“Não é um edifício fácil, mas é muito poderoso”, diz Serge Rangoni, enquanto percorremos os corredores internos do Centro Cultural de Belém até desaguarem no seu escritório, com duas janelas quadradas com vista para o rio Tejo. Passaram sete meses desde que o gestor e programador cultural belga, que durante duas décadas (2004–2024) esteve aos comandos do prestigiado Teatro de Liège, assumiu a Direção Artística das Artes Performativas daquele que é um dos principais centros culturais do país. Venceu um concurso internacional disputado por 16 candidaturas e foi a escolha unânime do júri, herdando a complexa tarefa de definir o rumo do CCB e reatar pontes com um meio artístico marcado pelo ruído e pela contestação que envolveram a saída da sua antecessora, Aida Tavares.
Frente às polémicas do passado, o programador belga prefere focar-se naquilo que traz para o palco e para a praça. Das suas primeiras vontades no cargo resulta uma grande festa de abertura de três dias, de 11 a 13 de setembro, para arrancar a nova temporada ocupando os vários espaços do CCB. A programação de abertura espelha a diversidade e a participação pública que o programador belga quer imprimir à casa: da instalação participativa C’est Pas Là, C’est Par Là, da companhia sul-coreana Galmae, a The Disappearing Act, de Yinka Esi Graves, passando por Falsas Histórias Verdadeiras, de Victor Hugo Pontes, pela performance Di/STRAUSS Technique, de Ivo Dimchev, até a sessões de krump, concertos e visitas-conversa.
Em entrevista ao Observador, Serge Rangoni aborda a urgência de abrir as portas de Belém a uma Lisboa mais diversa, explica como lida com o peso da transição e da herança artística na casa e analisa, sem rodeios, as fragilidades e os paradoxos da paridade de género e das redes de poder na criação performativa europeia.

Apresentou uma temporada desenhada em tempo recorde. Quanto do menu assenta em propostas e compromissos herdados da direção antecessora, de Aida Tavares, e da equipa de programadores da casa? Já há mão do Serge nesta temporada?
É uma programação de passagem. O Jan Martens e o Victor Hugo [Pontes], por exemplo, já estavam programados. É normal que quando se chega a um lugar haja sempre coisas programadas. E depois há também o espírito do lugar. A sala grande do CCB é uma sala particularmente favorável à dança e havia coisas também, não digo certas, mas que já se tinha começado a falar… O Ballet de Lyon, por exemplo, que vamos organizar com a Culturgest e o Theatro Circo, em Braga [em fevereiro do próximo ano]. Tudo é uma continuidade, de alguma forma.
O que não estava programado?
A festa de abertura, por exemplo. Para mim era importante porque queria dar espaço aos espetáculos que misturam diversas disciplinas: teatro, música. Por exemplo, o Ivo Dimchev com Di/STRAUSS Technique, que acontece fora das salas. Aliás, vamos apresentar várias coisas na praça do museu, como [a performance] Please Don’t Touch, da Nuna. Queremos trabalhar com o museu e tentar cruzar-nos um pouco. Tanto eu como a Nuria [Enguita, diretora artística do museu MAC/CCB] queremos fazer mais coisas desse género.
Além da festa de abertura, há planos concretos para esse cruzamento de artes performativas e museu?
Para já acontece na festa de abertura. Veja a Bienal de Veneza deste ano, havia muitos artistas das artes performativas. Há muitos artistas que estão a cruzar disciplinas. Só que o tempo de programação das artes performativas e o tempo de programação das exposições não são os mesmos. É complicado. Não quero falar sobre isso, mas temos já um artista com quem vamos trabalhar na próxima temporada que está a cruzar as duas disciplinas e que vai apresentar uma exposição e um espetáculo aqui. Agradeço muito à Nuria, porque quando propus a festa e lhe disse que queria fazer isto e aquilo no museu, ela disse: sim, sem problema. Sei que não é tão simples assim, que há muitos problemas práticos, logísticos.
Fala num português já com bastante desenvoltura. Quando é que começou a aprender?
Sabia falar português do Brasil, como se lembra da conferência de imprensa [risos]. Agora estou a ter aulas todos os dias. Não sei se vou conseguir, mas queria falar português [de Portugal] daqui a um ano. Vamos ver, é complicado. É uma língua mais complicada, mais sofisticada do que pensei.
Há uns meses admitiu que ainda conhecia pouco o tecido cultural português, apesar de já ter programado encenadores como Tiago Guedes e Victor Hugo Pontes. Como é que se desenha uma linha artística para o maior centro cultural do país com esse diagnóstico?
É uma coisa maravilhosa. Estamos na Europa, achamos que conhecemos os países europeus e a sua cultura, mas conhecemos pouco, na verdade. Conhecemos uma pequena parte, muito pequena. Sim, li livros do Saramago, mas não conheço… Todos os dias descubro alguma coisa. O [programador do CCB] Fernando Sampaio dá-me muitas recomendações para ouvir, há uma cena jazz incrível. Os artistas portugueses… Os artistas de teatro foram uma descoberta. A cena da dança é mais pequena, mas os artistas de teatro são muitos. E estou muito impressionado porque não se conhecem necessariamente. Isso é muito estranho. Venho de um país pequeno, muito centralizado, em que toda a gente se conhece, aqui não é o caso. Quando cheguei, no dia 2 de fevereiro, tinha 60 ou 70 companhias, artistas, a pedirem-me uma carta para a DGArtes. A famosa carta da DGArtes! Foi muito bom porque a única possibilidade para mim foi partilhar com os colegas e fazer um comité, com o Fernando, a Madalena, o André, a Cláudia…
Explicando, refere-se a uma carta para juntar à candidatura das companhias ao financiamento público, uma garantia de que há uma instituição com interesse em produzir o espetáculo.
Sim, mas precisamos de escolher, porque não damos cartas sem fazer o espetáculo. Então, é preciso ver o espetáculo, partilhar, discutir. Aprendi muito. Como não sou daqui, não venho com ideias preconcebidas, não conheço. Então, preciso de discutir, ver. Este outono vou ver e descobrir mais coisas. Mas penso que o nível de interpretação é realmente muito elevado. Só que estamos na cauda da Europa, é mais complicado. Quais são os artistas portugueses? O Tiago Rodrigues, o Pedro Penim, um pouco, mas não muito. Também o Marco Martins. Mas não há muitos artistas que estejam a circular na Europa.
Que papel é que o CCB pode representar nessa divulgação de talento nacional?
Estou em contacto todos os dias com a Europa. Posso falar sobre os espetáculos, posso fazer essas ligações. Há também um problema de tempo de programação. Vejo que muitas companhias portuguesas pedem para os programadores de fora ver o espetáculo três ou quatro semanas antes. É muito pouco tempo [de antecipação]. Espero poder ajudar também nisso. E ajudar a colocar artistas portugueses em produções internacionais. Isso é muito importante porque as ligações entre artistas ajudam a consolidar um terreno favorável para desenvolver projetos.
Mencionou o facto de, por vir de fora, não ter uma série de preconceitos, de ideias, para o que pretendia ser o CCB. Aquando da conferência de imprensa disse estar a viver na zona do Martim Moniz e que gostava que o público do CCB refletisse a diversidade da cidade que vê, e não apenas “o público privilegiado” que frequenta Belém. O Conselho de Administração do CCB partilha desta visão?
Estamos num lugar da cidade muito longe do centro, a realidade sociológica é muito diversa. Penso que o mais complicado e o primeiro passo é captar os artistas e os jovens de hoje. O público vem quando no palco há uma identificação possível. E isso é um trabalho a fazer. Mas não podemos nunca esquecer que a realidade aqui não é a realidade da cidade. É entre esses dois lados que precisamos de trabalhar. Trabalhar, aproximar, fazer entrar a realidade da cidade no palco, na programação.

Elogiou a forma como os artistas portugueses debatem o passado colonial — afirmando que em Portugal se debate mais e melhor do que na Bélgica francófona — e prometeu dar palco a temas como as migrações e a descolonização. Concretamente, como é que este eixo se vai materializar?
São os temas desenvolvidos por artistas. A Joana Craveiro está a trabalhar num projeto. As Crianças Loucas estão a trabalhar também num projeto que é mais sobre o território, mas que tem ligação. A Nuna, que está aqui [na festa de abertura da temporada], vai ter uma produção futura, uma produção francesa futura.
Uma produção a estrear-se no palco do CCB.
Sim. Estamos a falar com ela de várias coisas. E com outros. Não há uma receita, mas um diretor artístico precisa de trabalhar com os artistas. Pode fazer sugestões, mas sobretudo trabalhar também com projetos que nos chegam. Precisamos de conversar muito sobre os projetos, mas não podemos impor as coisas.
Não é o tipo de diretor artístico que faz encomendas, parece dizer-me. Prefere auscultar?
Auscultar, sim. Depois posso cruzar coisas, mais do que impor… Na minha carreira às vezes fiz encomendas, mas não acho que seja o melhor método. Vou dar-lhe um exemplo. Quando construímos o teatro em Liège, o arquiteto, um grande arquiteto belga, disse-me: “não precisa de me dizer que a janela precisa de ser aqui e a porta ali. Diz-me qual é o problema de luz que tem, o problema de espaço. Eu é que vou propor soluções. Você precisa de fazer perguntas”. Acho que o diretor artístico precisa de fazer perguntas aos artistas. Depois os artistas vão responder na forma deles e apresentar soluções. Fazer perguntas para abrir portas, algumas janelas, algumas ideias nas quais não pensaram. Não é só decidir. A direção artística, e também o teatro, é uma criação não de uma pessoa, mas de 10, 20 pessoas, técnicos, todo o mundo a criar em conjunto. Às vezes é complicado, há tensões, mas é isso que é a riqueza.
Numa entrevista que deu em tempos à Convenção Europeia do Teatro (ETC), afirmou que o papel de um líder cultural passa por “manter a convicção moral de confrontar e subverter a autoridade, mas de forma diplomática”.
[risos] Sim.
No CCB, quem é a autoridade que o Serge Rangoni pretende confrontar e subverter?
Estamos a viver um momento muito complicado, mas temos tudo isso. Há notícias de hoje e de amanhã na Alemanha. Dá um medo incrível. Como podemos reagir a isso? Como podemos… Sem pressupostos políticos. Não é isso. É mais um ponto de humanismo, de como podemos colocar a autoridade no palco de todos os lados e mostrar que, através da diversidade de experiência, de cultura, de religião, de hábitos, há um valor comum do ser humano, reconhecer o ser humano. É uma coisa fundamental que estamos a perder. Também, em Portugal, quando vejo alguns posters a dizer para limpar, é terrível.
A peça Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, de Tiago Rodrigues, antecipava Portugal em 2028 nesse cenário. Há uns dias, o encenador falava ao Observador e dizia que gostava de terminar a peça em 2028 em Portugal. A peça estreou-se no Teatro Nacional, esteve na Culturgest, mas passou também pelo CCB. Gostaria que fosse aqui a última récita?
Com certeza, é uma peça maravilhosa. Fomos um dos coprodutores com o Théâtre de Liège nessa época. Foi durante o Covid, vi a peça em Lausanne com quase ninguém na sala. Foi uma grande polémica em Liège, que é uma cidade com muito contraste político, uma cidade muito política extremamente contrastante. As pessoas reagiram.
O que pensa disso, desses momentos em que a arte, e o teatro em particular, desperta debate público?
Não posso falar de uma forma geral sobre isso, mas nesse espetáculo, o modo como o Tiago nos deixa ouvir esse pensamento fascista, era de uma força incrível. Deixa-nos… Continuamos a pensar. É um espetáculo que nunca vou esquecer. Talvez hoje, mais do que nos outros dias. Mas não é a única forma. Penso também que hoje, numa sociedade polarizada, há muito… Precisamos de ser muito mais… muito mais quietos e abrir… Deixar os sonhos para fazer… ligações, reflexões. Em Liège lembro-me de gente a falar sobre a colonização diz: “ah, sim, mas o Congo era melhor quando os franceses ficavam lá”. E são pessoas que são amigas do teatro. Como posso fazer para não confrontar? Porque com confronta, não há mais diálogo. É por isso que alguns espetáculos, como o Catarina, o Florentina… São coisas muito fortes, podem ser importantes, mas precisamos também de peças que são mais… agregadoras.

Chega ao CCB depois da saída polémica da sua antecessora, Aida Tavares. Denunciou publicamente o afastamento da programadora como uma injustiça “sem razão aparente” e assinou, em nome da rede Prospero, um protesto formal. Na altura, já tinha sido lançado o concurso para o cargo. Quando saiu em defesa pública de Aida Tavares, em Avignon, já tinha submetido a sua candidatura?
Não. Absolutamente não. Defendi a Aida porque trabalhei com o São Luiz muito bem, com a equipa da Aida, não a Aida sozinha. E quando a Aida propôs regressar com o Prospero aqui, que é a casa onde foi fundado, pareceu-me uma boa ideia. Quem se presenta a um lugar não se apresenta contra uma pessoa, apresenta-se face a uma instituição, para um projeto.
Sim, mas tinha escrito uma carta de recomendação para a candidatura de Aida Tavares ao concurso.
Com certeza. Mas você leu a carta de recomendação?
Não li.
Então como sabe?
Foi noticiado na época — pelo jornal Público.
Sim, sim. Eu sei. Isso foi também tudo uma… publicidade feita. Mandei uma carta como líder da Prospero dizendo que trabalhámos bem com o São Luiz e com a Aida Tavares. Foi isso que mandei na carta. A Aida é uma programadora, uma colega. Fizemos o Marco Martins em Liège e aqui. Não tenho nada contra ela.
A decisão de se candidatar foi posterior ao envio da carta, é isso?
Sim, sim.
Partilhou com Aida Tavares, em algum momento, que também estava a concorrer ao cargo?
Não. É um processo de candidatura, um processo que não é público. Aliás, soube muito tarde que ela se candidatou. Quando se está num lugar que não funciona, não por motivos profissionais, mas porque não funciona… Na vida casamo-nos, mas o divórcio existe [risos]. Não se vai casar de novo… ou raramente. Acontece, mas é raro. Nunca pensei que a Aida fosse voltar a apresentar-se ao cargo. É estranho. Não pensei que o fizesse porque toda a gente sabia que seria muito complicado.
O meio artístico português mobilizou-se em massa contra a forma como o Conselho de Administração do CCB geriu a saída de Tavares. Tendo sido o escolhido para a substituir, como é que foi recebido pelas equipas da casa e pelos artistas locais? Houve criadores a recusar convites ou a cancelar espetáculos?
Não. Fui super bem recebido pela casa, primeiro. Era uma casa que precisava de mais diálogo, mais paz. Depois, os artistas, alguns deles diziam-me: chegas de fora, não tens nada a ver com um lado ou outro. Não tenho partido. Estou a falar com as pessoas, a ler os projetos.
Não sentiu qualquer desconforto?
Nenhum, fui muito bem recebido. Já conhecia alguns artistas, o Marco Martins, o Pedro [Penim], o Teatro Praga, que foi da Prospero no início. Foi simples. Está tudo calmo. As instituições vivem períodos e histórias. Depois de mim serão outros. As instituições são mais importantes do que as direções artísticas. E o olhar do público é o mais importante.
Em dezembro de 2024, assinou uma petição enviada à então ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, a protestar contra a demissão de Francisca Carneiro Fernandes, então presidente do CCB, classificando a decisão como “muito estranha”. Agora é diretor artístico do CCB. Como é que se gere o dia a dia subordinado a uma tutela e um Governo cujas decisões criticou publicamente?
Não tinha nenhuma explicação na época, foi um pouco estranho. Como líder da Prospero é muito complicado numa rede de 19 parceiros haver mudança. Cada vez que há mudança de um teatro é tudo a recomeçar de novo. Como líder da Prospero é complicado. Já percebemos que não era simples. No início da Prospero vi que era difícil haver ligação. Era o início de um novo mandato, era difícil. A mudança era complicada para o desenvolvimento do projeto. Depois, não tem nada a ver com a administração atual, é uma decisão de uma ministra que já não o é mais.
O Estado acabou por reconhecer não ter havido fundamento para a exoneração de Francisca Carneiro Fernandes e o Ministério da Cultura fez um acordo com a ex-presidente. O que achou do desfecho?
Não devo fazer comentários sobre isso. É uma decisão da justiça.
Afirmou recentemente que quer ver mais mulheres nos palcos principais e lugares de decisão e disse que “um homem nunca recusaria um convite para integrar uma administração”. O júri do concurso para o cargo que agora ocupa colocou na finalíssima duas mulheres [Aida Tavares e Patrícia Portela], mas acabou por vencer um homem. Não vê aqui uma contradição entre o que defende ideologicamente e o resultado do concurso em que participou?
Sou um homem, não posso mudar isso. Mas é importante fazer uma diferença: o meu objetivo é dar palco e abertura. Ter mais encenadoras, mais diversidade. Para mim isso é essencial. Vemos muitas mulheres encenadoras muito bem representadas nos palcos menores, mais pequenos. Nos palcos grandes é mais complicado. É uma reflexão. Não vejo em Portugal mulheres em grandes palcos. Em França sim, a Caroline Guiela [Nguyen], Rébecca Chaillon, há alguns nomes que começam… A Chloé Dabert, um pouco.
É uma das primeiras entrevistas que dá em funções. Antecipando o futuro, que marca gostava de deixar no CCB?
A particularidade do teatro e das artes performativas é que são profundamente ligadas à época, mais do que qualquer outra arte. Espero poder apresentar formas de espetáculo mais híbridas, mais abertas à diversidade, isso é certo. Também gostava de integrar mais artistas portugueses nas redes. Seja nos espetáculos, atrizes, atores, músicos, ou mais espetáculos coproduzidos. Uma terceira coisa seria ligar mais, isto é, utilizar mais os espaços desta casa. Os espaços exteriores, o museu. Cruzar mais as coisas. A característica do CCB é essa: esta casa. Há um lado de castelo inacessível no CCB. Como é que vamos fazer entrar coisas diferentes? Não é simples, mas esse é o nosso trabalho. As casas precisam de ter diversidade. Uma diversidade que talvez até vá contra nós. Mas é isso que é a vida.