Posso dizer, com muito orgulho, que pertenço a uma geração que viveu uma infância feliz num meio rural isolado do mundo, mas rico de mundo por dentro. Um mundo de vivências partilhadas, sãs, solidárias e de coração aberto, com genuína partilha, sobretudo de boa vizinhança e inerente sentimento.
Foi aí, entre a terra e o pão, que aprendi as fainas agrícolas e guardei uma cultura afetiva que ainda trago no peito, quente como pão acabado de sair do forno. Uma sabedoria que não vinha dos livros, mas das mãos calejadas dos mais velhos, transmitida pela osmose, da relação de proximidade, aos mais novos.
Vivia as vindimas como quem vive uma festa. Com o entusiasmo solto de participar nos trabalhos e nas brincadeiras que nasciam à volta do trabalho, fomentando a interatividade colaborativa, a motivação e a alegria.
Para mim, a vindima foi sempre a Festa Maior. Pela doçura de Setembro, pelo manto dourado e rubro das videiras, pelo negro-azulado dos cachos que pareciam joias penduradas. E pela chiadeira única, orquestra desafinada e linda, dos carros de bois, a nossa música de fundo na ida e na volta da vinha, em coro com as cantigas das vindimadeiras e a tropelia feliz da criançada.
Era o tempo da torna-jeira. Não se pagava com dinheiro, pagava-se com amizade. Hoje vou à tua vindima, amanhã vens à minha. Vizinhos, amigos, compadres, todos de cesto na mão, a cortar, com respeito e muito cuidado, os cachos que a videira nos deu. E havia sempre quem dissesse “não se esqueçam que é dos bagos das uvas, que se faz o verdadeiro vinho, por isso, nem um bago no chão”.
Ao meio-dia, a merenda estendida à sombra da figueira, de um freixo, ou de um carrasco, já com bolotas crescidas, o pão centeio cozido no forno de lenha da casa, o queijo, de vaca, ovelha ou cabra, feito, pacientemente, com magia e arte, pela patriarca, a sardinha assada, ou de escabeche, o toucinho cru, cozido, ou frito, o presunto caseiro, o bacalhau frito, as azeitonas curadas no barrinhão …e o vinho, ainda do velho, a pensar no novo, tudo partilhado como se fosse missa. Uma solidariedade que cheirava a mosto.
Lembro o lagar, ou lagareta à espera, aquele cheiro agridoce e forte a uva esmagada que ficava entranhado na roupa, e o esmagamento a pés descalços, pelos homens mais pesados, de calças bem arremangadas, suados de mosto e de alegria. Isto antes dos esmagadores de manivela e roda grande. Os miúdos gostavam de dar à manivela, mas depressa desistiam.
A minha geração ainda se lembra da lição do livro da 3.ª Classe, “As Vindimas”, de Adolfo Portela, e dos versos da 4.ª Classe, à página 92, onde se lia que o vinho “é sangue da terra”. Retratavam, com verdade, aquele viver.
Hoje tudo é mais fácil, muitas das tarefas já são mecanizadas. Mas falta gente, faltam mãos com jeito e arte para o efeito. Falta a torna-jeira. As máquinas vieram e levaram com elas as cantigas, a conversa debaixo da parra, o pão partido ao meio, e os encantos dos namoricos que se escondiam para não serem vistos e parecer “feio”.
As vindimas marcaram várias gerações. A minha foi uma delas. Não eram trabalho custoso. Eram dia de festa, de alegria e de animado convívio.
As recordações perduram no coração e na alma de nós, sobreviventes desses momentos inolvidáveis, tão gratos e tão preciosos, com um encanto que dificilmente voltará.
Pensemos que volte… De uma forma diferente, com outras mãos, mas com o mesmo coração… Que volte, o encanto!
E que permaneça, confortavelmente, na memória da gente, que recorda e sente.