Ali, na antecâmara do regresso à Liga dos Campeões, as imagens contavam mais do que as palavras diriam de seguida. Havia concentração, havia um ambiente descontraído. Estava presente o líder do clube, tudo estava a ser gerido com a maior normalidade. Sobrava confiança, sobrava uma equipa que continua a ganhar por ser “desconfiada” em campo. Com cinco vitórias noutros tantos encontros na Liga com apenas um golo sofrido e uma Supertaça a abrir a temporada, o FC Porto chegava no melhor momento possível à Liga dos Campeões, uma prova que se tornou sua por direito próprio integrando o top 4 de equipas com mais participações mas que falhara na última época de “reconstrução”. Todavia, com mais ambições chegavam também mais responsabilidades. E com mais responsabilidades surgiam também dois desafios extra a esta “era Farioli”.
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Por um lado, e num cenário poucas vezes antes visto, o conjunto azul e branco tinha de reinterpretar o seu jogo não podendo contar com Victor Froholdt, ainda a cumprir todas as etapas do protocolo pós-concussão cerebral da FIFA sofrida nos minutos finais da receção ao Moreirense (além de Pietuszewski, Jan Bednarek ou Zaidu). Por outro, começava um teste à capacidade de manter a regularidade no Campeonato tendo jogos da Liga dos Campeões pelo meio, num desafio que vários treinadores assumem criar mais “mossa” do que qualquer outra partida. E era aqui que o treinador portista defendia o momento da equipa, fazendo uma confissão sobre a forma como o grupo reagiu às ausências para a receção ao Manchester City.
“Se olharmos para o último jogo da Liga Europa, além do Diogo [Costa], não temos os jogadores todos da zona central, porque não temos Bednarek, Froholdt e Samu. Não temos toda a gente por diferentes razões mas é uma oportunidade para o resto do grupo mostrar o que vale nos maiores palcos, para dar resposta ao trabalho que colocam em campo. É uma oportunidade para o grupo minimizar estas ausências e cumprir o objetivo. O mais importante é o espírito. Esta manhã, na reunião, estávamos a rir sobre as boas notícias e as más notícias. As más notícias são que vamos ter de correr muito. As boas é que temos pernas e pulmões para fazer uma grande exibição contra uma das melhores equipas do mundo. Sabemos quem somos. Com respeito e humildade, mas com o nível certo de ambição e desejo de que, especialmente no Dragão, podemos fazer algo especial com o nosso público a ajudar-nos nos últimos cinco metros”, apontava.
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Em paralelo, Farioli puxava dos galões do FC Porto na prova para deixar ainda mais efervescente um Dragão que também podia ter o seu peso no encontro que marcava o regresso do City ao palco onde perdeu a final da Liga dos Campeões frente ao Chelsea. “A história do FC Porto na Champions é enorme. Pelo número de jogos disputados, participações e os dois troféus que estão ali. Agora vamos enfrentar um dos principais candidatos para chegar ao título. Temos enorme respeito pelo adversário, pela qualidade individual, pela organização, pelo legado que criaram com Pep Guardiola e pela nova era com Maresca. É um jogo que exige o nosso melhor mas vamos fazer tudo para deixar os adeptos felizes. Sempre que jogamos no Dragão algo especial pode acontecer”, salientava, olhando também para aquilo que teria de acontecer entre as baixas.
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“Temos de nos adaptar ao que a equipa precisa, o que traz um certo nível de energia. Neste mercado houve jogadores a serem transferidos nos últimos dias e ainda não estão na melhor forma. Há decisões que ainda temos de tomar sobre o que devemos fazer. Acredito que amanhã [terça-feira] será muito importante para o grupo dar um passo em frente, encontrar respostas e dar respostas face às ausências que temos. Depois há o papel que a família portista pode ter no encontro, para criar o ambiente certo para termos uma grande exibição. Também para mim é a estreia mas tratamos todos os jogos com a mesma atenção e nível de detalhe na preparação. O que fazemos é ir mais longe nos jogos domésticos porque exige mais motivação. Estar motivado vai ser muito fácil mas não chega, depende da abordagem que tivermos, da capacidade para executar, não só o plano geral, mas as tarefas individuais a nível alto”, lançara ainda na antecâmara do jogo.
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A energia estava lá, a vontade nunca faltou, tudo o resto sofreu um eclipse – ou quase tudo, tendo em conta que Diogo Costa voltou a mostrar em campo que a lista de dez nomeados para Melhor Guarda-redes do Ano só pode ter sido tirada de um questionário de influencers que só vão pelo viral e passam ao lado do óbvio. Num dia em que São Diogo foi quase um Deus, o Cyborg que é tudo menos humano acabou por fazer a diferença com dois golos que materializaram o maior andamento, experiência e qualidade do Manchester City. Sobrou o aplauso final dos adeptos, a atitude demonstrada e uma lição para o futuro: ainda existe uma enorme diferença entre o FC Porto e equipas candidatas à vitória nesta Liga dos Campeões e, quando a ansiedade funciona como 12.º adversário, tudo se torna mais complicado para impedir a lei do mais forte.
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Ficha de jogo
FC Porto-Manchester City, 0-2
1.ª jornada da Liga dos Campeões
Estádio do Dragão, no Porto
Árbitro: Szymon Marciniak (Polónia)
FC Porto: Diogo Costa; Alberto Costa, Nehuén Pérez, Kiwior, Martim Fernandes (Francisco Moura, 73′); Pablo Rosario, Alan Varela (Inbeom Hwang, 68′); William Gomes (Borja Sainz, 68′), Gabri Veiga (Seko Fofana, 83′), Pepê e André Silva (Santi Giménez, 73′)
Suplentes não utilizados: Cláudio Ramos, João Costa, Souza, Duarte Cunha, Tiago Silva, Luís Gomes e João Teixeira
Treinador: Francesco Farioli
Manchester City: Donnarumma; Matheus Nunes, Rúben Dias, Marc Guéhi, Gvardiol (Khusanov, 48′); Enzo Fernández, Bouaddi (Kovacic, 75′); Phil Foden (Aït-Nouri, 75′), Cherki (Elliott Anderson, 62′), Semenyo (Ndiaye, 62′) e Haaland
Suplentes não utilizados: Bettinelli, Rulli, Vitor Reis, Allan Elias, McAidoo e Lewis
Treinador: Enzo Maresca
Golos: Haaland (47′ e 90+1′)
Ação disciplinar: cartão amarelo a Gvardiol (37′), Donnarumma (49′), Francesco Farioli (86′), Haaland (90+3′) e Pablo Rosario (90+3′)
Com Nehuén Pérez em troca direta com o castigado Bednarek, Martim Fernandes à esquerda no lugar de Francisco Moura e Alan Varela a juntar-se a Pablo Rosario no corredor central soltando mais Gabri Veiga no apoio a André Silva, o primeiro minuto trouxe logo uma aproximação com perigo dos ingleses depois de uma jogada pela esquerda de Semenyo cortada na área por Gabri Veiga e deixou uma ideia clara sobre o que podia ser a partida, com o City a aproveitar a colocação de Bouaddi à frente da defesa para ter uma primeira fase de construção mais pensada e em posse. No banco, Farioli pedia a William Gomes para não defender a largura e ficar mais por dentro, sabendo que por ali andava Gvardiol – mais uma nuance de “encaixe” preparada pelo italiano para a qualidade dos citizens com bola. Era por isso também que os minutos passavam e nem sombra de oportunidades, com o FC Porto a controlar na defesa mas sem conseguir criar perigo no ataque.
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Só mesmo no final do primeiro quarto de hora houve um sinal de perigo do FC Porto no último terço, com Pepê e Gabri Veiga a combinarem bem pela esquerda para o remate do espanhol já na área para defesa de Donnarumma para canto mas com o lance a ser anulado por fora de jogo (15′). Na resposta, e numa das raras vezes em que a transição do City conseguiu encontrar mais espaços, Semenyo arriscou o remate de fora da área mas saiu para defesa segura de Diogo Costa (16′). Os ingleses encontravam uma forma de chegar com perigo ao último terço, num caminho que Phil Foden também desbravou quando deixou o lado direito, criou o desequilíbrio na esquerda e cruzou para Diogo Costa brilhar após desvio de cabeça de Haaland (21′). Não ficaria por aí a noite em que o guarda-redes portista voltou a encher a baliza, com uma jogada pela direita entre Cherki e Phil Foden a terminar com nova defesa a remate perigoso do inglês (29′).
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Faltando argumentos para galvanizar os adeptos no ataque, sobrava a exibição monstruosa de Diogo Costa para dar gás às bancadas no Dragão. Ali estava um muro intransponível, a impedir uma desvantagem que iria deixar o FC Porto ainda mais desconfortável num encontro onde estava tudo menos confortável: depois de mais uma jogada onde Martim Fernandes ficou sozinho a defender 2×1 pela esquerda com a subida de Matheus Nunes, o guarda-redes defendeu um primeiro remate de Haaland na área e ainda se levantou a tempo de travar a recarga de Cherki (32′). Os ânimos ficariam mais exaltados na antecâmara do intervalo, na sequência de uma entrada dura de Marc Guéhi sobre Gabri Veiga que abriu o sobrolho ao espanhol mas não teve qualquer sanção disciplinar (42′), mas o resultado continuaria mesmo em branco até ao intervalo.
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Farioli tinha muito para discutir com a equipa ao intervalo. Depois de um arranque em que foi conseguindo controlar as ações ofensivas dos ingleses, o FC Porto perdeu-se em erros de posicionamento perante a maior mobilidade do ataque do Manchester City, que chegou às zonas de desequilíbrio criando superioridades que deixavam os laterais e os médios mais defensivos expostos à magia. Mais: em termos ofensivos a equipa não existia, o que deixava ainda mais os ingleses numa posição confortável para assentarem arraiais no meio-campo contrário até criarem situações de golo. Estava a ser assim na primeira parte, foi assim no arranque do segundo tempo… com uma diferença – deu mesmo golo: Cherki ainda conseguiu evitar que um passe de Phil Foden saísse pela linha de fundo, Enzo Fernández cruzou e Erling Haaland desviou de cabeça fazendo a bola bater ainda no poste direito da baliza de Diogo Costa antes de entrar para o 1-0 no Dragão (47′).
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As coisas não estavam a correr bem ao FC Porto, a ansiedade era mais um adversário a par do City, os passes errados continuavam a suceder-se. Foi aí que, num lance que foi a exceção à regra, Alan Varela arriscou uma meia distância de longe que passou perto do poste da baliza de Donnarumma (56′). O resultado continuava na mesma, os dragões ainda não tinham enquadrado sequer uma tentativa, mas o Dragão voltava a acreditar que era possível algo mais no encontro, a ponto de ter sido a formação inglesa a perceber que necessitava de baixar o ritmo de jogo (algo que consegue fazer melhor agora com Maresca do que fazia com Pep Guardiola, entre muitos pontos onde ainda está a anos-luz). William Gomes teve também uma diagonal da direita para o meio com remate a sair ao lado (62′), o City reagia lançando Elliott Anderson para reforçar o meio.
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Ndiaye também entrou na formação inglesa mas a capacidade no último terço começava a descer a pique, com a parte física a ditar também leis frente a um FC Porto que trocava Alan Varela e William Gomes por Inbeom Hwang e Borja Sainz (68′). O que faltava? Chegar de outra forma ao ataque, organizar de uma maneira diferente, criar oportunidades… e atirar à baliza, numa parte da estatística que continuava a zero. Havia sempre algo que não corria bem quando não podia falhar, dos passes que tentavam dar largura ao jogo ofensivo aos cruzamentos, da procura da profundidade que multiplicava as situações de fora de jogo às bolas paradas e ao jogo por dentro já com Gabri Veiga muito desgastado (seria substituído na parte final por Seko Fofana), e acabou por ser o City a chegar ao 2-0 por Haaland após assistência de Aït-Nouri (90+1′).
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