Chamava-se Ana Maria Palhota da Silva Pais mas, em Portugal ou em Cuba, onde viveu durante quase 30 anos, toda a gente a tratava carinhosamente por Annie.
No final de outubro de 1965, deveria ter regressado a Havana depois de umas férias na Cidade do México, mas isso não aconteceu. Annie, filha única de Fernando Silva Pais, então diretor da PIDE, e mulher de Raymond Quendoz, um diplomata suíço colocado em Cuba, foi dada como desaparecida.
A família chegou a temer o pior. E fez de tudo para a encontrar. O caso deu origem a um mistério de dimensão internacional que mobilizou o responsável da CIA em Havana; o chefe dos serviços de segurança suíços; o mais alto representante de Portugal em Cuba e, em Lisboa, chegou até Salazar.
Quando finalmente Annie reapareceu, dois meses mais tarde, como se nada fosse, a passear pelas ruas de Havana, foi um escândalo. A filha do diretor da polícia política do Estado Novo, homem devoto a Salazar, tinha largado tudo para se juntar à revolução cubana. Com a conivência — e a ajuda — da cúpula do regime, incluindo o próprio Fidel Castro.
Apesar dos esforços de Silva Pais e da mulher, Armanda Palhota, Annie só voltaria a Portugal a espaços, e só depois do 25 de Abril, para ajudar a fazer a revolução e para tentar salvar o próprio pai.
Ao longo do resto da vida, a portuguesa, que fugiu do marido diplomata depois de se apaixonar pelo médico de Fidel, viveu como uma verdadeira cubana. Usou a farda miliciana, viveu com senhas de racionamento, trabalhou com os homens mais poderosos do regime e chegou a ter passaporte diplomático cubano e a viajar para todo o mundo (Coreia do Norte incluída) em representação do país.
Deslumbrada por Che Guevara desde a primeira hora, Annie foi próxima de Fidel Castro e de alguns dos homens do núcleo duro do líder cubano — incluindo José Manuel Abrantes Fernandez, o seu último grande amor, ex-membro da polícia política do regime e ministro do Interior de Cuba, que se viu envolvido num dos momentos mais marcantes da história cubana recente, o chamado “Caso Ochoa”. Um escândalo que juntou droga, fuzilamento, prisão e o narcotraficante mais conhecido do mundo, Pablo Escobar.
O novo Podcast Plus do Observador revela esta e todas as outras histórias da vida de Annie Silva Pais, antes, durante e depois da fuga.
É uma série para ouvir em seis episódios que tem narração da atriz Bárbara Branco, banda sonora original de Frankie Chavez e entrevistas e guião da jornalista Inês André Figueiredo. A sonoplastia é de Pedro Oliveira, Mariana Sousa Aguiar e Artur Costa.
“Os Escândalos de uma Revolucionária” estreia na próxima terça-feira, dia 15 de setembro, mas o trailer já está disponível. Pode ouvi-lo aqui:
https://observador.pt/programas/os-escndalos-de-uma-revolucionria/trailer-os-escandalos-de-uma-revolucionaria-estreia-a-15-de-setembro/
Como habitualmente, a cada terça-feira sai um novo episódio deste novo Podcast Plus; mas se é assinante standard ou premium do Observador não vai ter de esperar para ouvir a série completa. Logo no dia da estreia, vai poder encontrar os seis episódios disponíveis no site do jornal.
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