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(A) :: Artigos de lojas da Baixa como obras de arte emolduradas: Isa Toledo convida ao olhar com “ternura” para o comércio lisboeta

Artigos de lojas da Baixa como obras de arte emolduradas: Isa Toledo convida ao olhar com “ternura” para o comércio lisboeta

Moradora da Baixa há dez anos, a artista plástica Isa Toledo percorreu lojas à procura de "objetos banais" que expõe numa montra até outubro, com o desejo de chamar a atenção para o comércio local.

Larissa Faria
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“Fotografo qualquer coisa que me chame a atenção. É uma forma de tentar manter os olhos ‘frescos’”, diz a artista plástica Isa Toledo, sentada à mesa num canto da Confeitaria Nacional, na Praça da Figueira, sítio escolhido pela própria para contar ao Observador a sua relação de uma década com a Baixa lisboeta, que agora transforma em arte. O acervo fotográfico construído em caráter informal e despretensioso por Isa ao longo dos anos inspirou a criação do projeto de arte pública “Motivos de Força Maior”, que decorre até outubro numa montra no número 109 da Rua dos Fanqueiros.

A proposta passa por expor, a cada semana, objetos selecionados por Isa em lojas da Baixa numa moldura que é posicionada na montra da loja Mister Man, tal como uma obra de arte numa galeria. “Quem quiser colecionar as obras só precisa de ir às compras”, refere no projeto. O conceito não é fazer um convite ao consumismo, mas sim à valorização do comércio local. “A razão de existirem lojas e bairros é a interação com os lojistas e as surpresas criam os desejos inesperados”, afirma. Apesar do apoio da Direção-Geral das Artes, foi a relação da artista com o bairro que facilitou a execução. A montra, por exemplo, foi cedida por três meses pelo dono da loja de fatos – classificada este ano como Loja com História pela Câmara de Lisboa – para Isa, que é vizinha do espaço.

Após a aprovação do apoio público, Isa listou 25 lojas da zona para comprar um objeto de cada. O critério não era comprar aquilo que é mais vendido, mas sim algo que saltasse aos olhos e pudesse resultar numa composição dupla de objetos. O seu gosto pessoal por “aquilo que é anacrónico, velho e analógico” acabou impresso na maior parte das escolhas. Compras feitas, foi na própria casa da artista que começaram a ser pensados os pares. Um body de bebé da loja Teresa Alecrim, por exemplo, fez par com um besouro de brinquedo da Casa das Bonecas. Uma luva foi acompanhada por um apito, duas tesouras por um par de brincos e assim por diante.

“Interessa-me não só fazer coisas belas. O par tem que suscitar dúvidas ou perguntas”, explica. O processo de realizar os matches tornou-se até mesmo tema de uma sessão de terapia de Isa, que fez uma correlação entre cada uma das obras e a vida: “Imaginámos muitas vezes um par ideal que depois pode nem sequer funcionar, assim como podemos surpreender-nos com combinações improváveis”.

Para tirar o conceito do mundo das ideias e torná-lo tangível aos donos dos negócios (que teriam de autorizar o uso dos artigos e da divulgação do nome dos espaços na montra), Isa encaixou os pares dentro de molduras. Montou um álbum de fotografias e visitou, loja a loja, para explicar o que estava a fazer. “Não tinha medo da rejeição, mas sim de não ser percebida”. Respirou aliviada ao receber respostas positivas: “Viram que eu estava a falar do bairro de forma feliz, que não haveria mal na exposição e seria algo pelo bem de todos”. Além das imagens, foram também gravados vídeos que sugerem como cada objeto pode ser posicionado na moldura. Apesar de invulgares, as combinações têm o intuito de “transformar o olhar das pessoas sobre aquilo que até então parecia banal”.

Muitas das lojas cujos donos são idosos não têm Instagram, mas Isa abriu um perfil na rede social não só para divulgar as obras criadas por si própria, mas também para contar a história de cada uma das moradas e o que se pode comprar nestas. “Não percebo essa história de que ‘na Baixa não há nada’ e não há moradores. Tenho todas as minhas necessidades muito bem atendidas pelo bairro”, diz. Muitos dos comércios foram úteis para ela em especial na altura em que estava a frequentar o mestrado em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa – antes, concluiu a licenciatura em Ilustração no Camberwell College of Art, em Londres.

Isa, que é filha de pai brasileiro com ascendência portuguesa e de mãe neozelandesa, já viveu em várias cidades pelo mundo. Mas escolheu a Baixa, há dez anos, para chamar sua casa. “Era preciso mesmo um estrangeiro” para chamar a atenção para o comércio local, disse-lhe uma lojista portuguesa. “Adorava que os lisboetas tivessem uma relação com o bairro como se fosse um familiar, que falassem do mesmo com ternura e carinho”, diz. “Há imensa energia gasta a falar do que foi e do que poderia ser a Baixa, mas acredito que nos devemos focar naquilo que existe”.

A artista destaca o “desdém e a raiva” alfacinha contra as lojas de souvenirs. “Percebo, são muitas. Mas por outro lado, tê-las é ver o bairro com o oposto do abandono. Há coisas cá, há pessoas”, diz, revelando sentir-se mais segura ao caminhar pelas ruas à noite, quando as lojas de presentes para os turistas, abertas até tarde, iluminam o passeio. Isa lamenta a “raiva” direcionada aos trabalhadores deste tipo de loja. “Estão dia e noite a trabalhar, a cuidar e limpar o espaço”. As críticas ao bairro, diz, devem ser direcionadas ao “descuido com o património, o abandono das ruas, o lixo, às árvores retiradas”.

Para “travar as fake news de que já não há nada que preste” na Baixa, criou em 2024 um calendário do advento virtual, também no Instagram, com sugestões de presentes encontrados no bairro. A seleção não se limitava apenas a objetos e incluiu também os ofícios: “Um amigo perguntou se eu me importava de guardar uma cópia das chaves dele em casa — em caso de emergência. O que poderia importar mais, e me importar menos?”, escreveu na ocasião, indicando a Ferragens G. Lemos (no número 107 da Rua da Madalena) como um sítio onde se podem fazer cópias de chaves. Com bom humor, sugeriu ainda uma ida à Pollux (número 276 da Rua dos Fanqueiros): “Um belo dia uma pessoa acorda a sonhar com um bom aspirador, vai à cozinha e pensa em trocar todas as panelas baratas por ferro forjado ou aço inoxidável. Uma pessoa, Deus sabe porquê, de repente precisa de uma mandolina”.

A “dificuldade em especular preços” sobre as suas obras contemporâneas, admite, levou à ideia de criar “algo acessível, que as pessoas pudessem replicar”. Para Isa, “não fazia sentido” criar algo que nem ela própria pudesse pagar: “Almejo levar o colecionismo para além do círculo artístico”. Repetir a experiência em bairros para além da Baixa não está nos seus planos, mas sim instigar outras pessoas para que façam o mesmo no sítio onde vivem.