Durante grande parte da nossa vida, a ideia de uma carreira bem-sucedida parecia simples. Estudar, conseguir emprego, acumular experiência para progredir na carreira e no salário e finalmente, a tão desejada reforma.
Mas, o mundo mudou, e com ele o mercado de trabalho.
O World Economic Fund publicou que são esperados 78 milhões de novos empregos até 2030 mas, aliado à urgência na adaptação das capacidades dos trabalhadores.
Se seguirmos as expectativas que herdámos, vamos provavelmente desiludir-nos. Nos últimos 40 anos assistimos a mudanças profundas:
1. Estabilidade passou a significar mudança
Nos anos 80 a 90, o ideal era construir uma carreira numa única empresa ou setor. Hoje, o valor está menos na permanência e mais na capacidade de reinvenção. Se antes segurança se traduzia em “Tenho um emprego para a vida”, hoje segurança é saber que “Tenho competências que me tornam altamente empregável.”
2. A arena tornou-se global
A Tecnologia eliminou muitas das barreiras geográficas. Hoje um profissional pode trabalhar para uma empresa em Londres, São Francisco ou Singapura enquanto ouve as galinhas na sua casa na aldeia. Se antes competia com profissionais da sua cidade ou país, hoje compete com o globo inteiro.
3. Criar valor ultrapassou a execução
Grande parte do trabalho repetitivo foi automatizado e será ainda mais com a Inteligência Artificial a ganhar terreno. Conhecimento técnico e execução já não são suficientes. O diferencial humano passou a estar cada vez mais na criatividade: compreender a bigger picture, resolver problemas, alinhar a comunicação. Se antes era valorizado o “É assim que se faz”, hoje o valor está em “se combinarmos X com Y e adicionarmos M, conseguimos uma solução inovadora”. A empresa que não cria valor aos seus clientes, vai à falência. O profissional que não cria valor na sua empresa, vai ser dispensado.
Mas, são afinal estas mudanças boas ou más?
Depende da perspectiva do leitor desse lado. Pode ver a mudança como algo cansativo e exigente, ou como algo entusiasmante e curioso. Pode ver o mercado global como mais competição, ou como uma oportunidade de trabalhar a partir do Alentejo a ganhar um salário de Nova Iorque. Pode ainda ver a Inteligência Artificial como uma ameaça ao seu posto de trabalho ou como uma alavanca para criar mais valor para a sua equipa, empresa e mercado.
Audaces fortuna juvat – a sorte protege os audazes. Sucesso no mercado de trabalho é construído por quem não se acomoda, assume os riscos e enfrenta o desconhecido.
Passámos de um mercado de trabalho que recompensava a previsibilidade para um mercado que recompensa a adaptabilidade.
E isso traz-nos à pergunta: com tantas opções porque nos sentimos tão perdidos a nível profissional?
As gerações anteriores associavam sucesso a título – “O Sr. Dr…”. As gerações atuais vêm contrariar isso. Procuram flexibilidade, tempo e propósito. Querem carreiras que consigam coexistir com a vida, em vez de a consumir.
Talvez o verdadeiro desafio da nossa geração não seja construir uma carreira que deixe os pais orgulhosos, mas sim aprender a construir uma carreira alinhada com quem somos, em cada fase da vida.
Aos 20 temos sangue na guelra e queremos conquistar um lugar na mesa dos grandes. Aos 30 construímos família e as prioridades mudam. Aos 40 queremos paz e tempo para desfrutar do que nos faz verdadeiramente felizes. Aos 50 já estamos prontos para a reforma, se tivermos construído o nosso FIRE.
A sociedade ainda celebra histórias lineares porque são fáceis de compreender. Adoramos o conforto da previsibilidade. Mas as carreiras de sucesso hoje são cada vez mais sobre desvios, recomeços e adaptações sucessivas.
O reflexo natural de um mundo mais dinâmico e com mais possibilidades do que qualquer geração anterior conheceu.
Por isso, quando sentir que o seu percurso não corresponde ao plano original, vale a pena perguntar a si mesmo: “sou eu quem tem desenhado a minha carreira ou estou apenas a seguir um guião escrito por outra pessoa?”
O maior obstáculo ao sucesso profissional não é o mercado atual. É a expectativa de que tudo deveria acontecer como a sociedade prometeu, há 40 anos atrás.
O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.