No passado fim de semana, teve lugar , no Estado federado germânico de Sachsen Anhalt, um ato eleitoral que suscitou, nos dias e semanas que o precederam, um particular frenesim nos meios de comunicação nacionais alemães, com as sondagens publicadas a apontarem para uma vitória folgada da Alternative für Deutschland. Sabe-se agora que foi precisamente isso que acabou por suceder, restando conhecer-se o novo governo regional, ou seja, confirmar-se ou desmentir-se a criação de uma maioria governamental que cortasse cerce a eventualidade da constituição de uma “brand mauer” – cordão sanitário anti-AfD .
Sendo embora verdade que os atos legislativo-parlamentares nacionais são – com a notória exceção das presidenciais em França, onde ao Presidente se outorga um número de funções e poderes sem igual no universo das democracias representativas europeias – aqueles que mais significado e peso político detêm, tal constatação não invalida contudo a relevância que se atribui a determinadas votações locais ou regionais, em razão de uma eventual mensagem que a opção partidária escolhida pela maioria dos eleitores possa transmitir no contexto de um futuro ato eleitoral nacional: estas eleições na Saxónia-Anhalt preenchem com efeito todos os requisitos, justificando-se assim o genuíno interesse sobre o efeito desta ( esperada) situação que, seja qual for o resultado em termos de governação , virá naturalmente a ser aproveitado por Alice Weidel e por Tino Chrupalla – também aqui um duo homem-mulher a darem a cara – como precioso trunfo na sua caminhada com vista a atingir o seu mais importante fim, a saber, a assunção da governação ao nível federal em 2029.
Porque a Alemanha é o mais rico e mais populoso país da Europa, este sucesso da AfD não representa somente mais um marco positivo na senda de uma afirmação no interior da realidade política da Alemanha, mas projeta-se obviamente também no contexto do seu peso e influência no plano das famílias europeias que representam, no Parlamento Europeu, ideologias com o mesmo grande propósito, a saber, a imposição de uma ideologia conotada com a apelidada”extrema direita”. Isto dito, todos conhecemos as dissensões que hoje se fazem sentir entre as várias expressões nacionais, pelo que, para já, será trabalhosa e porventura utópica uma eventual união de todas essas manifestações: tudo dependerá, a médio-prazo, do que sucederá a Marine Le Pen e a Georgia Meloni, e em especial, à própria AfD: será Alice Waidel a futura Kanzlerin?
Seria provavelmente inviável, no caso de figura de virem a coexistir uma Chanceler alemã, uma Presidente da República francesa, e uma Primeira-Ministra italiana, a concretização de uma qualquer liderança isolada no seio desta família ideológica.
Aliás, parece igualmente legítima a dúvida sobre a manutenção de um mesmo discurso contra as elites e o establishment em geral, se e quando todas essas poderosas figuras femininas (o caso de Marine é diferente, porque pode ver-se obrigada, por razões de ordem judicial, a desistir da corrida ao Eliseu, e ser substituída por Bardella) ocuparem tais relevantes funções. Com efeito,o que se passa atualmente com a prudente postura de Meloni leva-me a admitir que se mantem válida a presunção de que, quando os novos governantes entram, cada um deles, no seu respetivo “Oval Office”, a perspetiva que adotam é logicamente o resultado de uma indispensável e responsável ponderação sobre a complexidade da realidade objetiva que passam a defrontar.
Venha ou não a verificar-se uma tal possibilidade e coincidência, o que se impõe desde já é a constatação de que o qualificativo de “franjas” para designar essas movimentações marginais ao tecido partidário clássico, se revela manifestamente inadequado para traduzir o presente status quo que vigora um pouco em toda a Europa.
Curiosamente, apenas num dos grandes países da UE, a França, se opõem movimentos populares de consistente e equivalente expressão popular situados nas duas contrárias pontas: o Rassemblement National de Le Pen e Bardella, e o France Insoumise de Jean-Luc Mélanchon. Não se topa nada de parecido nos outros espaços nacionais, onde o extremismo está confinado, nos dias que correm, e por falta de comparecência de uma qualquer competente “extrema esquerda”, apenas num dos lados do xadrez.
É isso o que acontece na Alemanha, com a AfD de Alice Weidel e Tino Chrupalla – também aqui pegou a moda de se mostrar publicamente a imagem de uma repartição de poder por um homem e uma mulher – que, não obstante as cambalhotas doutrinais desde os seus tempos inaugurais em que se insurgia exclusivamente contra a Europa institucional, para mais tarde se vir a consagrar com o mesmo fervor a favor de uma política anti-migratória e remigratória, anti-liberal e russófila , além de “Trumpista” – , soube canalizar a insatisfação dos concidadãos, em particular nos lander da ex-RDA- que economicamente ficaram para trás , não obstante os chorudos investimentos que lhe foram destinados com vista a um progressivo nivelamento dos recursos económico-financeiros em relação aos restantes lander alemães. Recordo que persiste ainda um fundo financeiro – o Landerfinanzausgleich ( Compensação financeira dos Estados) – com esse objetivo, para o qual participam em especial os estados-lander mais ricos da Alemanha.
A formação Linke, reunindo todos os “esquerdistas”, sofreu recentemente as negativas consequências da saída e divórcio hostil, em 2023, de uma das suas mais luminosas figuras, Sara Wagenknetch, que veio a criar em Janeiro de 2024 um partido concorrente, chamado de início BSW ( Bundnis Sarah Wagenknecht ), mas que entretanto foi rebatizado Bundnis Soziale Gerechtigkeit und Wirtschaftliche Vernunft ( em tradução livre, “aliança para a justiça social e razoabilidade económica”): a sua doutrina parece distanciar-se visivelmente daquela professada pela Linke, nomeadamente na convicção já expressa de que considera uma disparate contraprodutiva a política da brand mauer, preferindo-lhe o proveitoso diálogo mútuo – em vez do auseinander (conflito), o miteinander (diálogo).
Em consequência desse afundamento do edifício da extrema esquerda, a AfD, nascida em 2013, veio a assegurar a quase-exclusividade da representatividade do “extremismo” partidário na cena política germânica. No entanto, e porque cada Land tem as suas próprias peculiaridades, convém não se ser categórico nesta perceção, e aguardar pelos próximos atos eleitorais em outros dos 16 estados federados .