A campanha chinesa “Internet Limpa 2026” está a ser usada pelas autoridades do país para controlar a divulgação de informações não oficiais sobre a grande enxurrada que atingiu recentemente as regiões do Nepal e do Tibete. De acordo com o britânico The Guardian, que cita investigadores, jornalistas e organizações tibetanas de direitos humanos, a repressão inclui a eliminação de publicações nas redes sociais e a punição de utilizadores acusados de espalhar “rumores” sobre a dimensão da catástrofe.
Tsering Phuntsok, um tibetano de 46 anos exilado no sul da Índia, acompanha a situação a milhares de quilómetros de distância sem ter quaisquer notícias de familiares desaparecidos dos dois lados da fronteira. “Comecei agora a rezar pelos desaparecidos. Tenho de aceitar que não vão voltar, porque não estou a receber qualquer informação”, afirmou.
Segundo o relato de investigadores, o interesse pela catástrofe aumentou rapidamente nas redes sociais chinesas nas primeiras horas após as cheias, mas o tema perdeu visibilidade à medida que comentários e publicações eram eliminados. Capturas de ecrã consultadas pelo The Guardian mostram que a aplicação WeChat restringiu conteúdos relacionados com as inundações, classificando algumas publicações como contendo “conteúdo politicamente sensível” ou “conteúdo proibido“.
Tencho Gyatso, da organização International Campaign for Tibet, considera que a medida tem uma dupla função. “A campanha serve um duplo objetivo: combater problemas reais, como a fraude e a desinformação, ao mesmo tempo que reforça o controlo sobre as narrativas públicas“, afirmou, sublinhando que “é esse duplo objetivo que a torna mais complexa e difícil de criticar”.
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David Bandurski, diretor do China Media Project, considera, porém, que a situação não corresponde necessariamente a uma repressão pontual. “A tendência estava constantemente a mudar e a ser manipulada porque havia um interesse real”, afirmou. “‘Repressão’ não é a palavra certa, porque eles não reprimem simplesmente. Trata-se de uma aplicação consistente, persistente e quotidiana de uma política de orientação da opinião pública”.
O diretor considera que esta política deve ser entendida num contexto mais amplo da forma como o Partido Comunista Chinês encara a informação. “O partido vê-se envolvido numa luta global pela opinião pública. Está a lutar com o mundo para fazer passar a sua visão”, explicou, notando que “é assim que a China encara a informação a nível global, num enquadramento muito, muito oposicional”.
Um antigo jornalista dos meios de comunicação estatais chineses, que aceitou falar sob anonimato, afirmou que o controlo da informação durante as crises passa também pela ausência de dados essenciais. “A cobertura oficial dedica um enorme espaço a provar que o Estado está a trabalhar arduamente, mas dá muito pouca informação para responder às perguntas mais básicas: quem está desaparecido? Onde foram vistos pela última vez? Que edifícios foram revistados?”, disse.
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Enquanto o Governo chinês tenta controlar a divulgação de informação, Phuntsok continua à espera de notícias da família. Do lado nepalês, o avô Wangyal, o tio Janngchup e a tia Sumchok continuam desaparecidos. Quanto aos familiares que estavam no Tibete, recusou revelar os nomes por motivos de segurança.
Kalsang Jigme, jornalista tibetano radicado em Nova Deli, afirma que o silêncio imposto em torno da tragédia contrasta com a habitual mobilização da população perante catástrofes: “Normalmente, quando acontece um desastre, as pessoas são muito ativas, rezam, prestam apoio e enviam bens para as zonas afetadas. Mas, desta vez, foram completamente silenciadas.“