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(A) :: Há um ano escrevi que a “Glória de Lisboa falou por si”. Será que Lisboa está finalmente disposta a ouvi-la?

Há um ano escrevi que a “Glória de Lisboa falou por si”. Será que Lisboa está finalmente disposta a ouvi-la?

O verdadeiro desafio não é reconstruir o Elevador da Glória. É garantir que aquilo que aconteceu deixou uma marca suficientemente profunda para mudar a forma como Lisboa pensa a segurança

Sancha Trindade
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Há um ano, quando vi as imagens do acidente do Elevador da Glória, a comoção fez-se sentir em todos nós, de forma quase tão descontrolada como sinto a minha — e também a vossa — Lisboa nos últimos anos. Pelas vítimas, pelas famílias, pelos feridos. Por Lisboa. Pelo património da Carris. E, talvez de forma mais íntima, pelo distanciamento que tenho sentido, nos últimos anos, da minha própria cidade.

Naquele momento, escrevi sobre uma tragédia que nos parecia impossível de acontecer precisamente ali, naquele lugar que tantas vezes associamos à história da Avenida e à memória de Lisboa. Escrevi também sobre uma sensação que já existia antes do acidente: a de uma cidade sobrecarregada, a rebentar pelas costuras, uma cidade que parece ter deixado de pensar nos seus. Uma Lisboa onde se tornou cada vez mais difícil distinguir a cidade vivida pelos seus moradores da cidade consumida por quem a visita; uma cidade onde turismo, mobilidade — com trotinetas desenfreadas e tuk-tuks que, em vez de serem uma imagem da cidade, parecem por vezes um anúncio permanente ao Circo Chen —, pressão imobiliária e exploração do espaço público se cruzam diariamente, nem sempre com o equilíbrio que uma cidade habitável exige.

Um ano depois, a pergunta regressa à memória de todos nós, lisboetas. E regressa depois de sabermos que o Elevador da Glória será totalmente novo e que a Carris pretende lançar, no primeiro trimestre de 2027, um concurso público internacional para a concepção e instalação de uma nova infraestrutura, com inauguração prevista para 2029. A nova solução terá duas cabinas, novos materiais e uma arquitectura tecnológica integrada, com novas exigências de segurança, monitorização, acessibilidade e manutenção. Tudo isto é necessário. Depois do que aconteceu, seria difícil defender outra coisa.

Mas há uma questão que me parece mais importante do que a própria reconstrução física do histórico Elevador da Glória: o que aprendemos, afinal, com o que aconteceu? Porque reconstruir não é necessariamente responder. Não devemos antecipar conclusões sobre responsabilidades enquanto as auditorias e as investigações continuam em curso. O relatório final do GPIAAF é aguardado para o próximo ano e é fundamental que os factos sejam apurados com rigor, sem precipitações e sem transformar a indignação numa sentença antecipada. Mas esperar pelos factos não significa deixar de fazer perguntas. Pelo contrário. Há uma questão que quem governa Lisboa tem obrigação de colocar: como chegámos ao ponto em que foram necessárias dezasseis vidas perdidas e cerca de duas dezenas de feridos para que uma das infraestruturas mais emblemáticas da cidade fosse profundamente repensada?

Não acredito que a resposta deva ser dada apenas pela Carris. Porque o Elevador da Glória não é apenas um equipamento de transporte. É um lugar, é património, é memória e é uma das imagens mais reconhecíveis de Lisboa. Está inserido numa cidade que há muito enfrenta uma pressão crescente sobre os seus espaços, os seus transportes e a sua própria identidade. É por isso que a decisão anunciada pela Carris pode ser uma oportunidade muito maior do que a construção de um novo ascensor. Pode ser uma oportunidade para Lisboa parar para reflectir, parar para olhar para si própria e perceber que tipo de cidade quer ser: uma cidade que preserva os seus monumentos enquanto transforma radicalmente o contexto em que eles existem? Uma cidade que responde ao aumento permanente da utilização dos seus equipamentos sem discutir suficientemente os seus limites? Ou uma cidade capaz de conciliar turismo, mobilidade, património, qualidade de vida e segurança, sem tratar nenhum deles como variável secundária?

A requalificação anunciada para a Calçada da Glória, com o fim da circulação automóvel naquele espaço, torna esta intervenção ainda mais significativa. Não estamos apenas a falar de um novo ascensor, mas de uma intervenção num lugar que é, simultaneamente, infraestrutura, espaço público e património histórico. A Carris afirma que “o ascensor será novo, o lugar continuará histórico”. É uma frase bonita. Mas também é uma promessa. Porque um lugar histórico não é apenas uma inclinação, uma calçada, uma cabine ou uma fotografia antiga. É aquilo que uma cidade decide recordar, aquilo que decide preservar, mas sobretudo aquilo que se dispõe a aprender com os seus erros — este, gravíssimo, que deixou para sempre a sua marca em tantas famílias, portuguesas e de tantas outras partes do mundo.

A intenção de musealizar partes da antiga carruagem e de criar um memorial é importante. Lisboa não deve esconder as marcas das suas tragédias para preservar uma imagem turística de si própria. Recordar o fatídico 3 de Setembro não pode resumir-se a uma cerimónia, a um memorial ou a uma peça exposta. Recordar é perguntar. É exigir rigor. É aprender. E, sobretudo, é não permitir que a memória seja ultrapassada pela pressa de voltar à normalidade. O Elevador da Glória descarrilou. Lisboa ficou de luto. Agora vamos reconstruir. Mas será profundamente insuficiente que, em 2029, quando uma nova cabine voltar a subir a Calçada da Glória, tudo o que tivermos conseguido fazer tenha sido colocar novamente um ascensor no lugar onde existia outro.

O verdadeiro desafio não é reconstruir o Elevador da Glória. É garantir que aquilo que aconteceu deixou uma marca suficientemente profunda para mudar a forma como Lisboa pensa a segurança, o património, a mobilidade e os limites de uma cidade cada vez mais pressionada. Por memória. Por respeito. E pela descaracterização da nossa querida Lisboa nos últimos anos.

Há um ano perguntei se “A Glória de Lisboa falou por si?” Hoje, um ano depois, a pergunta é outra: será que Lisboa está finalmente disposta a ouvi-la?