A Ferrari chegou ao Grande Prémio de Itália, em Monza, com um pacote de upgrades pensado especificamente para o Templo da Velocidade: novo motor desenvolvido ao abrigo do programa ADUO – um regulamento que permite às equipas menos competitivas desenvolver os seus motores fora dos ciclos normais de congelamento –, chão revisto, espelhos mais estreitos e remoção de elementos aerodinâmicos para reduzir a resistência nas longas retas do circuito italiano. Confiança, melhorias e a pressão de 53 voltas no quintal de casa para tentar recuperar terreno na luta pelo título. A corrida terminou com Leclerc a olhar para os estragos do seu carro encostado nas barreiras, Hamilton a criticar a equipa pela escolha de pneus e os tifosi, vestidos de vermelho até à última fila das bancadas, com o coração partido.
Os problemas começaram antes sequer da corrida. Na qualificação, a equipa voltou a tropeçar na estratégia do tow – o reboque aerodinâmico que em Monza faz a diferença entre a pole e o quinto lugar. Em Monza, com as longas retas, circular a curta distância do carro da frente permite beneficiar de menor resistência do ar, o que se traduz numa vantagem de décimos de segundo por volta. Hamilton passou para a Q3 por apenas 0,001 segundos sobre Gabriel Bortoleto, e depois foi enviado para a pista demasiado tarde para aproveitar esse benefício. “Supostamente íamos fazer push, cool, cool, push [volta rápida, duas voltas lentas, para que os pneus recuperassem a temperatura, antes de uma volta final rápida]. Porque o Charles não queria sair primeiro, tivemos de esperar, esperar, e só consegui uma volta de ataque”, disse Hamilton, visivelmente frustrado. Pierre Gasly, da Alpine, aproveitou o caos para fazer a pole da sua carreira.
A corrida correu ainda pior. Hamilton largou da quarta posição, atrás de Leclerc, o seu companheiro de equipa, e logo na primeira sequência de curvas foi lado a lado com o monegasco – acabando na gravilha na saída e caindo para os limites do top 10. Pelo rádio, foi imediato: “O Charles empurrou-me para fora”. Depois da corrida, quando lhe perguntaram o impacto do incidente na sua prestação, Hamilton foi lacónico: “Acabei em décimo ou por aí. Não há muito a dizer. Vamos resolver isto entre quatro paredes”.
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Os comissários analisaram o incidente mas não tomaram qualquer medida. Depois da corrida, Leclerc admitiu que a disputa “foi longe demais” – usando o “nós” para partilhar a responsabilidade. Hamilton não aceitou. “Eu estava à frente na segunda curva, no apex. Eu estava à frente. Não há ‘nós’ nisto“, disse, acrescentando: “Não corro sujo. Sempre deixei espaço. Não acho que devam estar preocupados comigo”.
Pouco depois, Leclerc perdia o controlo na saída da Parabolica – a última curva do circuito – e embatia nas barreiras. O monegasco saiu do carro e sentou-se junto à pista, cabisbaixo. A colisão entre companheiros de equipa na corrida de casa da Ferrari e a saída de Leclerc logo na segunda volta foram dois momentos que definiram o tom do resto do domingo. Mais tarde, revelou que a visão do olho direito o preocupou nos instantes imediatos após o impacto, mas os exames não detetaram lesões e garante que estará “na força total para Madrid”.
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O que se seguiu foi uma corrida de recuperação para Hamilton – que chegou a subir ao terceiro lugar – influenciada pela estratégia de pneus. A meio da corrida, o safety car virtual foi acionado na sequência da desistência de Lance Stroll – um procedimento em que os carros são obrigados a circular abaixo de um determinado limite de velocidade sem que a corrida seja interrompida, o que permite às equipas chamarem os seus pilotos às boxes para trocar de pneus com menor perda de tempo. Vários adversários aproveitaram para mudar para pneus duros, como Kimi Antonelli ou Max Verstappen. A Ferrari optou por não chamar Hamilton, que continuou em pista com os pneus médios – mais rápidos, mas mais desgastáveis.
Com os pneus a desgastarem-se nas últimas voltas e os adversários com pneus mais frescos a passá-lo com facilidade, Hamilton cometeu ainda um erro de travagem na primeira curva na volta 35 – saiu pela via de escape e viu Antonelli e Piastri ganharem-lhe a posição. Pediu desculpa à equipa pelo rádio, apontando de imediato ao estado dos pneus. Terminou em sexto no final da corrida, a mais de 20 segundos de Kimi Antonelli. “Acho que escolhemos o pneu errado”, disse depois da corrida.
Foi também aí que o piloto britânico exigiu mudanças na equipa. “Temos de mudar a forma como comunicamos e como gerimos a luta interna entre pilotos”, disse ao site oficial da F1, numa declaração que soava mais a ultimato do que a pedido. Não era a primeira vez que isso acontecia: no Grande Prémio dos Países Baixos, duas semanas antes, Hamilton tinha explodido pelo rádio e depois pediu desculpa à equipa. “Boa forma de perder tempo, rapazes. Bom trabalho”, disse sarcasticamente durante a corrida. “Não foi a minha melhor versão”, assumiu depois de terminar na quarta posição. Em Monza, o tom foi diferente. Mais calmo, mais cirúrgico, mais sarcástico – e mais preocupante para a Ferrari.
“Conversei com o Lewis por dois segundos mas não falei nada com o Charles. Teremos tempo para discutir isso. Prefiro conversar primeiro com eles e não convosco. Mas claro que o resultado dessa disputa não é bom para a equipa. Para ver se precisamos de ordens de equipa ou algo do tipo, comparo com o ano passado: Piastri estava a liderar a McLaren neste mesmo momento da temporada, mas se a McLaren tivesse apostado tudo em Piastri, Max Verstappen teria sido campeão. Em algum momento é preciso tomar uma decisão, mas era muito cedo antes de Monza. Agora terei tempo para conversar com os rapazes”, comentou Fred Vasseur, diretor da equipa transalpina, abrindo a possibilidade de haver mudanças.
A situação no Mundial é igualmente difícil. Hamilton terminou Monza a 76 pontos de Antonelli, uma desvantagem que começa a parecer intransponível e que entretanto tem também George Russell à frente do inglês. Leclerc está 36 pontos atrás de Hamilton, o que torna a equipa incapaz de se comprometer inteiramente com um dos dois. É precisamente esse o ponto que Hamilton quer ver resolvido e a que a Ferrari ainda não respondeu.
A corrida foi vencida por Kimi Antonelli — o primeiro italiano a vencer em Monza desde 1966 —, que fez uma das melhores prestações da sua temporada de estreia: largou do 19.º lugar depois de uma penalização por uso de componentes de motor fora do limite permitido, ultrapassou praticamente o pelotão inteiro, liderou uma batalha prolongada com o companheiro de equipa George Russell e cruzou a linha de chegada em primeiro após uma remontada sensacional carimbada a três voltas do fim. Russell foi segundo, Max Verstappen terceiro. Lando Norris e Oscar Piastri completaram o top 5 numa batalha interna que a McLaren viu com alguma preocupação, apenas decidida na derradeira volta. Já Pierre Gasly, que tinha feito a pole, terminou em sétimo. Para a Ferrari e para Hamilton, o Templo da Velocidade foi, este domingo, um lugar de penitência.