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"Adults": à segunda temporada, será esta a sucessora de "Friends"?

A clássica sitcom dos anos 90 conquistou a Gen Z, mas "Adults", na Disney+, quer ser a verdadeira comédia da vida real sobre os jovens adultos da atualidade. Será que vai conseguir tal proeza?

Susana Romana
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Tenho 44 anos e nunca vi mais do que meia dúzia de episódios da série Friends. Tenho noção de alguns momentos chave, nem que seja porque a Primark está cheia de T-shirts a dizer “pivot!” ou por já me terem comentado “és mesmo Chandeler”. Mas sabem quem viu todas as dez temporadas (são 236 episódios) obsessivamente mais do que uma vez? Todos os Gen Z que eu conheço — leia-se: pessoas nascidas entre 1997 e 2012. A série sobre seis amigos a viver em Nova Iorque tornou-se um fenómeno tal que apela até a quem nunca viveu num mundo sem telemóveis ou aplicações de encontros. A verdade é que, até agora, todas as sitcoms que tentaram o modelo entretanto batidíssimo de Friends falharam em colmatar o espaço de uma série de humor relacionável para aquela geração específica. Adults será, quem sabe, a primeira que talvez o consiga. Pelo menos é a que está em melhor posição para tal.

Adults estreou recentemente a sua segunda temporada, com oito episódios, na Disney+ (pelo meio houve um episódio extra). E é uma série tão Gen Z no seu humor, referências e inquietações, que há boa possibilidade de ser detestada e/ou incompreendida pelas outras gerações. Adults não tenta criar pontes entre diversas realidades; mete, isso sim, o pé a fundo naquilo que é ter 20 e tal anos aqui e agora. As personagens, hilariantes para quem se revê nelas, correm sérios riscos de serem insuportáveis para quem já tem um PPR e uma medicação para a hipertensão. O visionamento de Adults vai dividir mais as pessoas por idades do que os arquivos do Instituto dos Registos e do Notariado.

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Mas afinal, sobre o que é esta série? Bom, tal como dezenas e dezenas antes dela, a sinopse base é “um grupo de amigos a dividir casa em Nova Iorque enquanto lidam com as agruras da entrada na idade adulta” (a chamada “hang out comedy”, pensada para se passar quase toda no mesmo espaço). Claro que aqui vivem-se as dificuldades do mercado de habitação: Samir, Billie, Paul Baker, Issa e Anton são cinco amigos a viverem juntos na antiga casa de infância do primeiro, às escondidas e ilegalmente. No mundo pós-pandemia, estes recém‑licenciados genuinamente sem dinheiro estão a mais de uma hora de comboio de Manhattan, nos confins de Queens. Apesar da boa relação entre todos, são altamente imperfeitos e sempre prontos para tomar a decisão errada. Vagamente narcisistas, comportar-se como um adulto para eles é, nas palavras de um popular millenial português, uma coisa que não lhes assiste.

Os guiões e as interpretações têm noção destas arestas e suavizam-nas com uma boa dose de autoironia. Não é à toa que Adults esteve quase para se chamar Snowflakes, numa referência à expressão que descreve sem se incomoda e magoa com tudo. Criação de Ben Kronengold e Rebecca Shaw (guionistas de Tonight Show Starring Jimmy Fallon, habituados a trabalhar como dupla), esta sitcom sabe que, ao contrário de Friends, não habita o hemisfério do mainstream em canal aberto. Ao abrigo do streaming, Adults é muito mais bruto e desbocado.

Isso fica patente logo nos pontos de partida de cada episódio: o que acontece numa noite em que tomaram ácido e um guaxinim lhes entra em casa; dois personagens acharem orgulhosamente que o seu terapeuta se suicidou por causa deles; darem guarida a uma adolescente insuportável que está em Nova Iorque para fazer um aborto. Até o clássico triângulo amoroso é entre uma mulher e dois homens que se apaixonam, dando até azo a um ménage à trois muito desconfortável.

O grupo, arquetipicamente anárquico, é composto por: Samir Rahman (Malik Elassal), o amigo simpático mas muito ansioso que deixa o grupo viver gratuitamente na casa dos pais; Billie Schaeffer (Lucy Freyer), a melhor amiga de infância de Samir, que tenta repetidamente tornar-se uma adulta responsável e passa grande parte da série à procura de emprego; Paul Baker (Jack Innanen), o namorado de Issa recém-chegado do Canadá que é uma espécie de golden retriever em forma humana; Issa Damani (Amita Rao), a caótica amiga universitária de Samir e Anton, extrovertida e ativista falhada; e Anton Evans (Owen Thiele), outro amigo de faculdade de Samir e Issa, um gay muito sociável e carismático que tem um emprego em publicidade que não compreende.

Se a primeira temporada teve críticas divididas (há quem ache que isto não passa de humor para quem já fritou o cérebro no TikTok), a segunda tem sido muito mais bem recebida, agora que os personagens são mais consistentes. Os guiões são mais confiantes e o balanço entre absurdo e comovente não parece tão forçado. Resultado: tem muito mais graça. Numa altura em que tantas comédias tentam afinal ser dramas,  é um alívio quando assim é.

Adults ainda não tem a sua terceira temporada confirmada. Resta-lhe conseguir apanhar a onda que determina se um Gen Z vai ou não ver uma série: o passa a palavra da viralidade. Sendo de nicho, tem de dar o salto para as audiências se quer ser o símbolo televisivo de uma geração. Não é o tipo de sitcom que vá repetir às onze da manhã para pais e filhos verem juntos, como acontece com Friends. Mas Adults sabe bem como o mundo está diferente, mesmo que ainda haja pessoas a ambicionar o penteado da Rachel.