(c) 2023 am|dev

(A) :: BCE sobe juros e não deve ficar por aqui. Taxas Euribor podem aproximar-se de 3,5% nos próximos meses

BCE sobe juros e não deve ficar por aqui. Taxas Euribor podem aproximar-se de 3,5% nos próximos meses

É quase certo que Christine Lagarde irá anunciar subida dos juros para 2,5%. Deve, porém, dar poucas pistas sobre o que pode acontecer depois. Mercados apostam que aumentos não ficam por aqui.

Edgar Caetano
text

Uma subida antes do verão e outra, agora, no final. Depois de ter aumentado a taxa de juro em junho, é quase certo que o BCE irá, nesta quinta-feira, anunciar um novo aperto da política monetária, elevando a taxa para 2,5% para tentar conter uma inflação que já superou os 3% em agosto. Mas se o aumento desta quinta-feira é quase certo, há uma enorme incerteza sobre se as subidas de juros ficam por aqui ou se vão continuar. Os mercados financeiros, para já, estão a apostar neste segundo cenário e a antecipar que as taxas Euribor podem aproximar-se de 3,5% até à primavera.

Nas últimas semanas, até os membros do conselho do Banco Central Europeu (BCE) mais conotados com o campo das “pombas”, aqueles que tendem a preferir taxas de juro mais baixas, têm sinalizado que, esta quinta-feira, todos os argumentos apontam no mesmo sentido: “o problema da inflação não está a resolver-se a si próprio“, afirmou Primož Dolenc, governador esloveno.

E como o problema não se está a resolver por si mesmo, num contexto de custos de energia mais elevados associados à guerra no Médio Oriente, é preciso intervir, apertando a política monetária e indicando aos mercados e aos agentes económicos que, desta vez, ao contrário de 2022, o BCE não irá permitir que se forme uma “bola de neve” no ritmo de subida dos preços.

Já anteriormente, nos últimos dias de agosto, um dos membros mais influentes do BCE, a alemã Isabel Schnabel, veio sinalizar o provável aumento da taxa com termos habitualmente usados para levar os mercados financeiros a prepararem-se para esse anúncio, evitando que este surja como uma surpresa. Antecipando essa decisão, as taxas Euribor já subiram para máximos de dois anos – potencialmente levando, já em setembro, a subidas das prestações que podem rondar os 70 euros num crédito típico.

https://observador.pt/especiais/bce-sinaliza-que-juros-vao-mesmo-subir-prestacoes-podem-aumentar-ate-70-euros-num-credito-tipico-ja-em-setembro/

“A expectativa do mercado é de uma subida e os membros do BCE nada fizeram para contrapor essa ideia”, antecipa Filipe Garcia, economista da consultora IMF – Informação de Mercados Financeiros, ao Observador. Ao contrário do que é habitual, a reunião do Conselho do BCE, desta vez, acontece em Berlim, não em Frankfurt, e Álvaro Santos Pereira é um dos governadores que vão ter direito de voto, de acordo com a rotação habitual prevista no conselho do BCE.

A reunião inclui, também, a divulgação de novas projeções macroeconómicas, atualizadas trimestralmente, para os próximos anos – projeções sobre o crescimento e sobre a inflação. Tal como tem acontecido no passado recente, é provável que os economistas do BCE preparem um cenário central e pelo menos um cenário mais adverso (e, talvez, um menos adverso do que o cenário central, como já aconteceu). O retrato feito pelos economistas poderá ajudar a perceber qual é a probabilidade de o BCE se ficar por aqui nas subidas dos juros ou, então, de haver nos próximos meses novas subidas que elevem a taxa de juro para 2,75% ou, até, 3%.

“Clara disponibilidade para novos aumentos”

As cotações atuais nos mercados de futuros de taxas de juro apontam para que, depois desta subida para 2,5%, o BCE volte a tomar uma “pausa” em outubro (como fez em julho), mas acredita-se que um novo aumento dos juros poderá surgir em dezembro – que é a reunião seguinte, depois do conselho desta quinta-feira, em que existe uma atualização (trimestral) das projeções económicas.

Numa nota de antecipação da conferência de imprensa desta quinta-feira, Michael Krautzberger, diretor de investimentos da Allianz Global Investors, afirma que a “Presidente Lagarde vai sublinhar que [a política do] BCE continua dependente dos dados e que as decisões são tomadas reunião a reunião, sem se comprometer com uma trajetória específica para as taxas de juro”. No entanto, diz o especialista, “a combinação de previsões de inflação em alta” e uma atitude “vigilante” levam a gestora de fundos a acreditar que “é provável outro aumento de 25 pontos base em dezembro”.

Para haver essa nova subida dos juros em dezembro, isso significaria que nessa altura ainda não haveria evidências de que a inflação estava novamente a aproximar-se do objetivo e que, tal como agora, estaria a seguir a trajetória que o BCE não deseja: afastar-se cada vez mais do objetivo de 2%. Aí, a taxa de juro de referência (a taxa dos depósitos) terminaria o ano em 2,75% – porém, os mercados de futuros de taxas de juro estão a apontar para mais uma subida que poderá chegar entre abril e junho de 2027, elevando a taxa de juro para 3%.

À luz destas previsões, as taxas Euribor – valores que dizem respeito aos juros a que os bancos emprestam uns aos outros e que tendem a antecipar futuros movimentos da taxa diretora do BCE – podem chegar a 3,4% nos próximos meses. É esse o valor que, de acordo com os dados atuais, o indexante poderá alcançar nos primeiros meses de 2027, embora exista muita incerteza sobre se não poderá, mesmo, superar esse valor.

“É difícil dizer, para já, até pode não subir tanto mas depende do tempo que esta crise [a guerra no Médio Oriente, além da Ucrânia] durar, depende do que vai acontecer nos mercados de gás natural, se o El Niño vai ter consequências mais graves e se os salários vão subir muito rapidamente”, afirma Filipe Garcia, acrescentando que as eleições intercalares nos EUA são outro fator que traz incerteza para os mercados financeiros.

Que Trump teremos na segunda parte do mandato?“, após o resultado das eleições intercalares (para o Congresso dos EUA), questiona Filipe Garcia.

Neste momento, as taxas Euribor já superaram os 3% no prazo a 12 meses (3,116%) mas continuam abaixo desse patamar nos prazos mais reduzidos como seis (2,797%) e três (2,669%) meses. Os mercados de futuros estão a apontar para Euribor a 12 meses perto de 3,4%, o que tenderia a significar que a taxa poderia subir para a região dos 3% também nesses dois prazos mais curtos.

Os analistas do banco holandês ING também salientam, numa nota de análise, que “os mercados começaram a antecipar pelo menos mais uma subida das taxas de juro antes do final do ano”, porém, “as opiniões no BCE parecem divergir cada vez mais” sobre o que fazer depois desta subida para 2,5%. Embora seja difícil definir, uma taxa maior do que este valor já poderia ser considerada “restritiva” da atividade económica, enquanto um valor entre 2% e 2,5% ainda pode ser considerado “neutral”, ou seja, um nível de juros que nem estimula nem restringe a economia.

“Embora um artigo publicado este ano no blogue do BCE tenha corroborado a nossa visão de que a atual onda inflacionista é impulsionada principalmente pelos preços da energia e que estes fatores são importantes na identificação (e reação) a um choque inflacionista, os comentários de Isabel Schnabel e do presidente do banco central irlandês, Gabriel Makhlouf, indicam uma clara disponibilidade para novos aumentos”, acrescentam os economistas do ING.

Até ao momento, os dados económicos na zona euro têm apontado para um desempenho surpreendentemente positivo. A economia da zona euro cresceu 1,2% em termos homólogos no segundo trimestre, depois de um crescimento de 0,3% no primeiro trimestre (também em termos homólogos), com um bom desempenho das exportações. O crescimento de 1,2% no segundo trimestre foi uma revisão em alta em relação aos 1,0% anteriormente estimados pelo mesmo Eurostat, o que alimentou ainda mais a confiança na resiliência da economia europeia.

Mas, como aponta o ING, “existe uma grande diferença entre uma economia que demonstrou resiliência e uma economia sobreaquecida que necessita de uma política monetária restritiva”. Os economistas dizem “continuar a achar difícil imaginar – no meio dos problemas das finanças públicas e da subida vertiginosa das taxas de juro das obrigações globaisque o BCE esteja realmente disposto a atirar mais achas para a fogueira”.

https://observador.pt/especiais/mercados-de-divida-publica-mundiais-em-alvoroco-e-portugal-nao-esta-imune/

Por outras palavras, “é difícil conceber que o BCE esteja disposto a arriscar provocar uma recessão para fazer face ao que é ainda um choque de oferta clássico”, isto é, um aumento da inflação que, neste caso, está apenas associado a um aumento dos preços da energia e, pelo menos até agora, não está a ser acompanhado de aumentos salariais demasiado rápidos ou crescimentos velozes das margens das empresas. Foram esses dois fatores, os chamados “efeitos de segunda ronda”, que provocaram o surto inflacionista de 2022, mas para já essa “tempestade perfeita” não parece estar a formar-se novamente.

E é por isso que, tal como o ING, também o Commerzbank manifesta muitas dúvidas de que o BCE irá, realmente, avançar com tantas subidas de taxa de juro quantas os mercados antecipam.

“Mais subidas da taxa de juro, que é aquilo que os mercados financeiros estão a prever, são possíveis mas não são prováveis“, acredita Jörg Krämer, economista do banco alemão Commerzbank. A tese deste economista é que a taxa de inflação deverá continuar a ter uma trajetória minimamente alinhada com as projeções do BCE, sem ser necessário dar mais do que uma resposta moderada – isto é, não será necessário o “tratamento de choque” que houve em 2022, quando chegou a haver aumentos consecutivos de 75 pontos base.