alternativas Legislativas para Limitar a Responsabilidade da Cidade no que toca ao 11/9/01”, um conselheiro do vice-presidente da Câmara Robert Harding avisava o número dois do mayor Rudy Giuliani que a cidade podia ser alvo de 35 mil processos legais no rescaldo dos ataques, devido à exposição a ar tóxico e à utilização de equipamentos inadequados.
“Seria uma coisa se o Governo tivesse ficado do lado dos sobreviventes e os tivesse ajudado com tudo o que precisassem em todo o processo e, no entanto, sabemos que isto não podia estar mais longe do que realmente aconteceu”, condenou Mamdani. “Uma administração atrás da outra ignorou os apelos para resposta e transparência”, continuou o autarca. “Determinada a fazer mais”, a atual administração alocou 34 milhões de dólares (cerca de 29 milhões de euros) para acelerar o processo de análise, seleção e publicação dos documentos por ocasião dos 25 anos dos ataques — que se cumprem na próxima sexta-feira.