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Natureza e Mortificação

Tendo em consideração a dupla dimensão de Francisco, carnal e espiritual, perceberemos que apenas com uma atitude conservadora e cautelosa nos será possível respeitar e acolher a Natureza.

Paulo Pinto
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Cuidar da nossa Casa Comum da Comissão Teológica Internacional vem relembrar a conciliação evangélica entre Fé e Razão. Precisamente por este motivo não será um documento muito acessível ao comum dos católicos nem muito menos ao comum dos restantes mortais. Pressupõe uma certa familiaridade com os principais conceitos bíblicos e doutrinais; todavia, como Deus não é um Ser alheio às preocupações humanas à maneira da conceção deísta, permitirá levar as principais preocupações do texto a quem as quiser conhecer. Que este artigo seja um passo nessa direção.

A história da Igreja Católica é permeada de erros e sujeita a erróneas interpretações. O novo documento publicado a 2 de setembro com a autorização de Leão XIV (Vatican News), sob o título Cuidar da nossa Casa Comum – Resposta responsável e fraterna ao Deus Trinitário, se não corre o risco de engrossar o volume dos primeiros, pode fazer aumentar o pecúlio das segundas. Tentando alcançar o juste milieu entre duas perspetivas consideradas radicais, propõe o conceito de Antropocentrismo Situado: numa tradição duplamente franciscana (refiro-me ao Papa Francisco e a São Francisco de Assis), pretende afastar-se de uma visão igualitarista redutora e absoluta, inspirada no ecocentrismo e no biocentrismo, e de uma perspetiva predatória que, segundo o texto, degrada e destrói o ambiente, e por consequência, depaupera as populações, que é dominada por uma tecnocracia sem espaço para o Outro nem para Deus. É evidente que a crítica incide sobre duas tendências: o ecologismo dos verdes, que chega a ter por marca ações de âmbito terrorista, e o capitalismo desenfreado da alta finança especuladora e das grandes multinacionais, que apenas visam o lucro e destroem a Natureza. Se a conduta daqueles levaria, através da adoração a um qualquer Bezerro de Ouro, a sacrificar, no limite, o ser humano às outras espécies animais e vegetais, os últimos levariam à destruição dos habitats e à apropriação e esgotamento das matérias-primas pertencentes a toda a humanidade.

A proposta da Santa Sé tem por base a teologia e a tradição cristãs. Retorna à noção de pecado original, no qual os primeiros seres humanos defraudaram as expetativas divinas ao pretenderem assumir a Sua posição e saber. A Queda transformou o pendor essencialmente benigno da natura numa ameaça ou num sofrimento que somente no fim dos tempos será reposto nas condições primevas da sua candura e benevolência. Contudo, a posição de cuidador de Adão e Eva em momento algum pode ser desprezada. Não sendo súbditos nem senhores, são os responsáveis máximos pelo bem-estar da Casa Comum.

Esta tomada de posição, que podemos dar como devedora do centrismo da Doutrina Social da Igreja, corre o perigo de escapar facilmente para uma interpretação falsa ou falseada. Não havendo uma teoria económica conhecida mais adequada para o desenvolvimento material do Homem, penso ser legítimo denunciar como o grande perigo e apontar como a grande objeção deste escrito a sustentação de uma filosofia que coloca em pé de igualdade o ser humano e a restante Criação. Numa época que vive para o momento doméstico de acolhimento ao animal de estimação (hoje, o tutorando), abandonando a família e a parentalidade, o nivelamento aparece como fator determinante no enquadramento ecologista pós-moderno.

Este movimento gosta de apontar para o exemplo de São Francisco de Assis. Os seus cânticos e a sua poesia não dão razão a uma vocação humana para o amor às bestas? Os defensores deste ponto de vista escondem os aspetos religiosos do fundador da ordem mendicante dos Frades Menores. O seu louvor às criaturas não deve ser caricaturado como se fosse uma teologia secular: este santo que, nas suas próprias palavras, havia desposado a Senhora Pobreza, rebolava nu na neve e recorria ao cilício para combater as tentações da carne, foi o primeiro a ser abençoado com os estigmas de Cristo. Não advogo gratuitamente a mortificação, embora esta possa assumir uma simples recusa ou uma singela contenção; mas querer ver no italiano medieval um arauto da nova ecologia, barulhenta, demagógica e caótica, é tentar passar uma esponja no seu misticismo.

Ao invés, se tivermos em consideração essa dupla dimensão de Francisco, carnal e espiritual, perceberemos que apenas com uma atitude conservadora e cautelosa nos será possível respeitar e acolher a Natureza. Ou seja, filtrada por Deus, ela já não pode ser reduzida ao enquadramento ecologista, antes como uma dádiva passível de corrupção.