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Com IA, o que passa a ser escasso nas empresas?

Os países que mais beneficiarão desta transformação não serão necessariamente aqueles que criaram os modelos mais sofisticados. Serão aqueles que conseguirem reinventar a forma como trabalham.

Pedro da Cunha
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Desde o lançamento do ChatGPT, participei em dezenas de conversas sobre Inteligência Artificial com equipas de gestão e líderes empresariais. Nos primeiros tempos, as perguntas eram quase sempre as mesmas: qual é o melhor modelo? Que ferramenta devemos comprar? Como garantimos a segurança? Qual será o retorno do investimento?

Hoje, as conversas são diferentes. Continuam a falar de tecnologia, naturalmente, mas as preocupações deslocaram-se para outro território. Fala-se sobre como reorganizar equipas, desenvolver talento, preservar a qualidade do trabalho, distribuir responsabilidades e adaptar processos de decisão.

A mudança pode parecer subtil, mas é significativa.

A maioria das organizações começou por encarar a Inteligência Artificial como mais um projeto tecnológico. Era um reflexo natural da forma como as empresas se habituaram a lidar com a inovação: identificar uma solução, adquirir uma ferramenta, gerir uma implementação e medir resultados. Mas aquilo que estou a observar sugere algo mais profundo.

A Inteligência Artificial está a alterar um dos pressupostos fundamentais sobre os quais muitas empresas foram construídas: a escassez de capacidade para processar informação.

Pensemos em algumas profissões que conhecemos bem. Um consultor analisa documentos, um jurista pesquisa legislação e jurisprudência, um analista consolida dados e um gestor reúne informação antes de tomar uma decisão. Esse trabalho continua a existir e continuará a ser indispensável. A diferença é que estes profissionais passaram a trabalhar ao lado de sistemas capazes de executar uma parte significativa dessas tarefas em segundos.

É verdade que estes sistemas continuam a exigir supervisão. Cometem erros, necessitam de contexto e estão longe de substituir o julgamento humano. Ainda assim, já contribuem para o trabalho de uma forma muito concreta e cada vez mais relevante.

E isso tem consequências.

Quando um recurso deixa de ser escasso, a atenção desloca-se inevitavelmente para outros recursos que permanecem limitados. Nas organizações, começam a destacar-se capacidades que continuam difíceis de replicar: o julgamento, a criatividade, a experiência acumulada, a confiança, a capacidade de decisão e, sobretudo, a responsabilidade.

Por isso, acredito que a Inteligência Artificial não pode ser encarada apenas como mais uma ferramenta de produtividade. Uma folha de cálculo aumenta a capacidade de um profissional. Um sistema de Inteligência Artificial participa ativamente no próprio processo de trabalho. Resume informação, produz análises preliminares, identifica padrões e sugere soluções.

Esta diferença não é apenas tecnológica. É organizacional.

Porque, à medida que os sistemas passam a desempenhar uma parte crescente do trabalho cognitivo, as empresas são obrigadas a responder a questões que até agora raramente precisavam de colocar. Quem valida uma conclusão? Quem responde por uma recomendação? Que decisões devem permanecer exclusivamente humanas? E como se desenvolve um profissional quando uma parte do trabalho através do qual aprendia a profissão passa a ser executada por sistemas inteligentes?

Nenhuma destas decisões é simples. Todas têm implicações na forma como definimos funções, construímos carreiras, organizamos equipas, desenhamos processos de decisão e até concebemos modelos de negócio. São, acima de tudo, questões de gestão e de liderança. Questões que exigem escolhas deliberadas e, por vezes, desconfortáveis.

É por isso que acredito que os próximos anos serão menos sobre tecnologia e mais sobre organização.

Durante décadas aprendemos a organizar trabalho humano. Agora estamos a aprender a organizar trabalho humano e Inteligência Artificial em conjunto. E essa poderá revelar-se uma das transformações mais profundas da história recente da gestão.

Portugal tem também uma oportunidade relevante neste contexto. Não precisamos de desenvolver os modelos mais avançados do mundo para beneficiar desta mudança. Precisamos, sim, de compreender rapidamente onde estas capacidades criam valor e de as integrar de forma eficaz nas empresas, na administração pública e nas organizações que fazem funcionar a economia.

Os países que mais beneficiarão desta transformação não serão necessariamente aqueles que criaram os modelos mais sofisticados. Serão aqueles que conseguirem reinventar a forma como trabalham.

E essa corrida ainda está no início.