Milhares de pessoas juntaram-se esta segunda-feira na Igreja de São Lucas, em Belgrado, na Sérvia, para prestar uma última homenagem ao criminoso de guerra Ratko Mladić, apelidado de “Carniceiro da Bósnia”, por ter comandado o cerco de Sarajevo, entre 1992 e 1995, e as tropas que perpetraram o massacre de Srebrenica, em 1995.
O funeral foi celebrado pelo Patriarca da Igreja Ortodoxa Sérvia, Porfírio, cocelebrado pelo arcebispo de Belgrado e contou com a presença de vários membros do Governo sérvio, incluindo o ministro da Defesa Bratislav Gašić, Danilo Vučić (filho do Presidente do país, Aleksandar Vučić) e o embaixador russo na Sérvia, além de líderes de partidos pró-sérvios do Montenegro, refere o jornal Blic. Devido à grande concentração de pessoas, foram instalados ecrãs LED no exterior da Igreja para a população acompanhar o funeral e foi reforçada a segurança nalgumas artérias da capital.
Milhares de pessoas acompanharam o cortejo fúnebre até ao cemitério de Topčider, onde Mladić foi sepultado junto da filha Ana, refere a televisão pública sérvia RTS, que transmitiu as cerimónias fúnebres em direto.
De acordo com o jornal sérvio Dnevnik, veteranos de guerra, assim como várias pessoas da República Srpska — zona de administração de maioria étnica sérvia pertencente à Bósnia-Herzegovina — e do Montenegro também estiveram presentes no funeral e, segundo a Reuters, “foram oferecidos serviços de autocarro gratuitos da Bósnia e da maioria das cidades da Sérvia para quem quisesse prestar as suas homenagens“.
https://observador.pt/2026/08/27/morreu-ratko-mladic-o-carniceiro-de-bosnia-condenado-a-prisao-perpetua-em-2022/
Morte de Mladić reacende divisões na ex-Jugoslávia
As cerimónias fúnebres, assim como as homenagens, têm sido polémicas para os bósnios muçulmanos da Bósnia-Herzegovina (bosníacos) e têm exposto as divisões que ainda persistem na ex-Jugoslávia, mais de trinta anos após as guerras que sucederam à dissolução do país.
“[Mladić] deveria ser lembrado apenas como um carniceiro“, sublinha à Reuters Zdravka Gvozdjar, uma farmacêutica bósnia cujo filho foi morto com apenas nove anos, durante o cerco de Sarajevo. Afirma que o tributo prestado ao criminoso de guerra é “horrível” e acredita que nem todos os sérvios são a favor das homenagens.
A organização Mães de Srebrenica condenou as homenagens, afirmando que o funeral “ameaça ser o maior encontro fascista na Europa nos últimos 70 anos” e pediu a Marta Kos, comissária europeia do Alargamento, para tomar medidas em relação ao sucedido. Na semana passada, Kos adiou uma visita à Sérvia devido ao que considerava ser uma “glorificação” de Mladić, algo que foi rejeitado pelo Presidente sérvio, Aleksandar Vučić, refere a CNN.
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Na República Srpska, têm sido realizadas vigílias à luz das velas e enviadas mensagens de condolências pela morte do criminoso de guerra. Além disso, o Ministério Público da Bósnia-Herzegovina recebeu milhares de queixas sobre publicações nas redes sociais e na comunicação social a “glorificar” Mladić, refere o canal bósnio N1. De acordo com Žarko Marković, vice-editor-chefe do jornal bósnio de língua sérvia Glas Srpska, a morte do general acentuou as divisões na sociedade bósnia.
“Isto observa-se em casos que dizem respeito ao passado, como quando Ratko Mladić foi condenado em Haia ou Radovan Karadžić [ex-presidente da República Srpska, também condenado por crimes de guerra]. Mostra a todos que observam de fora que somos uma sociedade profundamente dividida“, afirmou à televisão pública sérvia RTS.
Na Sérvia, a visão geral de Mladić é positiva, algo que se traduziu na realização de um funeral de Estado com honras militares e na presença de milhares de pessoas no funeral, além da transmissão na televisão pública. “Deu tudo na vida pelo povo sérvio […] Fico feliz que nesta manhã as pessoas estejam a vir prestar as suas homenagens”, afirmou Milan Dobric, cidadão kosovar, à Associated Press, citado pela CNN.
No domingo, os adeptos dos dois principais clubes de Belgrado — Estrela Vermelha e o Partizan — entoaram cânticos e envergaram faixas em homenagem a Mladić, mesmo após o primeiro clube ter sido punido pela UEFA devido a incidentes do género, segundo o canal bósnio N1. Além disso, uma delegação do Estrela Vermelha esteve presente no funeral, refere o jornal sérvio Blic.