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(A) :: O bom no mau, o mau no bom

O bom no mau, o mau no bom

A Índia foi uma promessa a mim própria, que eu própria quebrei. O mais violento embate de frente, cadeira nos dentes e eu, esgazeada e atropelada, mentalmente inconsciente.

Matilde Vaz Pinto
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Em 2019 decidi muitas coisas.

Foi o ano em que decidi ir viajar sozinha com a minha mochila e, num dos muitos saltos no escuro desse ano mágico, aterrei de pára-quedas na Índia, onde vivi um mês num ashram para o meu primeiro teacher training. Engraçado descobrir aos 29 anos que o yoga é um osso estrutural do meu esqueleto, a única nota de silêncio na minha playlist mental.

Mas depois de 29 dias num país com quem tenho tanta química como dois ímans de polos opostos, jurei que nunca mais voltaria.

Em 2019 decidi muitas coisas. Mas só duas delas definitivas: 1- ter sempre o yoga na minha vida e 2- que nunca mais metia uma unha na Índia.

Anos mais tarde, e depois da enésima e dilacerante crise existenciaLaboral, decidi fazer o teacher training de Jivamukti yoga: um curso mágico, com os melhores professores do método, uma experiência life changing.

E porque a vida é de uma ironia bastarda, o curso era, obviamente, na Índia.

Foram 9 meses de expetativas desembestadas, enraizadas até ao centro da terra.

Foram 9 meses de muita preparação, estudo e antecipação.

E, desses 9 meses, nasceu a-grande-desilusão. O maior investimento financeiro da minha vida de mão dada a um arrastão de expetativas estilhaçadas.

Porque a verdade é que a Índia e eu somos duas meias desemparelhadas.

Eu, algodão orgânico com mistura de caxemira, rigorosamente dobrada e impecavelmente arrumada numa gaveta por cores e feitio.

A Índia… aquela meia velha e esburacada, tão rançosa que até arranha.

Eu, que nem sou germofóbica apesar de não partilhar talheres com os meus irmãos, muito menos com a minha mãe.

Eu, que às vezes nem da minha própria garrafa bebo.

A Índia, com os mesmos (e elevados) padrões de higiene de uma varejeira ressacada num monte de merda morna na lixeira.

Eu, tão ingenuamente orgulhosa deste ligeiro ocd-não-diagnosticado.

A Índia, egocêntrica e caótica. O prato do dia: anarquia intemperada, temperada a poluição pesada.

A Índia foi uma promessa a mim própria, que eu própria quebrei. O mais violento embate de frente, cadeira nos dentes e eu, esgazeada e atropelada, mentalmente inconsciente. Não querendo ser dramática (mas sendo, sempre). A Índia foi um desafio visceral, a todos os níveis, filtros e sentidos. Foram obstáculos constantes em modo pague-1-leve-7.

Exaustão física, apatia mental. Foram surtos diários por situações menores e todos sabemos que água mole em pedra dura, tanto bate até que surta. Cada vez que penso neste mês, atravesso a rua para não ter de lhe falar.

Mas a verdade é que a Índia também foi poesia em movimento.

A energia que se respira num movimento coletivo sincronizado tem o seu quê de vibração ancestral, facilmente um tremor-de-alma escala 7. A Índia também foi uma tela de beleza crua sem precedentes. Chakras alinhados, literalmente. Manhãs de magia, o sol a rebentar o céu antes do mundo acordar e eu na primeira fila da minha varanda-camarote, plenamente sincronizada com o desgoverno matinal da floresta. Uma bolha de conexão humana impossível de explicar. Professores com mais luz que um farol em alto-mar e amigos mais importantes que uma bóia num naufrágio.

A verdade é que a Índia também foi uma irrespirável pausa no tempo. E uma calma profunda. Pura.

E o lago… O lago!

Se não acabei este mês de olhar apagado e colete de forças numa cela subterrânea do Júlio de Matos, pós lobotomia integral de emergência, foi graças ao lago. E qualquer descrição ficaria tão aquém que não passaria de um insulto insípido.

Pois. Afinal também vivi coisas bonitas na Índia.

E aprendi tantas coisas novas. É que não há nada melhor no mundo do que aprender coisas novas.

Só talvez mesmo a satisfação de superar pessoalmente aqueles-desafios-pessoais-insuperáveis. Um regresso aos 7 anos e o primeiro date com o orgulho depois da vitória indescritível de apertar os atacadores sozinha.

Mas tudo isto sempre carimbado e lacrado com um selo negro de lua nova.

Entretanto passaram 4 meses.

É pouco tempo claro, mas ao fim do dia, foram 132 noites escuras. Adormecer e acordar engasgada com um nó na garganta que insiste e insiste e insiste. Relutante em descer, incapaz de se organizar. Entretanto, passou um pouco-tempo-enorme, e eu a arrastar diariamente esta âncora zangada de memórias indianas indefinidas.

Hoje faço as pazes com a Índia e aceito o diagnóstico clínico sem drama nem alarido. Sem pedir uma segunda opinião.

Hoje encaixo, finalmente, o mau no bom: sem lhe acrescentar peso, sem lhe roubar valor.

O mau no bom, o bom no mau.

E esta vida maravilhosa.