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Filhos Digitais: compreender para proteger 

Obrigámos os fabricantes de brinquedos e equipamentos elétricos a incorporar a segurança no próprio produto. No ecossistema digital, o princípio deve ser exatamente o mesmo.

Carla Silva
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O recente processo judicial contra a Meta nos EUA tornou visível um problema que ultrapassa esta gigante tecnológica: as redes sociais deixaram de ser simples espaços de convivência e comunicação entre jovens. São, hoje, ambientes digitais meticulosamente desenhados para disputar e monopolizar a  sua atenção.

O verdadeiro risco não reside apenas no conteúdo que uma criança encontra no Instagram, TikTok ou Facebook, mas sim na arquitetura invisível que decide o que lhe aparece, quando aparece e o que surge a seguir. Recursos como o scroll infinito eliminam o momento natural de pausa; o autoplay inicia novos conteúdos sem exigir uma escolha consciente; e as notificações funcionam como iscos permanentes para garantir o regresso ao ecrã.

Em paralelo, os “gostos” e visualizações convertem a aprovação social em números, enquanto os sistemas algorítmicos monitorizam onde paramos o olhar e como interagimos, aprendendo a manter-nos ligados cada vez mais tempo.

Num adulto, esta engenharia já merece discussão. Numa criança, exige regulação. A American Psychological Association recorda que, durante a adolescência, a sensibilidade à atenção aumenta, assim como a aprovação e a recompensa social, enquanto os mecanismos cerebrais associados ao autocontrolo ainda estão em desenvolvimento.

Isto não significa que as redes sociais sejam prejudiciais. Significa que não devemos colocar sobre uma criança a responsabilidade de resistir a sistemas tecnologicamente concebidos para captar a sua atenção.

É aqui que a Europa e os EUA têm seguido caminhos diferentes. Nos EUA, uma parte importante da mudança nasce nos tribunais e na litigância promovida pelos Estados. Na União Europeia, o Digital Services Act introduziu uma lógica diferente: identificar riscos sistémicos e obrigar as grandes plataformas a preveni-los e mitigá-los. Em 2025, a Comissão Europeia avançou, recomendando que funcionalidades que favorecem a utilização excessiva – como o autoplay, determinadas notificações e mecanismos de continuidade – sejam desativadas por defeito para menores.

Ainda assim, importa ir mais longe. Para crianças e adolescentes, o scroll infinito e o autoplay deveriam estar desligados por defeito, as contagens públicas de “gostos” e seguidores deveriam ser ocultadas, as notificações durante a noite fortemente restringidas e os algoritmos de recomendação deveriam obedecer a critérios específicos de proteção de menores. A

configuração mais segura não pode ser uma opção escondida num menu, mas sim uma configuração de origem.

Por outro lado, a legislação não pode substituir os pais! Em casa, impõe-se estabelecer períodos sem telemóvel – sobretudo durante refeições, horas de estudo e antes de dormir –, acompanhar ativamente as plataformas utilizadas, conversar sobre os algoritmos e ensinar a competência que considero essencial para esta geração: perceber quando somos nós a decidir continuar e quando é a tecnologia a escolher por nós.

Proibir as redes sociais é uma resposta fácil para um problema complexo. Elas potenciam a comunicação, aprendizagem, criatividade e integração social. O objetivo tem de ser outro: retirar às plataformas o poder de explorar comercialmente as vulnerabilidades próprias do desenvolvimento infantojuvenil.

Durante décadas, obrigámos os fabricantes de brinquedos e equipamentos elétricos a incorporar a segurança no próprio produto. Afinal, ninguém espera que seja uma criança a defender-se de um brinquedo perigoso. No ecossistema digital, o princípio deve ser exatamente o mesmo.