Semear, semear, semear mais um pouco, ir começando a colher. Se a Seleção principal feminina iniciou esse processo de desenvolvimento antes com o primeiro resultado a surgir em 2017 com a qualificação para a fase final do Campeonato da Europa, a que se seguiram mais duas presenças na competição e a estreia também em Mundiais (2023), as formações jovens começaram agora a atingir as metas para as quais trabalharam nos últimos anos. Nas Sub-17, que depois da terceira posição no Europeu de 2019 começaram a estar de forma mais frequente nas fases finais. Nas Sub-19, que no ano passado só caíram nas meias-finais do Europeu no prolongamento diante da França. Agora, nas Sub-20, numa geração que foi atravessando todas as decisões, chegava a altura da estreia num Mundial – e com a organização do Euro Sub-19 de 2028 em Portugal.
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Após a conquista da medalha de ouro com a equipa Sub-18 nos Jogos do Mediterrâneo, a Seleção chegava à Polónia apostada em consolidar o crescimento do futebol feminino nacional tendo pela frente uma Coreia do Norte que era uma espécie de case study na formação… sem toldar a ambição de Portugal. “É uma equipa muito agressiva, confiante. Percebemos que o padrão de jogo delas é muito físico, são muito competentes naquilo que fazem, que é atacar a bola na profundidade. Vamos ter que ter capacidade de ter bola sob pressão e conseguir impor o nosso jogo. Elas vão querer ter sempre a bola, dominar, mas vamos tentar retirar-lhes esse conforto para podermos fazer um bom jogo”, destacara a selecionadora Marisa Gomes.
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“Os problemas que surgem de um jogo para o outro são muito diferentes mas acreditamos que o vivenciar problemas diferentes também não causa tanta fadiga. Quando fizemos a convocatória já estávamos a contar com esta diversidade de padrão que vamos ter, há jogadoras que estão aqui um pouco mais específicas para um jogo em determinado tempo e vamos tentar explorar ao máximo as características de cada uma”, acrescentara a responsável nacional na antecâmara de uma estreia logo contra a campeã em título.
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No final de 2024, o mundo acordou para uma realidade que era tudo menos conjuntural mas que tinha vários aspetos estruturais para perceber – a Coreia do Norte sagrou-se campeã mundial feminina de Sub-17 e de Sub-20. Mas como? Tudo começou ainda no final dos anos 80/início da década de 90, quando os responsáveis daquele país perceberam que o futebol feminino não era algo muito desenvolvido no resto do mundo. Essa tornou-se uma aposta forte do país asiático dentro de um isolamento que se mantém até hoje, fosse pela captação de outras desportistas para o futebol, fosse pela deteção de talentos em idades mais novas. Nem tudo foram rosas, com testes positivos a um esteroide proibido que “apanharam” cinco jogadoras em 2011 a serem um escândalo que abalou o futebol mas nem por isso impediu o crescimento contínuo.
https://observador.pt/2024/09/24/a-decisao-em-1985-a-ideologia-juche-e-ginastas-tornadas-jogadoras-como-a-coreia-do-norte-apostou-no-futebol-feminino/
“Devemos desenvolver o futebol feminino. Recentemente, as habilidades das mulheres da nossa seleção melhoraram de alguma forma. Podem ser capazes de ganhar torneios internacionais num futuro próximo se continuarem a trabalhar arduamente”, comentara Kim Jong il, pai de Kim Jong Un e então líder supremo da Coreia do Norte, no final da década de 80. Foi com Kim Jong il que nasceu a Taesong District Juvenile Sports School, foi com Kim Jong Un que surgiu a Pyongyang International Football School. “Todos os jogadores, de várias seleções, ficam no Centro Nacional de Treinos 24 horas por dia, sete dias por semana e não jogam por clubes depois de serem selecionados. Treinam seis dias por semana e não há pagamento. Ficam em alojamentos no Centro Nacional, recebem alimentação e orgulham-se só de representar o país”, contou Thomas Gerstner, alemão que foi o primeiro técnico estrangeiro no futebol do país, à ABC Austrália.
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“Como atletas, recebemos mensagens de que estamos a travar uma guerra de velocidade, habilidade e muita determinação. Cada remate é como uma bala do inimigo”, contou um dia Jeong Haneul, ex-jogador da Coreia do Norte que desertou para a Coreia do Sul em 2012, ao Wall Street Journal. “Ganhar as provas internacionais é uma forma de mudar de vida. É como ganhar o bilhete da lotaria”, disse também Jung Woo Lee, professor da Universidade de Edimburgo, à Deutsche Welle, explicando ainda que as vitórias do futebol feminino norte-coreano são depois aproveitadas como propaganda pelo regime. Como tal, a seguir a um triunfo o objetivo fica logo focado na próxima conquista. Agora, seguia-se este Mundial Sub-20 na Polónia tendo a estreante Seleção de Portugal na estreia do grupo E, que conta também com Colômbia e Costa Rica.
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A equipa nacional ainda sofreu um “susto” logo no terceiro minuto, quando Érica Cancelinha desviou para a própria baliza um cruzamento da direita, mas o lance acabou por ser anulado por fora de jogo de uma norte-coreana no início da jogada. Portugal foi também estabilizando, tendo alguns (poucos) períodos de posse e explorações da profundidade com Carolina Santiago e Maísa Correia, e só cedeu no plano defensivo numa grande penalidade, com Francisca Castro a cortar uma bola com o braço na área para um castigo máximo transformado da melhor forma por Kang Ryu Mi, um dos grandes destaques das campeãs mundiais (25′). Portugal chegava ao intervalo sem remates, oportunidades ou chegadas com bola controlada ao último terço mas também mostrava enorme maturidade para travar a Coreia do Norte em termos defensivos apesar da desvantagem quando o jogo assumia características mais físicas por “vontade” do conjunto asiático.
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Marisa Gomes trocou de referência ao intervalo no ataque, com a saída de Maísa Correia para a entrada de Diana Costa, mas os minutos iniciais da segunda parte trouxeram aquilo que foi um “fim antecipado” do jogo, com um desentendimento entre a guarda-redes Nair Pina e Érica Cancelinha na pequena área a deixar a bola solta para o bis de Kang Ryu Mi (50′). Portugal não quebrou após o 2-0, tendo os dois primeiros tiros enquadrados com a baliza e com perigo por Neide Guedes e Carolina Santiago defendidos por Pak Ju Gyong (52′ e 53′), mas o sentido do resultado já não seria alterado apesar da grande réplica que a equipa nacional conseguiu dar à Coreia do Norte, que tinha marcado 17 golos na primeira fase do último Mundial que ganhou em 2024 mas que agora conseguiu apenas chegar ao golo de penálti e na sequência de um erro de Portugal.
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