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(A) :: O risco da desesperança

O risco da desesperança

Montenegro assumiu como objetivo lutar pela maioria absoluta. Resta saber se está a fazer o caminho mais óbvio. É que às vezes não há uma terceira oportunidade para deixar uma primeira boa impressão.

Miguel Santos Carrapatoso
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Nos últimos 40 anos, só por duas vezes um primeiro-ministro em funções perdeu eleições legislativas: Pedro Santana Lopes, sete meses depois de ter assumido um cargo para o qual não tinha sido eleito; e José Sócrates, na terceira vez que se candidatou e quando o país estava já muito perto do colapso. Ou seja, diz-nos a tradição que um primeiro-ministro só é derrotado em condições absolutamente excecionais, praticamente irrepetíveis. Desejavelmente irrepetíveis. A tendência, aliás, é que o primeiro-ministro candidato saia reforçado nas urnas — Cavaco, Guterres, Costa e Montenegro conseguiram-no; Sócrates não conseguiu e Passos, não tendo sido derrotado, perdeu votos.

Ora, este conservadorismo dos eleitores portugueses, a resistência à mudança e a tendência natural pela continuidade, é uma excelente notícia para Luís Montenegro. Será justo dizer que, olhando para o padrão que se estabeleceu desde Aníbal Cavaco Silva, só um cataclismo faria com que Luís Montenegro perdesse as próximas legislativas. Ainda que seja importante não desconsiderar um elemento muito difícil de medir por ser um fenómeno relativamente novo na democracia portuguesa: o potencial eleitoral de André Ventura, líder de um partido que, sete anos depois de ter sido criado, conseguiu dinamitar o bipartidarismo.

Admitindo que a tradição se mantém e que o padrão se cumpre, o que não é líquido, a questão é se o líder social-democrata quer ‘apenas’ vencer as próximas eleições. Olhando para aquilo que Montenegro vai dizendo e para aquilo que o próprio inscreveu como compromisso na sua recandidatura à liderança do PSD, o grande objetivo deste segundo ciclo é reunir as condições políticas necessárias para lutar seriamente pela maioria absoluta nas próximas eleições. O que levanta automaticamente outra pergunta: se Luís Montenegro está ou não a percorrer o caminho mais óbvio para o conseguir.

Em março de 2024 e em maio de 2025, segundo os estudos pós-eleitorais que então se fizeram, as vitórias da AD deveram-se em grande medida à mobilização de eleitores que se tinham abstido em eleições anteriores e de ex-eleitores do PS. Os mais jovens e aqueles com formação superior foram o motor das duas vitórias de Luís Montenegro. É possível concluir, portanto, que o líder social-democrata ganhou porque fez com que muitos acreditassem que era possível fazer diferente e fazer melhor do que o PS nos oito anos de governação de António Costa. Acreditassem e desejassem a mudança proposta por Montenegro.

Em março de 2026, uma sondagem do ICS/ISCTE para Expresso/SIC dizia que 60% dos inquiridos consideravam que o Governo estava a ir “pelo caminho errado” — 30% dos simpatizantes do PSD consideravam o mesmo. Na mesma sondagem, 50% consideravam que o país tinha piorado ou piorado muito contra os 12% que diziam ter melhorado ou melhorado muito.

Quatro meses depois, em julho, uma outra sondagem, da Católica para a RTP/Público, concluía algo de muito semelhante: 51% dos inquiridos achavam que o país estava pior contra 12% dos que achavam que o país estava melhor. Ainda que com ligeiras variações, o acesso à Saúde, o preço da Habitação, o aumento do custo de vida, a diminuição do rendimento disponível e a corrupção destacavam-se nas duas sondagens como sendo os indicadores mais negativos.

No início de setembro, a primeira tracking poll semanal da CNN/TVI sugeria que 58% dos inquiridos desaprovavam a atuação do Governo, contra os 35% que aprovavam. Na mesma linha, 59% desaprovavam a atuação de Montenegro como primeiro-ministro, contra 35% que aprovavam. Nesta tracking, como noutras sondagens e estudos de opinião, a AD era a terceira força política.

Dizer que o SNS não está em boa forma é um simpático eufemismo. O combustível está muito mais caro e a mercearia também. As rendas vão castigando os inquilinos. Há mais casas no mercado e muitos jovens (mais de 100 mil, segundo o Governo) beneficiaram das medidas desenhadas. Mas as casas têm de ser pagas, a elasticidade dos salários não chega para tudo e a prestação vai caindo na conta todos os meses. E há um país 35+ que continua sem conseguir sonhar sequer com uma casa — ainda para mais num mercado sobreaquecido pelos estímulos criados pelo Governo.

O IRS Jovem fez maravilhas por muita gente e as reduções mais marginais de impostos sobre o rendimento também ajudaram. Mas descer os impostos tem um lado perverso: os contemplados nunca ficam satisfeitos e esperam sempre mais. Para já, o Governo vai dizendo a trabalhadores (e a pensionistas) que não pode. Veremos mais à frente.

Nos intervalos, o Executivo de Luís Montenegro atolou-se numa reforma laboral falhada, embrulhou-se num caos com os exames nacionais, cujo impacto na opinião dos mais jovens e respetivos pais ainda está verdadeiramente por medir, e deixou-se atrelar ao caso de Luís Neves, um eucaliptal político que vai continuar a secar a energia do Executivo até (pelo menos) março/abril do próximo ano. Desgaste em cima de desgaste em cima de desgaste.

Nos três últimos grandes discursos de Montenegro, os destaques foram: a criação de um fundo soberano (Congresso do PSD), a compra de ações na REN (Festa do Pontal) e o novo regime de autonomia e governação das escolas (Universidade de Verão do PSD). Isso, e o crescimento económico (que continua muito longe dos 3% que Joaquim Miranda Sarmento dizia ser peanuts) e a situação de quase pleno emprego (que desconsidera o desemprego jovem [quase 20%] e os salários praticados).

O que há de aspiracional e tangível num fundo soberano, na REN, no novo regime de autonomia e governação das escolas…? Qual é a grande mensagem de Luís Montenegro neste momento? De que forma é que a AD está a tentar alargar as suas fronteiras eleitorais para chegar à maioria absoluta? Como é que está a conseguir atrair eleitores de outros partidos e abstencionistas? Que esperança está a oferecer o social-democrata? Não é, nesta altura, fácil de compreender ou descortinar.

O histórico conservadorismo do eleitorado português dá-lhe conforto suficiente para não desesperar com más sondagens circunstanciais. A evidente vantagem teórica de um primeiro-ministro em funções nunca deve ser desconsiderada. Mas seria prudente ir lendo os sinais e o ar dos tempos. Em ’24 e ’25, o Chega foi o maior beneficiário líquido da desesperança. Às vezes não há uma terceira oportunidade para deixar uma primeira boa impressão.