Dias antes de dar entrada na Prisão Federal do Texas, onde cumpre pena desde 2023, a empresária e antiga multimilionária Elizabeth Holmes abriu as portas de casa a uma equipa de filmagens liderada por Nathan Fielder, o argumentista, ator, comediante (e não só, dependendo do dia e do trabalho) canadiano que se popularizou com séries como The Rehearsal e Nathan For You (disponíveis na HBO Max e Prime Video, respetivamente).
O objetivo foi fazer um documentário, que chega às salas de cinema internacionais em outubro. As primeiras projeções foram feitas no Festival de Telluride (Colorado, EUA) no passado domingo, dia 6 de setembro. Entre as palavras mais repetidas por jornalistas e críticos que viram o filme, “surpreendente” e “desconcertante” foram duas das mais utilizadas. Depois de dois retratos documentais mais “ortodoxos” e uma mini-série que dramatiza factos reais, o novo You Can See Everything explora de forma inesperada a intimidade de uma figura que, apesar de condenada por fraude — segundo admite no teaser — é “sempre verdadeira”. Afinal, “porque haveria de mentir?”.
https://www.youtube.com/watch?v=GGJSRFWALTI
“Até hoje, tenho dificuldade em compreender aquilo que experienciei“, admitiu Nathan Fielder, citado pelo The New York Times, sobre as interações com a família de Holmes que exibe no documentário — do qual também ele é protagonista. Numa conferência de imprensa com o correalizador Lance Oppenheim (Some Kind of Heaven e o filme por estrear Primetime, com Robert Pattinson), Fielder refletiu sobre os 34 dias que antecederam a prisão da empresária fraudulenta, condenada a onze anos de cadeia na sequência de uma investigação cujas origens remontam a um artigo publicado em 2015 pelo The Wall Street Journal.
Em causa estava a divulgação de informação falsa sobre o funcionamento da tecnologia de análise sanguínea disponibilizada pela empresa Theranos, que fundou em 2003, quando tinha apenas 19 anos. A premissa do projeto, que transformou Holmes numa magnata da indústria da saúde e figura pública reconhecida, foi a deteção de doenças com rapidez e facilidade, a partir de uma amostra de sangue mínima e sem necessidade de procedimentos invasivos com agulhas. Bastava uma picada no dedo para — com recurso à tecnologia inovadora do aparelho Edison — diagnosticar mais de 100 doenças, com a grande vantagem da personalização, pois cabia ao requerente selecionar as análises que desejava fazer e não a um profissional de saúde.
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O império que Holmes e o então companheiro, Ramesh “Sunny” Balwani, haviam construído às custas de investimento privado — entre os principais acionistas estavam o antigo secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, o ex-secretário da Defesa de Trump, Jim Mattis, e o fundador da Oracle, Larry Ellison — desfez-se após a investigação jornalística que expôs as falhas de funcionamento do aparelho Edison e a utilização frequente de dispositivos de outras marcas, como a Siemens ou a Diasal, para obter resultados mais precisos.
O laboratório fundado por Holmes foi ainda acusado de manipular os resultados dos testes que visavam determinar a eficiência do seu sistema de análises, incorrendo num crime federal e estadual, e de obter resultados suficientemente discrepantes face a outros centros de exames médicos para levantar suspeitas.
Em novembro de 2022, a fundadora e principal acionista da Theranos foi condenada pelo crime de fraude aos investidores da empresa, a quem “vendeu” um produto/serviço cujos defeitos conhecia desde o início. “Durante quase uma década, Elizabeth Holmes fabricou e disseminou falsidades elaboradas para captar uma legião de investidores de capital, de grandes e pequenas dimensões, e a sua fraude causou a perda de centenas de milhões de dólares”, lê-se no comunicado divulgado na época pela Procuradoria Federal dos EUA.
Da televisão ao grande ecrã, e desta vez com consentimento
Quatro anos depois, poderemos saber mais sobre o quotidiano de uma das mulheres mais escrutinadas da última década, e cuja ascensão astronómica e subsequente queda foram descritas em dois documentários até à data — The Inventor: Out for Blood in Silicon Valley (HBO Max, 2019) e Valley of Hype: The Culture That Built Elizabeth Holmes (2021) — e na minissérie biográfica disponível na Disney+, The Dropout: A História de Uma Fraude (2022), que rendeu um Emmy a Amanda Seyfried. Desta vez, o filme tem a conivência da própria Elizabeth Holmes, que descartou os anteriores retratos que a televisão fez de si, os quais considerou portadores de informação enganosa.
https://observador.pt/2019/01/24/theranos-um-documentario-e-um-podcast-revelam-mais-sobre-a-fraude-da-startup-do-sangue/
O documentário produzido pela A24 — que Holmes e o atual companheiro, Billy Evans, ainda não viram — resultou de um convite da própria fundadora da Theranos, que, segundo a produtora de cinema independente, desafiou a “equipa de filmagem a seguir todos os seus passos” durante os 34 dias que antecederam o respetivo encarceramento na Prisão Federal de Bryan, no Texas.
Holmes acolheu Nathan Fielder, Lance Oppenheim e um operador de câmara na casa que partilhava com o herdeiro da cadeia de hotéis Evans — e seu companheiro desde 2017 — e com os dois filhos, na pequena cidade costeira de Del Mar, Califórnia. O casal teve o primeiro filho, William, em julho de 2021, dias antes do início do julgamento (sucessivamente adiado) da magnata da saúde, sendo que Invicta nasceu dois anos depois, em 2023. A filha mais nova de Holmes tinha meses de idade quando a equipa de filmagens da A24 documentou os últimos dias de liberdade da mãe — como demonstra o teaser divulgado há poucos dias.
Segundo os relatos de quem assistiu à estreia do filme no Colorado, a primeira parte da longa mostra o dia a dia da família e de uma mulher dedicada à maternidade acima de tudo — uma experiência já reportada pelo The New York Times, em maio de 2023, na primeira interação que Holmes teve com os media desde 2016. Depois de dar entrada na prisão, onde não pode prestar declarações ou dar entrevistas, Holmes é substituída “em cena” por Amanda Seyfried, que regressa à pele daquela que interpretou com grande profissionalismo (segundo a crítica) em The Dropout. A Variety confirmou esta informação, que outros periódicos mantiveram confidencial.
Por sua vez, o The New York Times avançou que Holmes e Evans estão a planear “lançar uma Theranos nova e melhorada”, cujo projeto está a ser desenvolvido durante a estadia da CEO da empresa na Prisão de Bryan.
O realizador do documentário agora tornado público, Nathan Fielder, é conhecido pelo seu estilo provocatório, onde a fronteira entre a realidade e o conteúdo fabricado é dificilmente identificável — em The Rehearsal, os convidados encenam uma situação real em cenários construídos para esse fim.
O comediante explora os limites do género documental, desde logo no teaser de um minuto de You Can See Everything, onde a estética cuidada, os close-ups cinematográficos e a performance surreal dos interlocutores tensionam as fórmulas habituais do documentário e pedem emprestado à ficção. Os 174 minutos de filme foram amplamente elogiados pela comunidade de cinéfilos presente em Telluride, que o declararam uma das longas mais impressionantes da mostra — opinião reiterada pelos principais sites de crítica cinematográfica.
https://observador.pt/2022/07/16/the-rehearsal-onde-comeca-e-acaba-a-comedia-da-vida-real/
Atividade nas redes sociais e redução de pena
Elizabeth Holmes partilhou o teaser do documentário na respetiva conta do X, com a descrição “I’m always being real” (“Sou sempre verdadeira”). A antiga empresária é bastante ativa online, tendo publicado um total de 4.400 posts entre agosto de 2025 (quando voltou a ser ativa na rede social) e janeiro deste ano, segundo a revista de negócios Fortune. Contudo, questionada pelo mesmo periódico, a prisão onde Holmes cumpre pena admitiu que os reclusos não têm acesso à internet nem às redes sociais — o que sugere a existência de uma espécie de escritor fantasma por trás da sua presença digital.
https://twitter.com/ElizabethHolmes/status/2096765423869956438
A trama adensa-se, já que, na sequência do escândalo com a Theranos, a fortuna de Holmes — cotada em 4,5 mil milhões de dólares (3,87 mil milhões de euros) em 2014 — foi considerada nula (segundo cálculos divulgados pela Forbes dois anos mais tarde). A fundadora do negócio multimilionário foi obrigada pelo tribunal a pagar mais de 450 milhões de dólares (387 milhões de euros) aos investidores que defraudou, sendo que a iniciativa dos procuradores, que apelaram ao pagamento de indemnizações mensais aos clientes da empresa prejudicados, foi rejeitada, devido aos “recursos financeiros limitados” da ré.
Contudo, um serviço de ghostwriting para redes sociais pode facilmente custar acima de 10.000 dólares por mês, valor que se multiplica se não for apenas uma pessoa, mas uma equipa de marketeers, a sustentar a imagem de Holmes na internet. Garret Claude, o fundador da agência de ghostwriting Influent, calculou que “sem dúvida existem mais de duas pessoas” por trás das redes sociais da empresária. “A minha estimativa é entre três e quatro pessoas“, acrescentou o especialista, contactado pela Fortune.
Note-se que as publicações da atual reclusa no X evidenciam uma aproximação aos ideais do movimento MAGA (Make America Great Again) e da administração Trump, com os quais aparentemente não se identificava quando, em 2016, esteve envolvida numa angariação de fundos para a campanha presidencial de Hillary Clinton.
Esta mudança de agenda pode evidenciar uma tentativa de captar a atenção do Presidente, que concedeu mais de 1.700 perdões desde o início do segundo mandato na Casa Branca, alguns dos quais a crimes financeiros e de colarinho branco. Em janeiro, a Reuters avançou que Holmes integrou a lista de pedidos de redução de sentença, iniciativa que permanece pendente no website do departamento da Justiça norte-americano.
Com um sorriso ambivalente e de olhos fixos num Nathan Fielder francamente incrédulo, Elizabeth Holmes recusa qualquer desvio em relação à verdade. A sua postura é desarmante, e a pergunta que o The New York Times lhe fez em 2023 mantém-se: “Como podemos ter uma conversa honesta com uma pessoa cujo julgamento por fraude foi tão publicamente divulgado?”
You Can See Everything propõe um novo contacto com a personagem extremamente mediatizada e difícil de compreender, que, segundo Holmes, é mesmo isso — uma personagem. O realizador não tem respostas, antes admite: “Estou entusiasmado para o lançamento deste filme, para que as pessoas me ajudem a entender aquilo que experienciei”. Sem data anunciada em Portugal, o documentário chega aos cinemas internacionais em outubro.