(c) 2023 am|dev

(A) :: Alunos portugueses estão mais aborrecidos nas aulas, piores na leitura e matemática — mas menos expostos ao bullying

Alunos portugueses estão mais aborrecidos nas aulas, piores na leitura e matemática — mas menos expostos ao bullying

Dados do PISA25 mostram que quebra nas aprendizagens da matemática e da leitura continuam em queda. Portugal é, ao mesmo tempo, um dos países onde alunos menos dizem sentir bullying.

Pedro Raínho
text

O relatório PISA 2025 volta a trazer más notícias sobre o desempenho dos alunos em Portugal. A acompanhar uma quebra generalizada dos países da OCDE, os jovens que estudam em território nacional mostram uma descida nos rankings de matemática e de leitura, baixando respetivamente um e dois lugares face ao lugar que era ocupado no estudo em 2022. A prestação na área da ciência também está pior que há três anos — mas, nesse caso, mesmo com uma quebra de três pontos na prestação dos alunos em Portugal, a prestação ainda pior da média dos países da OCDE permitiu a Portugal uma subida de um lugar no ranking.

O relatório do PISA divulgado esta terça-feira mostra ainda outros dados interessantes sobre o impacto do uso de telemóveis em contexto escolar no desempenho dos alunos. O claro prejuízo no rendimento dos jovens valia os argumentos de quem defende o percurso que tem vindo a ser feito ao longo dos últimos anos, com um número cada vez maior de países a limitar cada vez mais o uso de tecnologias, mesmo fora da sala de aulas.

Um dos temas que tem sido mais discutido sobre o contexto escolar é o da exposição ao bullying. A esse propósito, o PISA25 revela que os relatos dos alunos em Portugal os colocam num dos níveis mais baixos do universo de países visados no estudo. Num universo de cerca de 90 países ou regiões, apenas 15 apresentam níveis de exposição a práticas de bullying inferiores aos registados entre os jovens em Portugal, que fica significativamente abaixo da média da OCDE. Ruanda, Quénia e Filipinas têm os registos mais preocupantes.

Outro dado interessante que ressalta do relatório tem que ver com a implementação da Inteligência Artificial no contexto escolar. Ferramentas como o ChatGPT e o Gemini “tornaram-se os mais recentes companheiros de estudo” dos alunos, tão comuns numa sala de aula como as calculadoras. A este respeito, o PISA concentrou-se, sobretudo, em perceber quão preparados os alunos estavam para verificar a validade da informação que lhes chega através dessas ferramentas — e os resultados parecem satisfatórios: mais de 80% dos alunos, na média da OCDE, consideram que a informação deve ser validada cruzando diferentes fontes. Se o fazem, de facto, seria outra discussão. Mas o mesmo estudo revela que uma percentagem bastante elevada dos alunos (também acima de 80%) confirma a origem das informações que lhes são disponibilizadas por estas tecnologias. E em Portugal os níveis de verificação são ainda mais elevados que os da média da OCDE.

Matemática, leitura e ciências: a queda sem fim

Um dos quadros apresentados no relatório do PISA25 mostra a evolução dos alunos em três áreas centrais do ensino, nos últimos 20 a 26 anos (dependente das áreas em análise) em 23 países da OCDE: a matemática, a leitura e as ciências. Sobretudo nas duas primeiras, mas sem dúvida também na área científica, o gráfico mostra um agravamento contínuo dos níveis de aprendizagem, pelo menos, desde 2012 — em alguns casos, até ainda antes disso.

No caso da leitura, particularmente fundamental por ser uma área transversal a todas as outras áreas de ensino, dos cerca de 502 pontos obtidos em 2012 (num total de 520), a média nesse conjunto de países caiu, em 2025, para cerca de 450 pontos. “É particularmente preocupante que se tenham observado quedas acentuadas e significativas nas taxas de sucesso em tarefas de leitura que são as mais essenciais para o mundo atual da inteligência artificial: competências como avaliar informação, refletir criticamente e integrar múltiplos elementos de prova, as quais exigem uma leitura atenta e uma atenção sustentada. Em contrapartida, os casos de ‘leitura apressada’, em que os alunos dão respostas rápidas e incorretas, aumentaram”, refere o relatório numa análise ao universo dos países analisados.

A esse propósito, o documento avança com algumas possíveis explicações para a diminuição, a longo prazo, das capacidades de leitura. Por um lado, refere a “natureza mutável da leitura através da digitalização e do uso de ecrãs, que pode estar a substituir o tempo anteriormente dedicado a uma leitura mais profunda”. Além disso, aponta também à “diminuição das taxas de leitura por prazer, inclusive entre os jovens” e, finalmente, a uma “mudança de atitudes em relação à aprendizagem e à escola desde a pandemia de Covid-19”. Os dados são particularmente preocupantes a este respeito porque uma quebra nas capacidades de leitura e interpretação arrasta consigo uma quebra no desempenho nas outras áreas de aprendizagem.

Na matemática, o agravamento da prestação dos alunos começa a notar-se ainda em 2009, mas torna-se (muito) mais acentuado a partir de 2018. Neste caso, dos cerca de 500 pontos iniciais, o gráfico desce para os mais recentes 470 pontos. Por fim, na ciência, o declínio — que também se verifica — é menos acentuado e passa dos 504 pontos, em 2006, para os 485 neste último relatório. “No geral, os dados sugerem fragilidades na forma como os sistemas educativos se estão a adaptar às mudanças sociais, tecnológicas e económicas. Olhando para o futuro, o desafio para os responsáveis políticos não é apenas recuperar o tempo perdido, mas sim garantir que as escolas correspondem às exigências de um mundo em rápida evolução. Como o PISA demonstra, não é uma tarefa fácil”, refere o relatório.

E Portugal, como fica em cada uma destas áreas de ensino? O PISA faz uma comparação entre os resultados de 2022 e os mais recentes. Como já referido: há uma quebra nos pontos obtidos em cada uma das três áreas (sendo que a ciência acaba por subir um nível no ranking apenas porque as prestações da maior parte dos alunos de outros países foram ainda pior).

Em 2022, cerca de 5% dos alunos em Portugal sentiam que aprender coisas novas era “aborrecido”. Esse universo subiu, em 2025, para os 15%.
Dados do relatório do PISA25

Começando agora pela matemática, Portugal fica abaixo da média da OCDE, mas ainda assim no primeiro terço da tabela, liderada por países como a China (1.º lugar, com 612 pontos), Singapura (2.º lugar, com 563 pontos) e Macau (3.º, 549 pontos). Os alunos em território nacional obtêm o 30.º lugar do ranking, com 460 pontos (menos 12 que em 2022 e uma posição abaixo da conquistada nesse momento).

Na leitura, o cenário é ligeiramente mais positivo, ainda que tenha piorado nos últimos anos. Portugal ocupa o 26.º lugar desse ranking, com 462 pontos (menos 15 e dois lugares abaixo, em comparação com três anos antes).

E na ciência? Esta é, de facto, a única área em que Portugal sobe uma posição no ranking, ainda que não seja aquela em que obtém melhor classificação das três (leitura assume essa frente da corrida). Aqui, os alunos obtêm 482 pontos (com uma descida de três pontos), correspondentes a um 29.º lugar do ranking. Imediatamente abaixo surgem a Hungria, Dinamarca, Espanha, Croácia, Eslováquia, Luxemburgo e Noruega.

Relativamente “aborrecidos” e a “perder tempo”: como os alunos olham para o tempo passado na escola

Era uma das questões a que os jovens foram chamados a responder: aprender coisas novas é aborrecido? Sim, não, muito, pouco? Olhando para o estado de espírito dos alunos portugueses, o cenário não é o mais desanimador, face ao contexto global. Ainda assim, a situação é um pouco pior que três anos antes. Em 2022, cerca de 5% dos alunos em Portugal diziam que, sim, efetivamente sentiam que aprender coisas novas era “aborrecido”. Esse universo subiu, em 2025, para 15%. Na média da OCDE, esse valor está agora nos 17%, ligeiramente acima da realidade nacional, mas também aí houve um agravamento (em 2022, esse valor estava nos 12%).

“Esta é uma preocupação grave. Quando os alunos estão aborrecidos, têm menor probabilidade de prestar atenção nas aulas, participar ou dar o seu melhor. (…) Independentemente da causa, ao longo do tempo, o aborrecimento pode levar a uma fraca compreensão das matérias, notas mais baixas e dificuldades em recuperar o ritmo. O aborrecimento persistente pode também fazer com que os jovens se sintam desligados da escola. Este desligamento pode aumentar a probabilidade de faltar às aulas, abandonar os estudos e ter um impacto a longo prazo nas atitudes dos estudantes em relação à aprendizagem”, avisam os autores do PISA25.

“Embora a digitalização tenha o potencial de reduzir as desigualdades educativas, isso só pode acontecer se todos os alunos tiverem um acesso adequado aos recursos digitais e se os professores souberem como utilizar a tecnologia de forma eficaz”
Relatório PISA25

Pergunta ligeiramente diferente, mas que servia também para esse barómetro sobre como os alunos veem a escola (e o sistema de ensino) de que fazem parte e que lhes é oferecido. Mais uma vez, olhemos à realidade nacional em comparação com a média da OCDE. Aqui, cerca de 20% (ligeiramente menos) dos alunos consideram (“concorda” ou “concorda fortemente” eram os termos usados) que o tempo na escola não é mais que uma “perda de tempo”. A média da OCDE anda à volta dos 24%, um pouco mais negra. Mas acima do valor registado por Portugal estão — e olhando exclusivamente para o contexto europeu — a Dinamarca (cerca de 22%), Reino Unido, Eslováquia, Finlândia e Hungria (andarão pelos 24%), mas também a Bélgica, França, Croácia, Grécia, Malta, Bulgária, Eslovénia, Lituânia, Chéquia, Noruega, Países Baixos e, à cabeça (é mesmo o país com o valor mais elevado), a Polónia.

Na análise a estes resultados, o relatório traça um paralelo entre o sentimento de pertença e a valorização das aprendizagens em meio escolar. “O sentimento de pertença também se relaciona com a forma como os alunos valorizam a educação. Segundo o PISA, 71% dos alunos que ‘sentem que pertencem’ declaram que a escola lhes ensina competências e conhecimentos que serão úteis num emprego. Contudo, nos países da OCDE, quase um em cada dois alunos queixa-se de que a escola faz pouco para os preparar para a vida adulta. Um quarto dos alunos afirma mesmo que a escola é uma perda de tempo.” Os responsáveis pelo PISA defendem, por isso, que, “olhando para o futuro, os responsáveis políticos devem priorizar o desenvolvimento de um forte sentimento de pertença nas escolas”, uma vez que “os alunos que se sentem integrados, valorizados e apoiados têm maior probabilidade de se envolver na aprendizagem e de ter sucesso a nível social, emocional e académico”.

Digitalização: uma aposta que tem de incluir alunos e professores

Há poucos dias, numa intervenção da Universidade de Verão do PSD, o primeiro-ministro traçava dois objetivos para a Educação em Portugal: reforço da digitalização nas escolas e uma aposta da introdução da Inteligência Artificial em contexto escolar. Luís Montenegro não foi particularmente claro sobre o que entende por reforço da digitalização; e também não detalhou de que forma, na sua visão, a Inteligência Artificial deve estar mais presente nas escolas e, em particular, nas salas de aulas. Mas os dois pontos foram apresentados como parte de uma visão para a escola de futuro em Portugal.

No mais recente PISA, há alguns dados a esse respeito. Em concreto, foram recolhidas informações sobre a “percentagem de alunos cujos diretores reportaram que a disponibilidade e qualidade dos recursos digitais prejudicaram o ensino até certo ponto ou muito”. Ou seja, é possível perceber, no âmbito deste estudo — e de acordo com a visão dos alunos, tendo por base os relatos que lhes chegam dos diretores —, como as escolas em Portugal estão (ou não) apetrechadas tecnologicamente.

Sobre este tema, cerca de 40% dos alunos em Portugal dizem que a sua escola tem “recursos digitais inadequados ou de fraca qualidade”. É um valor bastante acima da média da OCDE, que se fica pelos 20%. Pior, no contexto europeu, só mesmo a Eslováquia e a Macedónia do Norte. Quando a questão é sobre a inexistência, em absoluto, de recursos digitais, esse valor desce para cerca de 32%. “Embora a digitalização tenha o potencial de reduzir as desigualdades educativas, isso só pode acontecer se todos os alunos tiverem um acesso adequado aos recursos digitais e se os professores souberem como utilizar a tecnologia de forma eficaz”, refere o relatório. “Os alunos incapazes de utilizar os programas mais recentes, ou que trabalhem com equipamentos com falhas, correm o risco de ficar para trás. É por isso que os responsáveis políticos precisam de garantir a disponibilização de recursos digitais nas escolas que sejam adequados aos seus fins” e também “garantir que os professores tenham acesso a formação e recursos adequados, para que as ferramentas digitais sejam utilizadas de forma criteriosa e tragam valor real”.

Na cauda da Europa — e isso é uma boa notícia

É um dos parâmetros em que Portugal surge mais ao fundo da tabela: está exatamente em 16.º a contar do fim, numa tabela de que fazem parte outros 88 países ou regiões. E isso, tendo em conta o tema, é uma boa notícia. Os alunos em Portugal estão entre os que, do universo de países do PISA, menos referem ter estado expostos a episódios de bullying na escola.

Apenas Itália e Montenegro apresentam valores mais baixos. A questão foi colocada diretamente aos alunos e é com base nos relatos dos próprios que essa tabela foi construída. E o tema é pertinente porque, além do mais, “vários estudos encontraram uma forte associação entre o bullying e resultados escolares mais fracos”, destaca o relatório. E o cyberbullying (ou bullying feito através de meios digitais, como as redes sociais, por exemplo) está entre os que mais impacto têm na performance dos alunos que são alvo de tratamentos deste tipo por parte dos colegas de escola.

“Embora os níveis gerais de ciberbullying sejam relativamente baixos em toda a OCDE, 3% dos alunos relatam que algum tipo de informação perturbadora a seu respeito é publicada online sem o seu consentimento algumas vezes por mês. A relação com os resultados dos estudantes é impressionante: em 82 de 86 sistemas educativos, as vítimas de ciberbullying obtiveram entre 13 e quase 90 pontos a menos em ciências em comparação com os alunos que não sofrem de ciberbullying”, destacam os autores do relatório. As consequências são, por isso, reais.

O relatório deixa, por fim, o alerta: “Embora as abordagens devam refletir as necessidades locais, um compromisso claro e coordenado no combate ao bullying é fundamental. Sem uma ação sustentada, as consequências podem estender-se muito para além da sala de aula, afetando o bem-estar mental e físico dos alunos no futuro.”