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(A) :: Putin não precisa de chegar a Berlim

Putin não precisa de chegar a Berlim

Para Moscovo, uma Alemanha politicamente incapaz de manter o apoio à Ucrânia pode ser quase tão útil como uma Alemanha militarmente neutralizada.

Fausto Frade
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Durante décadas, habituámo-nos a pensar que o coração político da Europa estava em Berlim. Não apenas porque a Alemanha é a maior economia da União Europeia, mas porque nenhuma transformação estrutural do projeto europeu parece verdadeiramente possível sem a sua participação. Foi assim com o euro, com as sucessivas crises financeiras, com a política energética, com a resposta à guerra na Ucrânia e está a ser assim, novamente, com o esforço europeu de rearmamento.
Talvez seja precisamente por isso que devemos olhar com particular atenção para aquilo que acaba de acontecer na Saxónia-Anhalt.

A AfD obteve cerca de 44% dos votos. Em 2021 tinha conseguido pouco mais de 20%. A CDU, que então ultrapassara os 37%, caiu agora para perto dos 17%. Não estamos perante uma pequena oscilação eleitoral. Estamos perante uma deslocação tectónica do eleitorado alemão. Mais importante ainda: a AfD já aparece nas sondagens nacionais como a força política mais votada, com cerca de 27%, seis pontos à frente da CDU/CSU.

Seria confortável explicar tudo isto através da velha fórmula segundo a qual os extremos crescem em períodos de crise. Mas seria demasiado simples. A Alemanha está a pagar anos de perda de competitividade industrial, energia mais cara, transformação acelerada do seu modelo económico, pressão migratória, envelhecimento demográfico e um sentimento crescente de distância entre cidadãos e instituições. No Leste alemão existe ainda uma fratura histórica que a reunificação política nunca conseguiu eliminar completamente.
A AfD soube ocupar esse espaço.

E quando um partido deixa de recolher apenas o voto de protesto e começa a aproximar-se dos 30% a nível nacional e dos 45% numa região, deixa de ser politicamente sério tratá-lo apenas como um acidente da democracia. Podemos rejeitar profundamente muitas das suas posições. Podemos recordar que a estrutura da AfD na Saxónia-Anhalt é classificada pelos serviços de proteção da Constituição como uma organização comprovadamente extremista de direita. Mas não podemos fingir que os seus eleitores não existem. Existem. São milhões. E quanto mais as forças tradicionais os classificarem em vez de procurarem compreender por que razão votam assim, mais esses eleitores se afastarão das forças tradicionais.

Mas existe outra dimensão muito mais inquietante. Chama-se Rússia.
Convém, antes de tudo, não cair no erro fácil. Não existe qualquer prova de que Moscovo tenha produzido os 44% da AfD na Saxónia-Anhalt. Esses votos pertencem a cidadãos alemães e a responsabilidade política pelas escolhas eleitorais pertence aos alemães. A democracia tem precisamente esta particularidade incómoda: por vezes entrega resultados de que não gostamos.

Outra coisa, completamente diferente, é ignorar que os interesses estratégicos russos e algumas das posições defendidas pela AfD se cruzam em pontos fundamentais.
A AfD defende uma reaproximação à Rússia, contesta a política de sanções e opõe-se à continuidade do apoio alemão à Ucrânia. Ao mesmo tempo, as próprias autoridades alemãs reconhecem que a Rússia desenvolve continuadamente operações híbridas destinadas a enfraquecer a confiança nas instituições, influenciar o debate político e desestabilizar as democracias europeias. Nas últimas semanas, a Alemanha voltou inclusivamente a acusar Moscovo de ações hostis no seu território.

Talvez seja aqui que estejamos a cometer um erro conceptual. Continuamos a imaginar a conquista da Europa com os mapas militares do século XX.Tanques. Fronteiras. Exércitos. Território. Mas o poder no século XXI não se conquista apenas ocupando território. Conquista-se condicionando decisões. Para Moscovo, uma Alemanha politicamente incapaz de manter o apoio à Ucrânia pode ser quase tão útil como uma Alemanha militarmente neutralizada. Uma Alemanha que abandone as sanções, reduza o esforço de defesa, reabra uma relação privilegiada com a Rússia e bloqueie consensos europeus alteraria profundamente o equilíbrio estratégico do continente.

E é precisamente isso que torna o crescimento da AfD uma questão europeia.
A Europa está hoje a caminhar na direção oposta. A União definiu como prioridade tornar-se mais forte e mais segura, lançou o Readiness 2030, está a tentar construir capacidade industrial de defesa e aprovou um apoio de 90 mil milhões de euros à Ucrânia para 2026 e 2027. França e Alemanha aprofundaram inclusivamente a cooperação estratégica e de dissuasão, enquanto Berlim já disponibilizou ou comprometeu dezenas de milhares de milhões de euros em apoio militar a Kiev.

Retiremos a Alemanha desta equação e percebemos imediatamente o problema.
Sem Berlim, a capacidade financeira europeia enfraquece. A indústria de defesa perde um dos seus principais motores. O eixo franco-alemão fica amputado. A posição europeia perante a Rússia fragmenta-se. Os países do Báltico e a Polónia passam a desconfiar ainda mais da capacidade da União para garantir a sua segurança. E a própria Ucrânia perde um dos seus maiores sustentáculos europeus.

É por isso que Putin não precisa necessariamente de chegar a Berlim. Precisa que Berlim deixe de querer chegar a Kiev.
As próximas semanas serão importantes. A 20 de setembro votam Berlim e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. As eleições federais deverão realizar-se apenas em 2029, salvo uma crise que provoque a sua antecipação. Mas politicamente essa campanha pode já ter começado. A vitória na Saxónia-Anhalt deu à AfD aquilo que todos os movimentos políticos procuram antes de chegar ao poder: a sensação de inevitabilidade.
E talvez esse seja hoje o maior perigo para Friedrich Merz e para a própria Europa.
Não é apenas a existência de uma alternativa radical. É a possibilidade de os cidadãos começarem a acreditar que essa alternativa é o futuro.

A Rússia aprendeu há muito que as democracias ocidentais são muito difíceis de derrotar pela força. Talvez tenha percebido também que são bastante mais fáceis de enfraquecer através das suas próprias divisões.
A Europa passou décadas a preparar-se para impedir que um exército inimigo atravessasse as suas fronteiras.
Talvez devesse começar a preocupar-se também com aquilo que pode atravessar as urnas.