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(A) :: A manada

A manada

O que fez, então, Seinfeld? Que culpa recai sobre ele? Matou alguém? Incitou ao extermínio de um povo?

Carlos do Carmo Carapinha
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No conjunto de ensaios inacabados e postumamente publicados sob o título “Contre Sainte-Beuve”, Marcel Proust levou a cabo a demolição do aparelho crítico de Charles-Augustin Sainte-Beuve. Sainte-Beuve defendia a ideia de que para compreender uma obra é preciso interrogar o homem: o que pensa em matéria de religião, como se comporta com as mulheres, que uso faz do dinheiro, que vícios alimenta, o que dizem dele os amigos, o que se sabe pela família, pelos criados. Para Sainte-Beuve, a obra é um “sintoma” da biografia: quem melhor conhecer a biografia melhor lerá a obra. Proust recusou a ideia de que a vida de um autor pudesse servir de chave para a sua obra. Salvo quando a vida é o próprio assunto do livro (Levi, Soljenítsin, p. ex.), estava certo. O método de Sainte-Beuve escolhia, com uma estupidez exemplar, o material errado: acumulava tudo o que se pudesse saber da biografia para explicar a obra. Não por acaso, o seu positivismo errou em toda a linha: fê-lo execrar ou desvalorizar Stendhal, Baudelaire e Balzac, entre outros.

O livro do historiador Paul Johnson Intellectuals percorre a vida privada de uma dúzia de grandes nomes para a devolver em ruínas: Rousseau a entregar os cinco filhos à roda dos expostos depois de ter ensinado meio continente a educar crianças, Marx a viver do dinheiro de Engels, Tolstói a pregar a santidade do camponês do alto da sua herdade. E por aí fora. O passo seguinte dá-se sozinho: se este é o homem, o que valem os seus livros? A resposta: exactamente o que valiam antes. O Contrato Social não fica pior por causa da roda dos expostos, Guerra e Paz não encolhe um milímetro por Tolstói ter sido insuportável em casa. Um bom livro – ou o talento em geral – não é um atestado de bom comportamento do autor, e o leitor que exigir das obras que os seus autores tenham sido boas pessoas, bons amigos, bons maridos e simpatizantes do partido certo vai acabar com uma estante ou muito curta ou muito aborrecida. Quem se oferece como mestre de vida talvez responda pela vida que leva. Mas quem apenas escreve, compõe ou faz rir, apenas deve responder pelo talento demonstrado na sua arte.

Lembrei-me disto a propósito de Jerry Seinfeld, presença confirmada no festival Commedia a La Carte Fest, e da anunciada vaga de desistências.

Jerry Seinfeld nasceu a 29 de Abril de 1954, em Brooklyn, Nova Iorque, e subiu pela primeira vez a um palco em 1976, poucos meses depois de sair da universidade. Fez a estreia decisiva na televisão em Maio de 1981, no Tonight Show de Johnny Carson, e desde então nunca deixou de actuar. Entre 1989 e 1998 criou e escreveu, com Larry David, a série que é ainda considerada por muitos a melhor sitcom alguma vez feita. Terminada a série no auge (recordemos o dislate de Larry King), regressou ao circuito e recomeçou do zero. É o tipo de obsessão artesanal que define na perfeição o humor seinfeldiano, feito da observação minuciosa do trivial: a fila, o guardanapo, o telefonema que não se sabe terminar, o efeito de encantamento das televendas, o odor corporal. Meio século de carreira sem que a política alguma vez lhe tenha servido de matéria.

Reconheço: o argumento da autonomia da obra (voltando a Proust) funciona bem para obras literárias, mas não tão bem no caso do stand-up. O stand-up é executado pela pessoa, em nome próprio, com a sua cara e o seu nome no cartaz. A persona não é uma máscara: é, por norma, o próprio. Mas há um ponto que importa relevar: o material seinfeldiano não é político. Nunca foi. Os humoristas que desistiram do festival não estão a referir-se à comédia de Seinfeld. Não estão a dizer, por exemplo, que os sketches de Seinfeld são “sionistas”. Ou “anti-palestinianos”. Não podiam, aliás, dizê-lo. Estão a julgar o humorista pelo homem. Mas estão a fazer mais do que isso.

Façamos, por agora, o seguinte exercício: vamos supor que um outro cabeça de cartaz, mundialmente conhecido pelo seu humor apolítico, tinha por hábito manifestar publicamente, e de forma recorrente, a sua simpatia pelo Hamas, considerar o massacre de inocentes no 7 de Outubro uma acção legítima e escarnecer dos judeus num tom depreciativo. Enquanto humorista devia ser cancelado? A sua presença num festival de humor provocaria uma debandada? Todos sabemos a resposta a estas perguntas. Rima com “cão”.

O que estão, então, a fazer os humoristas que desistiram do festival? Estão, basicamente, a recusar participar num evento que, às 21:30 do dia 1 de Novembro, e por um período limitado, contará com a presença de Jerry Seinfeld, sozinho no palco. Reparem: o festival não se chama “Uma noite com Seinfeld” ou “Jerry Seinfeld em Portugal” ou simplesmente “Seinfeld”. Jerry Seinfeld é apenas o cabeça de cartaz de um festival de humor onde irão participar muitos outros humoristas e artistas, e que durará quatro dias. Muitos dos frequentadores do festival nem sequer iriam ver o espectáculo de Seinfeld.

Subjaz à vaga de desistências um elemento de ironia e outro de humor involuntário. Comecemos por este. A senhora Inês Aires Pereira, o senhor Pedro Tochas, o senhor Eduardo Madeira e o senhor Filipe Homem Fonseca – gente cuja graciosidade e talento humorístico rivalizam em ordem de grandeza com a presença de abacate e millennials em Marte – consideram que a sua desistência ajuda a não “normalizar o genocídio”. Estou a basear-me no que um deles afirmou (outros, cobardemente, pouco ou nada adiantaram): “não podemos normalizar o genocídio”. O raciocínio pressupõe duas coisas: 1) que está oficialmente estabelecido ter havido um “genocídio” (não está: nenhum tribunal o decretou e o processo ainda corre do Tribunal Internacional de Justiça); 2) que participar num evento onde actua um artista que, enquanto judeu, defende a existência de um Estado judaico e o direito de Israel à autodeterminação — sendo-lhe certamente desconfortável escutar recorrentemente o bordão “from the river to the sea” — equivale a normalizar o dito “genocídio”. Um salto lógico de que nem Baldrick se lembraria. Sem se dar conta, é a senhora Inês Aires Pereira quem normaliza, pela banalização, a expressão “genocídio” – uma categoria jurídica de definição rigorosa e de gravidade extrema, que não pode ser reduzida a mero instrumento de ênfase retórica.

Em condições normais, estes colegas de ofício deveriam estar por estes dias orgulhosos de poder partilhar um cartaz com Jerry Seinfeld (mantendo, por razões cautelares, o dito orgulho de mãos dadas com a constatação de que jamais nas suas espectaculares vidas poderão atingir 1/100 do talento de Seinfeld). Mas não. Em alternativa, decidiram organizar à beira do festival, quatro meses depois de saberem que Seinfeld seria cabeça de cartaz, em cerimónia privada e na presença de si próprios, a tomada de posse do cargo ESSIPI: “Eu Sou Suficientemente Importante Para Isto”. De seguida, a partir da varanda do Palácio de Santo Umbigo, farmaram aura para consumo do mundo sob pressão recíproca. Não vale a pena disfarçar o óbvio. Terão só agora descoberto a sequência de caracteres que, no cartaz, dão forma ao vocábulo “Seinfeld”? A hipocrisia é inebriante e o gesto parece extraído de um modelo de negócio sobejamente conhecido: à falta de talento, facture-se virtude, aproveitando-se, neste caso, a vantagem contemporânea de andar por aí um veículo denominado “anti-sionismo”, que serve com demasiada frequência de veículo ao vetusto anti-semitismo. Pelo caminho, espezinhe-se o seu próprio público – que, como está bom de ver, vale incomensuravelmente menos do que qualquer manifestação de auto-rectidão. Sejamos, ainda assim, justos: a falta de talento poderia não invalidar o argumento. E a liberdade de não participar é inalienável. A comicidade está na ideia de que a ausência destes nomes representa, para quem quer que seja, uma perda, e, para os próprios, uma espécie de salvação.

Agora, a ironia. Sem o saberem, estes humoristas adoptaram a clássica posição anti-semita (ou, para recuarmos ainda mais no tempo, antijudaica): a recusa da proximidade com o judeu pelo nojo ou o asco que a figura repulsiva deste desperta. Regressámos, simbolicamente, ao IV Concílio de Latrão ou aos estatutos de limpeza de sangue de Toledo, de 1449. Há um judeu de serviço? Disse umas coisas polémicas sobre a Palestina e o movimento “anti-sionista”? Atreveu-se, ainda assim, a comparecer? Por Deus: é assinalá-lo e estabelecer de imediato um perímetro de segurança. Para quem se julga puro, qualquer sombra de sujidade é insuportável.

Mas mergulhemos, então, no pantanoso terreno dos moralistas e inquisidores, que é como quem diz no plano do Bem e do Mal. Dissequemos o homem. Jerry Seinfeld fez a apologia do “genocídio”? Defendeu a morte de civis? De crianças? Assinou algum manifesto pró-massacre indiscriminado de palestinianos? Envergou uma t-shirt com a cara de Guevara, perdão, Netanyahu? Não. Em toda a linha, não. O que fez, então, Seinfeld? Que culpa recai sobre ele? Matou alguém? Incitou ao extermínio de um povo?

Oficialmente, Jerry Seinfeld assinou, entre mais de dois mil subscritores, uma carta-manifesto (destacam-se Gal Gadot, Helen Mirren, Michael Douglas, Jamie Lee Curtis, Chris Pine, Mark Hamill, Amy Schumer, Liev Schreiber, Mayim Bialik, Debra Messing, Zachary Levi, Andy García, Billy Porter, Howie Mandel, Ziggy Marley). A carta, divulgada a 12 de Outubro de 2023 pela Creative Community for Peace, dizia em substância isto: a) que o ataque de 7 de Outubro — o assassínio e o rapto de civis, incluindo bebés e idosos, a violação de mulheres, o massacre no festival Supernova — constituía terrorismo, sem justificação nem racionalização possíveis; b) que o meio artístico tinha o dever de o denunciar sem equívocos e de fazer o que estivesse ao seu alcance pelo regresso dos reféns às famílias; c) que, enquanto Israel tomasse as medidas necessárias para defender os seus cidadãos, se impunha resistir à campanha de desinformação que previa vir a inundar as redes sociais; e d) que os signatários esperavam o dia em que israelitas e palestinianos pudessem viver lado a lado em paz. Não há aqui uma linha sobre a condução da campanha militar que viria a seguir, nem sobre operações, alvos ou métodos, nem sobre fronteiras, nem sobre soberania: há a condenação de um massacre, um apelo pelo regresso dos reféns e um voto de coexistência. Tinham passado cinco dias.

Em Setembro de 2025, num evento na Universidade de Duke, na presença de um antigo refém do 7 de Outubro, Seinfeld disse o seguinte: “Free Palestine is, to me, just — you’re free to say you don’t like Jews. Just say you don’t like Jews. By saying ‘Free Palestine,’ you’re not admitting what you really think. So it’s actually — compared to the Ku Klux Klan, I’m actually thinking the Klan is actually a little better here because they can come right out and say, ‘We don’t like Blacks, we don’t like Jews.’ Okay, that’s honest.

Desta intervenção surgiram manchetes como “Seinfeld diz que o KKK é melhor”. A do jornal Público rezava assim: “Jerry Seinfeld compara movimento Palestina Livre ao Ku Klux Klan, que é “um pouco melhor””. Ao contrário do que escreveu a activista social Isabel Oliveira, Seinfeld não disse que o KKK era preferível ao movimento Free Palestine. O que ele disse, de forma obviamente provocadora, é que o KKK seria melhor num único aspecto: o da franqueza. O que ele imputou aos segundos foi a dissimulação: achar que muitos se abrigam na solidariedade com os palestinianos para exercer, sem o confessar, o velho ódio aos judeus. Podemos discordar da imputação, mas quem transformou aquilo num elogio ao KKK não leu a frase: limitou-se a ler a manchete. E negou a Jerry Seinfeld o direito de considerar descabeladas, ofensivas, persecutórias e erradas as marcações cerradas de que têm sido alvos os estudantes judeus nos campus universitários.

De resto, Seinfeld é culpado de reagir, por vezes de forma epidérmica e corrosiva, a abordagens de rua feitas à saída de espectáculos e de eventos desportivos. Em Fevereiro de 2025, à porta do Radio City Music Hall, respondeu a um provocador com um “I don’t care about Palestine”. Em Junho passado, à saída do quarto jogo das finais da NBA no Madison Square Garden, um streamer pediu-lhe um “Free Palestine” e ele devolveu, a rir, “It doesn’t exist”. São réplicas de segundos, arrancadas por quem foi ali de propósito para as captar, filmadas por telemóveis que aguardam o deslize, o lapso, a falha moral. Deviam ser lidas assim: reacções de um homem que passou cinquenta anos a devolver bolas a quem lhe interrompia o espectáculo, a responder a provocações com provocações. Não como doutrina. Estas reacções não abonam nada, e não pretendo defendê-las. Mas é significativo que, na ausência de qualquer posição articulada de Seinfeld sobre a condução da guerra, sejam precisamente estes segundos de irritação e provocação que acabam elevados à condição de prova no “the case against Jerry Seinfeld”.

Parece-me claro, no presente, que a um judeu não são permitidas certas liberdades. Nem a impaciência ocasional, nem a perda pontual da compostura, nem a solidariedade para com amigos em Israel ou em qualquer outra parte do mundo sempre que a fronteira entre apoiar aquela intervenção militar em Gaza e a simples condição de se ser judeu é suprimida. Seinfeld devia saber que o mundo está cheio de oportunistas. Estou em crer que o sabe. E que sabe também isto: que a única resposta que lhe compete dar sobe ao palco no dia 1, dura noventa minutos e não é sobre nada disto.

Até lá, Mr. Seinfeld.