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(A) :: A Igreja Católica, a Imigração e a Caridade, outrora Cristã

A Igreja Católica, a Imigração e a Caridade, outrora Cristã

O “Realismo Cristão”, ao rejeitar visões ingénuas e idealismos utópicos, pretende preservar e consolidar um cimento moral comum que sirva de base sólida, e que torne viável o processo de integração.

Pedro Saraiva Ferreira
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1. A entrada massiva de cerca de 70.000 migrantes, no passado mês de julho, na cidade espanhola de Ceuta (a que muitos chamaram de “invasão”), desencadeou uma profunda crise política, humanitária e diplomática na fronteira entre Espanha e Marrocos, escalando o debate público sobre o tema da imigração e controlo de fronteiras. Uma casa pode acolher o necessitado que chega porque, precisamente, possui paredes que a sustentam, janelas por onde entra a luz e portas por onde entrar. Se as paredes são destruídas, se se nega ao dono da casa o direito de a proteger, e ainda se lhe exige que retire portas e janelas, então já não existe hospitalidade alguma, pois também já não existe uma casa que possa ser sinal de acolhimento. As fronteiras não são, tal como os demagogos e manipuladores sociais querem fazer crer, um sinal de ódio, ou hostilidade ao estrangeiro; elas são, precisamente, sinal e condição da nossa hospitalidade. Uma fronteira aberta deixa de ser fronteira, (tal como uma casa sem porta deixa de ser casa). E sem portas e fronteiras não há casas nem países. Sem portas e fronteiras não há acolhimento; há ocupação, assalto, intrusão, violação… há invasão. Portas e fronteiras têm também uma dimensão moral (não apenas física): elas protegem não apenas a casa e o país, mas também a forma (que não é neutra) de compreender as relações humanas, o mundo e a realidade.

2. O primeiro aspecto a sublinhar é que a tragédia que se desenrola em Ceuta não configura uma típica crise migratória (como em Lampedusa, por exemplo). As investigações e relatórios oficiais confirmam que, no caso de Ceuta, dezenas de milhares de pessoas, vítimas de uma massiva campanha de desinformação nas redes sociais, foram atraídas e empurradas em direção à fronteira espanhola (que alegadamente estaria aberta) sob falsas promessas de uma vida melhor. O resultado foi trágico: quase 100 mortos, para não falar da violência e caos generalizado nas ruas de Ceuta. Como sabiamente referiu o presidente da Conferência Episcopal Espanhola, Dom Luis Argüello, “a biopolítica é fundamental no atual poder mundial. Brinca-se com a vida e utilizam-se as pessoas — seus sonhos, fome, sexualidade e dados — em prol do lucro e do poder. As migrações fazem parte dessa estratégia”. Este caso configura, assim, o uso flagrante da demografia como arma de jogo geopolítico, transformando o episódio de Ceuta numa espécie de metáfora laboratorial real, de experiências migratórias; os fluxos migratórios deixaram, portanto, de ser apenas meros números, índices ou dados estatísticos para passarem a ser verdadeiros ativos de coação e pressão geopolítica. Instrumentalizar o próprio povo como munição é uma das formas mais grotescas e criminosas do exercício do poder. É o grau zero da política.

3. Para manipular e mascarar a verdadeira natureza da tragédia em curso, diversas instituições da UE, ONGs, movimentos e partidos políticos vêm reduzindo um problema de natureza essencialmente geopolítico (como referido anteriormente) a um debate meramente emotivo e sentimental (como se o controlo das fronteiras e a defesa dos direitos humanos fossem conceitos opostos e excludentes. Não! Não são opostos; são necessários e complementares). Já não são necessárias fronteiras, soberania e exército; já não há interesses nacionais a defender. Agora, fala-se apenas em dignidade humana, direitos fundamentais, proteção, acolhimento, diálogo, empatia, e assistência para com os migrantes. (Já há muito tempo que comunistas (Gramsci, Escola de Frankfurt… mas também os globalistas), trabalham sobretudo na esfera da Revolução Cultural, e na mudança dos princípios morais.  Estes, são a substância da vida social, da qual a política decorre quase que automaticamente. Quando se dominam os princípios morais que governam a sociedade, sabe-se quais as opções que a mesma vai valorizar e escolher; logo, domina-se a política; e votos…). E como uma desgraça, quase sempre, nunca vem só… para além do referido deslocamento do foco político para o foco moral (instrumentalizado, então, perversamente por movimentos sociais, partidos políticos, e estado(s)…), esta mentalidade, este filtro mental que organiza as informações e orienta os comportamentos, penetrou, pasme-se, dentro da própria liderança e círculos católicos. Frequentemente, qualquer objeção à assistência ilimitada aos migrantes é criticada e diabolizada, invocando-se, de forma parcial e redutora, a caridade, a fraternidade e a fidelidade ao Evangelho.

4. Mas, afinal, o que diz a Igreja? O Catecismo da IC (ponto 2241) tem uma posição equilibrada, ponderada e bastante clara: “As nações mais abastadas devem acolher, tanto quanto possível, o estrangeiro em busca da segurança e dos recursos vitais que não consegue encontrar no seu país de origem… sob a protecção daqueles que o recebem”. Mas também se refere aos deveres e obrigações daqueles que imigram: “O imigrado tem a obrigação de respeitar com reconhecimento o património material e espiritual do país que o acolheu, de obedecer às suas leis e de contribuir para o seu bem”. Deste modo, salvaguarda-se o direito das autoridades locais de subordinar o exercício desse direito a várias condições jurídicas, legais e sociais. Ou seja, o legítimo direito de emigrar não é um direito absoluto, ilimitado, incondicional. A assistência humanitária, o acolhimento e integração é um dever para com aqueles que chegam; mas devem ser consideradas, prudentemente e dentro da legalidade, outras dimensões do processo, tais como, o controlo de fronteiras, o combate ao tráfico de seres humanos e crime organizado, o controlo dos fluxos migratórios, o tráfico de seres humanos, etc. Defender uma fronteira nacional é, assim, uma responsabilidade e um dever que qualquer estado, com proporcionalidade, prudência e respeito pela dignidade humana, deve exercer.

5. Gerou-se, nesta matéria, uma autêntica confusão doutrinária sobre a qual convém reflectir (e recordar). A caridade cristã não constitui um mero assistencialismo humanitário; a missão evangelizadora da Igreja não pode ser confundida com os  serviços assistenciais de uma qualquer ONG (por mais legítimos e louváveis que sejam); a caridade cristã, sobrenatural por natureza, não se expressa numa espécie de irmandade abstrata, indiferenciada entre todo o género humano. Sim, a caridade cristã é uma virtude sobrenatural enraizada na verdade, enquadrada pela justiça e governada pela prudência. Sim, a caridade cristã é universal, mas ela é ordenada, hierárquica e racional. Temos deveres especiais para com os filhos, os pais, a família… temos uma relação próxima com os irmãos na fé, com os nossos compatriotas e a comunidade da qual fazemos parte (já São Paulo ordenava para “fazer o bem a todos, mas especialmente aos nossos irmãos na fé”). É preciso, então, não cair na armadilha das falsas pretensões de fazer o bem, isto é, de um “bonismo” vazio (“bonismo”, é uma demagogia marcada por uma postura moralizante e orientada aos bons sentimentos, sempre e de qualquer forma, simplificando demais os problemas e ideologizando todas as questões). Esta perversa distorção da caridade cristã, este sentimentalismo exacerbado (e destrutivo), a que se chama abusiva e indistintamente de “humanidade”, propõe que a emotividade e o sentimentalismo, gerados pelo sofrimento alheio, se torne o principal motor da ação política; tal seria parcial, incompleto, muito redutor… desastroso. Já Bento XVI explicava com muita precisão: o anúncio da Palavra, a celebração dos sacramentos e o serviço da caridade são três pilares inseparáveis ​​da Igreja. Ele afirmou que a caridade responde, em primeiro lugar, à necessidade imediata (dar de comer a quem tem fome, vestir quem está nu, cuidar do doente, etc.); mas, advertiu que ela não pode se diluir num mero assistencialismo social, ético ou genérico, nem deixar Deus e Cristo de lado. É assim destrutiva a ideologia das fronteiras abertas e o humanitarismo sem limites face à imigração desordenada, ilegal e em massa.

6. O “Realismo cristão”, que analisa a sociedade e a natureza humana com base na realidade do mal e nos limites humanos, impele-nos a não cair na tentação ideológica, simplista e redutora do fenómeno migratório. O “Realismo Cristão”, ao rejeitar visões ingénuas e idealismos utópicos, pretende preservar e consolidar um cimento moral comum que sirva de base sólida, e que torne viável o processo de integração. Só com uma base comum, inerente à inegociável dignidade humana, é que será possível um verdadeiro acolhimento e integração.  A frequente ambiguidade e falta de coragem para fazer este tipo de abordagem é medida da fraqueza da nossa fé. Por isso, um acolhimento autêntico, sistemático e consistente exige coragem para não abdicarmos dos valores da nossa cultura e da nossa fé, pois só assim podemos partilhá-las com liberdade, autenticidade e respeito.