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(A) :: Resposta a muitos leitores

Resposta a muitos leitores

Após a vitória de Donald Trump em 2024, o clima político começou a mudar. AOC eliminou os seus “pronomes”, num momento celebrado por muitos como simbolizando o início do fim da loucura trans.

Patrícia Fernandes
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Uma das perguntas que mais vezes me é colocada relaciona-se com o fim do wokismo: será que o período woke já acabou? A resposta é complexa por duas razões: não só a futurologia é uma modalidade perigosa, como tudo depende do que entendermos por wokismo. Ainda assim, vou sugerir uma estratégia inspirada nos comentários às grandes voltas transmitidas pela EuroSport. Como as emissões são longas e é preciso preencher o tempo, Olivier Bonamici costuma perguntar: qual é o ciclista que vão seguir nesta etapa com mais atenção? (não necessariamente porque pode ganhar, mas porque temos curiosidade em saber o que é capaz de fazer) Podemos politizar esta pergunta: há alguma figura pública que possamos seguir para perceber o futuro do wokismo?

A resposta é Alexandria Ocasio-Cortez (daqui em diante, AOC).

Quando tomou posse em janeiro de 2019, AOC tornou-se a mulher mais nova a ser eleita para o Congresso. Dentro do partido democrata faz parte de uma das suas fações mais radicais, o Democratic Socialists of America, e apresenta-se no espaço público com uma agenda muito progressista. Para além disso, e como a sua idade denunciaria, o seu percurso político tem sido feito com um uso muito hábil das redes sociais.

Não é assim surpreendente que AOC tenha ocupado um lugar de vanguarda nas questões mais extremas da agenda woke. Entrou no meu radar há 7 anos quando, numa entrevista ao programa 60 Minutes, foi confrontada com a sua dificuldade em acertar com os números:

“Uma das críticas que lhe são dirigidas é que os seus cálculos matemáticos são imprecisos [“your math is fuzzy”] e o The Washington Post atribuiu-lhe recentemente quatro ‘Pinóquios’ por ter apresentado de forma errada algumas estatísticas sobre as despesas do Pentágono.”

AOC respondeu com o mantra do pensamento identitário:

“Acho que há pessoas mais preocupadas em estarem corretas em termos de precisão, factos e semântica do que em estarem moralmente certas.

Notemos que AOC não disse que os factos podem ter diferentes interpretações – simplesmente afirmou que os factos, mesmos corretos, não são mais importantes do que estar moralmente certo. É, claro, uma observação que pode levantar dificuldades à implementação de medidas políticas: basta imaginarmos um orçamento mais preocupado em ser “moralmente certo” do que em ser matematicamente rigoroso. Mas também impossibilita a discussão política: o que está subjacente à sua frase é que apenas ela – ou as pessoas que pensam como ela – estão moralmente certas, pelo que todas as outras posições seriam ilegítimas. Estamos, pois, perante a primeira linha do subjetivismo e da arrogância moral do pensamento identitário.

Nos anos seguintes, AOC esteve sempre na frente das grandes lutas woke: em 2020, no contexto político incendiário gerado pelos protestos com a morte de George Floyd, defendeu entusiasticamente o “defunding the police” (medida que AOC poderia considerar “moralmente certa” mas que, como revelam os estudos de opinião, é recusada pela maioria da população e, em particular, pelos setores mais pobres da sociedade norte-americana). E na vaga woke seguinte colocou entusiasticamente os seus “pronomes” nas redes sociais.

Após a vitória de Donald Trump em 2024, o clima político começou a mudar. Alguns dias depois, AOC eliminou os seus “pronomes”, num momento celebrado por muitos como simbolizando o início do fim da loucura trans. E os meses seguintes foram marcados por aquilo que alguns designaram como “dark woke”, que trocaria a arrogância moral woke por uma postura mais cruel, invertendo o lema de Kamala Harris: “when they go low, we go lower”.

Um ano depois as coisas parecem estar novamente a mudar: em entrevista recente à ABC News, deixou no ar a hipótese de se candidatar à Presidência dos Estados Unidos, o que, naturalmente, implicaria um percurso com mais precaução e moderação. Afinal, se as suas posições políticas têm sido suficientes para se afirmar na ala mais radical do partido democrata, elas não garantem uma vitória nas primárias e impedirão, com quase toda a certeza, uma vitória presidencial. E, por isso, AOC aproveitou para se distanciar das medidas mais radicais que apoiou nos últimos anos, dizendo: “Woke 1.0 was crazy”.

As suas declarações são muito relevantes por duas razões. Por um lado, elas permitem encerrar a discussão sobre “a existência do wokismo”. O wokismo existiu mesmo, embora AOC não lhe atribua grande importância: podemos olhar para tudo o que aconteceu como olhamos para uma fase mais maluca da nossa adolescência, quando arriscamos pintar o cabelo ou vestir roupa realmente feia. O problema é que dizer isto é ignorar os danos gravíssimos causados a tantas pessoas.

Por outro lado, as suas declarações permitem concluir que não está fora de hipótese um novo período woke – menos maluco, talvez, mas igualmente resultado da convicção de que se tem um acesso privilegiado à verdade e que, por essa razão, só essas ideias são moralmente certas.

Embora muitas pessoas utilizem o termo “wokismo” de forma bastante ampla, a minha preferência é por um uso mais restrito, separando as ideias identitárias da sua manifestação woke. De acordo com esta hipótese, a essência do wokismo é o impulso incontrolável de exibição moral – a tal sinalização de virtude que foi, sobretudo, permitida pelas redes sociais. Ainda segundo esta hipótese, o exibicionismo moral pode ter abrandado após a vitória de Donald Trump, mas as ideias identitárias não desapareceram e continuam a proliferar entre as gerações mais novas. Não é por isso descabido que venhamos a ter um período woke 2, talvez sob a forma de tragédia. Mas se estivermos atentos a AOC, saberemos quando é que isso vai acontecer.