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(A) :: Adolescentes sem photoshop

Adolescentes sem photoshop

E, depois, há as redes sociais. Que se transformam no negativo do espelho mágico da madrasta da Branca de Neve, junto das quais,  aos adolescentes falta sempre um bocadinho para serem perfeitos.

Eduardo Sá
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Depois da revolta do corpo, na puberdade, a relação dos adolescentes com ele caminha no sentido de comporem uma imagem. Muito talhada por influencers. Muito cultivada pelo grupo de iguais. Muito “orientada” pelas redes sociais.

A relação com o vestuário oscila entre um estilo “negligé” (às vezes, com peças vários números acima do seu) e uma espécie de passarelle das marcas e dos modelos do momento. A forma como se alimentam, varia entre o fast-food e os refrigerantes e a delicadeza com que organizam uma dieta que, quando resvala, chega à contagem obsessiva de calorias ou, às vezes, saltita entre as dietas rígidas e a impulsividade alimentar. O modo como se cuidam e se alindam, consoante a idade e o sexo, não passa sem cuidados com os bíceps, sem os piercings e sem a primeira tatuagem, e estende-se à maquilagem e às unhas trabalhadas, até que se crie um estilo (de preferência, “urban chick”). A relação com o cabelo, varia com o rigor e o método com que ele se estica ou se alisa até ao modo como, nos rapazes, se cultivam as versões “degradé” ou “undercut”, mas que começa, regra geral, na forma, demorada e meticulosa, como se despenteiam. E os gadgets, claro, desde a marca do telemóvel, ao saco Longchamp, ao relógio Casio “retrô”, às sapatilhas Adidas ou às sandálias Birkenstock. Transversais a tudo isso estão as T-shirts ou os tops que, faça frio ou faça sol, fazem de cada adolescente um caso sério de “desamor à camisola”.

E, depois, há as redes sociais. Que se transformam no negativo do espelho mágico da madrasta da Branca de Neve, junto das quais,  aos adolescentes falta sempre um bocadinho para serem perfeitos. O que, por outras palavras, faz com que, por serem “belezas normais”, se sintam quase feios.

Mas, entretanto, chegaram o botox e as pequenas cirurgias estéticas que se vão tornando (de forma preocupante) mais frequentes entre eles. E se tudo se pode compreender na forma como os adolescentes constroem o corpo, tudo inquieta. Porque parecem demasiados presos à imagem de si. Como se ela e só ela fizesse deles “qualquer coisa de diferente”. Demasiado por fora. E pouco por dentro.

E é aqui que me preocupam os pais. Os adolescentes não têm de ser, sobretudo, imagem e “estilo” ao mesmo tempo que parecem, “obrigatoriamente”, individualistas, egocêntricos e egoistas. Eles são tanto mais bonitos quanto melhores pessoas se tornam. Quando mais falam do que sentem sem Photoshop. Quando aprendem a lealdade, a generosidade e a bondade sem ponta de botox. E quanto mais são educados para a sensibilidade e para a beleza interior. Sem que vão por aí, correm o risco de ficar presos a uma imagem, que estendem de fora para dentro, que faz com que muitos adolescentes, mais tarde ou mais cedo, se sintam despersonalizados e sem saberem quem são. Tudo a favor com os cuidados com o corpo. Tudo a favor da descoberta dum “estilo”. Mas tudo a favor da beleza rara que têm em si da qual estão proibidos de fugir.