Hoje é o primeiro dia a sério depois das férias. O trânsito volta, os escritórios enchem-se e o Parlamento, que só reabre oficialmente a 15 de Setembro, reúne esta segunda-feira a Comissão Permanente para convocar um plenário extraordinário. Amanhã, às três da tarde, debate-se uma moção de censura que vai render muitos likes e muito engagement sobre o ministro querido de todos, de António Costa a Luís Montenegro, o homem da piscina que afinal era um tanque.
Enquanto isto ocupa a semana, das redes sociais à imprensa que o Governo tanto gosta de subsidiar, as escolas abrem com 2.650 horários por preencher , mais de 50 mil horas de aulas sem professor, 2.152 deles horários completos e anuais, um agravamento de 30% face ao ano passado. Problema que vai durar anos, porque se reformam quatro mil professores por ano, seis em cada dez dos que ficam já passaram os cinquenta e o país precisa de 38 mil novos docentes até 2034 sem saber onde ir buscá-los. Para um tanque convoca-se um plenário extraordinário. Para isto, nada.
Para voltar a falar de paixão pela educação, temos de atravessar o Canal da Mancha, esse pedaço de mar que o Brexit não conseguiu tornar maior, e olhar para uma escola de bairro em Wembley que iguala Eton nos exames. Chama-se Michaela Community School. À frente dela está Katharine Birbalsingh. Não é pública no sentido em que dizemos pública em Portugal. É uma free school , financiada pelo contribuinte, com cerca de 7.700 por aluno, o que o Estado dá a qualquer escola inglesa, sem propinas e sem donativos, mas livre da autarquia, do currículo obrigatório e das grelhas salariais que os sindicatos negoceiam. Onde a directora decide o que se ensina, escolhe quem o faz, paga o que entende e responde pelo resultado. O que a separa das nossas não é o orçamento, a tecnologia ou a pedagogia. É a subsidiariedade: dar poder a quem está perto e exigir contas a quem o recebe, em vez de deixar a escola à mercê de um Ministério que um sindicato aprendeu a manobrar. Porque não há liberdade sem responsabilidade, nem responsabilidade sem autoridade.
Birbalsingh saiu de Oxford como militante do Socialist Workers Party e passou vinte anos a deixar o socialismo para trás, uma sala de aula de cada vez. Nasceu em Auckland, em 1973, filha de um académico indo-guianês e de uma enfermeira jamaicana. Cresceu em Toronto e chegou a Inglaterra aos quinze anos, quando o pai foi leccionar para Warwick. O avô paterno dirigira a escola da missão canadiana em Better Hope, na Guiana Britânica. A vocação estava lá. As ideias sobre como educar é que demoraram a chegar. Foi dar aulas em escolas do sul de Londres, primeiro na Dunraven, em Streatham, e depois na St Michael and All Angels, em Camberwell, onde chegou a vice-directora. Escrevia também um blogue anónimo assinado Miss Snuffy. Em Outubro de 2010, já convertida e a pagar penitência pelo trotskismo que trazia de Oxford, subiu ao palco do congresso do Partido Conservador, ao lado de Michael Gove, hoje editor do Spectator, e disse que o sistema educativo estava avariado porque mantinha as crianças pobres na pobreza. Teve uma ovação de pé. E, claro está, perdeu o emprego.
Meses antes, Gove abrira a porta que ela viria a atravessar. A Academies Act de 2010 permitiu pela primeira vez que uma professora ou um grupo de pais recebesse fundos públicos para abrir uma escola. A lei não dizia para quem. Birbalsingh escolheu as crianças desfavorecidas, turmas pequenas e disciplina forte, com cada libra do contribuinte gasta como se fosse dela. Seguiram-se quatro anos a bater às portas de autarquias que lhe recusavam terrenos assim que percebiam para quem eram. Uma delas, inclusive, vendeu o edifício a outro comprador no meio do processo. Isto em Portugal seria impensável. Se o sindicato não sonha, a obra não nasce.
Finalmente, em 2014 abriu a Michaela Community School num antigo edifício de escritórios em Wembley. Professor à frente da sala. Alunos em filas estritas. Corredores em silêncio. Castigo por chegar um minuto atrasado ou por não trazer caneta. Currículo assente em conhecimento factual, na linha de E. D. Hirsch, e não em competências vagas. Dever, gratidão, pertença à comunidade e aos pais, valores britânicos e trabalho, muito trabalho, tudo ensinado como matéria e não como adorno. Nenhuma desculpa aceite, incluindo as boas.
A alcunha de directora mais severa de Inglaterra foi invenção da imprensa e deu título a um documentário. Ela não a recusou. Adoptou-a, pô-la no perfil do X e transformou-a em marca. Antes disso, em 2020, recebera a CBE, a condecoração que a Coroa atribui a quem presta serviço relevante ao país. Em Outubro de 2021 presidiu à Comissão de Mobilidade Social, até se demitir, por a sua notoriedade pôr a comissão em risco. Na escola, entretanto, a guerra começava. Quando proibiu a oração no recreio, uma aluna muçulmana levou a Michaela a tribunal e o High Court deu razão à escola. Pelo caminho, houve funcionários insultados, salas vandalizadas, um falso alerta de bomba e ameaças de morte.
Como nos recorda Milton Friedman, uma política avalia-se pelos resultados e não pelas intenções. O Progress 8, que mede quanto um aluno progride entre os onze e os dezasseis anos, deu 2,55 à Michaela em 2024, o valor mais alto do país pelo terceiro ano consecutivo, entre cerca de quatro mil escolas secundárias públicas. Ainda nas notas máximas dos GCSE de 2024, a Michaela teve 52% e Eton 53%. Em 2025, nos GCSE, quase 42% dos alunos tiveram cinco ou mais notas 9, a classificação máxima, 82% ficaram entre 7 e 9 e todos os alunos passaram a Inglês e a Matemática. Nos A Levels, 25% das notas foram A* e 68% A* ou A. E isto numa escola que não selecciona ninguém, o que em Inglaterra é quase uma excentricidade. Neste país, as grammar schools fazem-no por exame aos onze anos, os colégios recorrem a exames, entrevistas e provas de aptidão, da música ao desporto. A objecção que se fará por cá não é a selecção, é a auto-selecção. Quem assina aquele contrato de comportamento à entrada já é uma família que se importa, e daí vem o argumento de que o modelo não prova nada. Eu diria o contrário. Essas famílias existiam nas mesmas ruas de Wembley muito antes de a Michaela abrir. O que não existia era uma escola que estivesse à altura delas. Na primeira turma a fazer exames, 41% dos alunos vinham de agregados oficialmente classificados como desfavorecidos. Não faltava empenho aos pais. Faltava quem lho merecesse.
E durante este período a resposta britânica à desigualdade não foi melhorar o ensino, foi reclassificar as crianças. Cambridge sinaliza candidaturas cruzando o código postal com o Índice de Privação Múltipla e o POLAR4. Oxford usa o ACORN e o mesmo índice e recomenda para entrevista quem venha assinalado, sem baixar a nota. Outras baixam-na, e baixar o critério de entrada é uma discriminação que se apresenta como reparação. Chama-se admissão contextual e é engenharia social por código postal. Um aluno de Clapham South, SW12, tem hoje mais dificuldade em entrar em Oxbridge do que outro com as mesmas notas em Wembley, HA9, o bairro da Michaela. E Cambridge sinaliza também pelo desempenho médio da escola frequentada, o que significa que quanto melhores forem os resultados da Michaela menos assinalados ficam os seus alunos pobres. A engenharia pune a escola que resolve o problema que diz querer resolver.
Birbalsingh sabe o que está em jogo e não se coíbe de chamar a atenção quando é preciso. Em Junho, subiu ao palco da ARC, em Londres, para dizer que o Ocidente está perante um falhanço civilizacional. Disse que Elon Musk não entende os problemas com o uso da IA na educação. Desmonta as ideologias marxistas dos adversários e as tácticas com que as disfarçam. Neste Verão lançou um podcast semanal, o Strictly Education. Tem um grupo de haters fortíssimo nas redes, que prefere discutir a mulher para nunca ter de discutir as ideias e os resultados. Como bem sabemos contra argumentos não há factos.
Por cá, meio século depois de Abril, discutimos política como quem vê um reality show. Os debates diários parecem desenhados para potenciar conversas de café. Fora do estúdio, temos a tutela entretida com papelada, a rever o Estatuto da Carreira Docente e o modelo de gestão escolar, refém de um sindicato que rejeita ambos e defende, nas suas palavras, uma escola pública democrática e participada. Democrática e participada quer dizer que ninguém responde por nada. O professor que sabe mais do que o aluno é uma relação de poder a desmontar, o director que manda é um patrão a combater, o exame que expõe o conhecimento em falta é uma violência. O que ninguém discute é o que isto fez ao prestígio da profissão. Por isso sobram milhares de horários por preencher. Não é apenas uma crise de recrutamento. É o preço de uma profissão à qual retirámos autoridade, estatuto e capacidade de mandar na sala de aula.
O trabalho de Katharine Birbalsingh demonstra que o inverso é possível. Parte de uma ideia quase subversiva: a escola existe para a família e para o aluno. E avalia-se pelo que lhes entrega. A autoridade não é um luxo de escolas de elite. Para o filho de uma família pobre, é o contrário, porque em casa não há quem compense o que a escola não ensinou. Quem defende uma escola sem hierarquia acaba por defender uma escola que só funciona para quem tem uma segunda escola em casa. O filho de pais ricos sobrevive a uma escola má. O outro não. Precisamos de recuperar a ideia de que ensinar exige autoridade, que aprender exige esforço e que uma escola se avalia pelo que faz por uma criança, não pelas intenções de quem a administra. Amanhã à tarde, o Parlamento gastará algumas horas sobre quem manda na Administração Interna, no Parlamento, no Governo, e amanhã à noite ninguém se lembrará de uma única frase que ali foi dita. Esta semana, milhares de crianças começaram o ano sem professor a várias disciplinas. Para decidir quem manda numa escola portuguesa, há cinquenta anos que não há pressa.