Se a justiça e o juízo de valor fossem critérios para a hierarquia que sustenta os festivais de cinema, Imperium, o documentário que Sergei Loznitsa trouxe este ano a Veneza, estaria na competição pelo Leão de Ouro. Foi privado dessa janela privilegiada. Passa fora de concurso. A janela que abre sobre a história do século XX e do mais vasto país existente na Terra, contudo, é incomensurável. Três horas suculentas, de riqueza humana infinita, que se devoram com o entusiasmo de quem olha para outro mundo. Pelo material em que toca e pela forma como está montado, este é o documentário de Loznitsa que mais se equipara a Funeral de Estado, outro monumento, sobre as exéquias de Estaline.
É certo e sabido que, nas décadas de 60 e 70 do século passado, a política externa da URSS apoiou as diversas frentes de libertação que, em África e na Ásia, tentaram derrubar o colonialismo do Ocidente. Desfaziam-se os impérios europeus. Mas quem se atreveu então, quem recorda ainda, falar da URSS como o maior império colonialista de todos os tempos? Quem recorda que o colosso vergou dezenas de povos, culturas e etnias? É tudo uma questão de escala, evidentemente. De Lisboa a Moscovo há 4 mil quilómetros de distância. Parece tão longe. Nada comparável, contudo, aos mais de 10 mil que separam Talin (capital da Estónia) de Vladivostok. Até 26 de Dezembro de 1991, eram cidades do mesmo país.
Loznitsa teve conhecimento que, entre 1970 e 1973, um grupo de cineastas italianos, patrocinados pelo PCI (Partido Comunista Italiano), calcorrearam a URSS de ponta a ponta, das costas árcticas aos desertos da Ásia Central, dos Cárpatos ao Pacífico. Uma quinzena de técnicos aventurou-se então na imensidão do território. O documentário que era suposto ser montado a partir do material filmado (em película, evidentemente), enaltecendo nas plateias italianas a vida prática da doutrina comunista, nunca chegou a ver a luz do dia. Sobraram 60 horas de footage, preservadas, como manda a regra, pelo Archivio Audiovisivo del Movimento Operaio e Democratico (ligado ao PCI) e pela Cinemateca Italiana. É daqui que nasce Imperium.


Loznitsa mapeou o trajecto dos realizadores italianos ao longo de 25 cidades, partindo da capital russa. Quanto mais nos afastamos de Moscovo, mais excêntrico e exaltante o filme se torna. E raros vislumbres, não filtrados, da vida quotidiana daqueles povos, são oferecidos agora aos espectadores. Imperium não revela apenas as dinâmicas coloniais ocultas da URSS, das fábricas e dos campos agrícolas às escolas. Os realizadores italianos fixaram também, de uma cidade a outra, uma espécie de resistência silenciosa que reconhecemos nos gestos banais das pessoas (e talvez por isso o documentário previsto tenha ficado na gaveta). Aliás, Imperium é revelador de fracturas e tensões geo-políticas que continuam, seguramente, a existir hoje no espaço pós-soviético russo, e mais ainda desde a guerra na Ucrânia.
Imperium é um tesouro a nível antropológico, etnográfico e cinematográfico, uma moldura nova que enquadra agora aquele mundo, com um ponto de vista inédito de tudo o que dele conhecíamos. Soltos naquela imensidão, os cineastas italianos nunca sentiram uma necessidade institucional de filmar os símbolos soviéticos do poder. Pelo contrário: procuraram a beleza e a simplicidade das pessoas e das coisas, de Zagorsk a Ufa, de Baku a Tashkent, de Talgarki a Mirny. Extraordinários são, na parte final, os momentos dos concursos de beleza e das passagens de modelos em Riga e Talin (quem diria que existiam?), antes de Loznitsa fechar o círculo, voltando a um novo centro de poder, em São Petersburgo, após o arranque em Moscovo. Como é seu hábito, o cineasta dispensa voz off e oráculos. Mas há planos que se deixam datar por si próprios. No arranque, estamos em 1973. O Politburo celebra na Praça Vermelha o 56.º aniversário da Revolução Russa.
Laura Poitras e Rachel Lauren Mueller contra o ICE
They’re Here é notável, uma curta de 24 minutos rodada em Minneapolis pela autora de Citizenfour, a norte-americana Laura Poitras, e a sua conterrânea Rachel Lauren Mueller, que nasceu no Minnesota. Está construído como uma ficção distópica e é tremendo aquilo que capta durante os “três meses de ocupação” (cita-se) daquela cidade pelo ICE. O documentário funciona quase como um post scriptum de 2026 ao ICE que Robert Kramer realizou em 1970. Os acontecimentos de Minneapolis são recentes, vêm deste inverno. Poitras e Mueller estavam lá, de câmara ao ombro, à espera deles. Foram raptados e expatriados milhares de imigrantes, apesar da forte resistência que encontraram. O abuso de poder testemunhado foi denunciado com especial contundência. Carpenteriano de título e na alma, They’re Here junta-se a esta oposição. Valeu mais do que a maioria dos filmes mostrados na Competição este fim de semana e, tal como Imperium (este último com distribuição assegurada pela Midas), é um filme que esperamos reencontrar no próximo DocLisboa.

Outro a reter, no campo dos documentários: From Inside Out — The Architecture of Peter Zumthor, assina Wim Wenders. Outro filme imersivo, à semelhança daquele que Wenders dedicou a Anselm Kiefer, e a primeira vez (julga-se que também a última) em que os óculos 3D foram emprestados aos acreditados. O efeito é enriquecedor, ilude-nos a sensação de habitarmos os espaços minimalistas de Zumthor num filme organicamente ligado ao trabalho do arquitecto suíço. Wenders aproveita para dissolver as polémicas do Festival de Berlim e a má interpretação das suas palavras sobre cinema e política.
Competição no fim-de-semana: salva-se Lee Chang-dong
Depois de Nanni Moretti, o concurso de Veneza entrou na mó de baixo, com uma série de títulos sem graça, até com casos dispensáveis. Salvaram-se os asiáticos, especialmente o sul-coreano Lee Chang-dong, que não precisa de Possible Love para provar o grande cineasta que é. O filme é uma radiografia subtilíssima dos comportamentos familiares de hoje em dia e da influência do dinheiro nas nossas vidas, a partir do momento em que cruza os dois casais da história, um mais endinheirado (a mulher é realizadora de documentários) e outro mais aflito (neste, o marido perdeu o emprego e entrou em depressão).
Mas nada deste enunciado económico e social é exposto pelo filme com displicência, enquanto se desenvolvem as personagens, as relações humanas, e a obra se desvia com elegância do que se espera delas (aquilo que julgamos estar perto de acontecer, mas não se concretiza, entre o marido do casal rico e a mulher do casal remediado). Possible Love não é o melhor filme de Chang-dong, não chega ao nível de Peppermint Candy (1999) ou Oasis (2002), tão-pouco do rigor da mise en scène do mais recente Burning/Em Chamas, pelo qual o sul-coreano entrou, tarde e a más horas, no circuito da distribuição comercial portuguesa. Mas a atenção e a paciência que Possible Love nos pede em 160 minutos recompensam no final. A audiência cresce com aquelas pessoas.

A regularidade de Koreeda deixa-o uns furos abaixo, este é o segundo filme que o japonês nos mostra este ano, depois do distópico Sheep in the Box, que esteve a concurso em Cannes. Look Back, entrada veneziana na Competição, é de uma simplicidade desarmante. Segue duas miúdas, amigas de infância, até ao início da idade adulta, desenhistas de manga, ambas talentosas — e depois acontece uma coisa terrível a uma delas, deixando a outra a sarar as feridas através da arte daquela banda desenhada. Óptimas actrizes, o filme convida ao agrado. Mas não convence. E se calhar o defeito até é só nosso, habituados que fomos às histórias magoadas e complexas que Koreeda tem lá para trás no currículo. Look Back é um filme modesto.
Do lado italiano que se seguiu a Moretti, as coisas estão bem pior. The Echo Chamber é aflitivo de auto-indulgência no jogo mental que propõe ao espectador. Luca Marinelli faz um produtor musical cocainómano, Alicia Vikander é a fisioterapeuta que se torna sua amante e Susan Sarandon, a compositora que o primeiro, que tem dores no corpo e maleitas mais severas no espírito, anda a tentar produzir. E quase não se sai do apartamento dele, jogo absurdo, massacrante, em que as personagens se espiam como se fossem fantasmas uns dos outros. O guião, supostamente, foi o último documento de trabalho deixado por Bernardo Bertolucci, já o cineasta italiano estava confinado a uma cadeira de rodas. Custa a acreditar que o texto é realmente dele, mais ainda se lamenta o tratamento cinematográfico que Andrea Pallaoro lhe ofereceu.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.