(c) 2023 am|dev

(A) :: A oferta de estadistas

A oferta de estadistas

De onde vêm os líderes que admiramos, porque é que o funil passou a funcionar ao contrário e o que seria preciso para o inverter

Pedro Santa Clara
text

A 23 de dezembro de 1783, na Maryland State House, em Annapolis, o homem mais poderoso da América entrou numa sala cheia de congressistas e devolveu o poder. George Washington comandara o Exército Continental durante oito anos. A guerra estava ganha, o exército adorava-o, e o governo civil que pretendia dar-lhe ordens estava falido, débil e receoso dos próprios soldados. A história oferecia precedentes mais sombrios — César, Cromwell e, poucos anos depois, Bonaparte. Washington entregou a patente ao Congresso, fez uma vénia e regressou a Mount Vernon a tempo do Natal. Quando Jorge III soube do que ele tencionava fazer, terá dito que, se o fizesse mesmo, seria o maior homem do mundo. Fê-lo. Nove meses antes, em Newburgh, enfrentara oficiais que conspiravam contra a autoridade civil e desarmara a revolta com um gesto: tirou os óculos, atrapalhou-se com eles e observou que envelhecera e quase cegara ao serviço do país. Valeu mais do que um exército.

O espantoso não é apenas o homem. A história produz um Cincinato de vez em quando. O espantoso é a bancada: atrás de Washington estavam Franklin, Madison, Hamilton, Jefferson, Adams, Jay, Mason, Wilson. Uma sociedade provinciana de menos de quatro milhões de habitantes alinhou uma geração política que ainda hoje parece estatisticamente improvável. Vale a pena fixar a escala. O primeiro recenseamento americano, em 1790, contou 3,9 milhões de pessoas, das quais cerca de 700 mil eram escravizadas; a população livre rondava os 3,2 milhões. Portugal tem hoje mais de três vezes essa população, escolaridade universal, um Estado moderno e duzentos e quarenta anos adicionais de acumulação institucional. E, no entanto, custa-nos alinhar cinco nomes de estatura comparável. Este ensaio nasce de uma pergunta que parece ingénua e não é: que tipo de sociedade leva ao poder pessoas assim?

Guardo uma lista curta das qualidades que admiro nas pessoas e que serve também de descrição de funções para o cargo público. Integridade — ser amanhã aquilo que se diz ser hoje, a expectativa de que dependem contratos, constituições e mercados. Independência — pensar pela própria cabeça e ter meios para dizer não. Curiosidade e conhecimento — o apetite que capitaliza. Coragem, que Samuel Johnson colocou em primeiro lugar entre as virtudes por uma razão prática: sem ela, nenhuma das outras é fiável. Iniciativa — a preferência por fazer em vez de propor. Preocupação com os outros e serviço à sociedade. Inteligência — não uma pontuação num teste, mas o hábito treinado de levar as ideias a sério e de mudar de opinião em público quando as provas mudam. E bom gosto, que é juízo comprimido: dez mil comparações armazenadas como instinto, a capacidade adquirida de detetar a falsificação antes de conseguir explicá-la.

Guardo também um nome para o fenótipo oposto: o tolo pomposo, que contrafaz cada item da lista. Credenciais em lugar de conhecimento; jargão em lugar de inteligência; solenidade em lugar de seriedade; concordância com a maioria em lugar de coragem; comissões em lugar de iniciativa; instrução moral, entregue de cima para baixo, em lugar de serviço. Não é apenas uma ofensa estética. É uma ofensa epistémica.

A pergunta que me interessa é de ciência política: de onde vem a oferta do primeiro tipo, e porque é que a nossa maquinaria seleciona agora, com tanta fiabilidade, o segundo?

O paradoxo de Madison

Comecemos pela aparente refutação, porque é o alicerce. Os próprios Fundadores não acreditavam no governo dos homens virtuosos. A Constituição americana é uma máquina desenhada para funcionar mesmo quando os governantes não são virtuosos: ambição contra ambição, poder fragmentado, cada titular vigiado por rivais com interesses próprios. Madison resumiu a premissa — se os homens fossem anjos, não seria necessário governo — e trabalhava na tradição de Hume, para quem o desenho político devia partir da possibilidade de desonestidade, mesmo quando a suposição fosse injusta para muitos indivíduos. A geração política que hoje celebramos passou o verão de 1787 a construir um sistema destinado a sobreviver a gente pior do que ela. Sabia que uma boa Constituição não pode depender de uma boa colheita de homens.

Mas Madison fechou o circuito do outro lado, e essa metade é muito menos citada. Na convenção de ratificação da Virgínia chamou quimérica à ideia de que qualquer forma de governo pudesse assegurar a liberdade sem virtude no povo. As duas metades são verdadeiras e, juntas, definem o problema corretamente. As instituições economizam virtude — reduzem a quantidade de carácter de que uma sociedade precisa por unidade de bom governo — mas não a substituem. Alguém continua a ter de guarnecer a máquina, interpretar as regras e decidir se as respeita quando respeitá-las custa. A pergunta séria não é a ingénua — como fazemos com que os virtuosos governem? — mas uma pergunta de engenharia institucional: como impedimos a maquinaria de seleção de expulsar os virtuosos antes de chegarem ao governo? São problemas diferentes. O segundo é tratável.

Uma assembleia de semideuses

Uma palavra sobre quem eram estes homens, porque dois séculos de mármore os transformaram em estatuária. Benjamin Franklin, aos oitenta e um anos o delegado mais velho da Convenção, fora aprendiz de impressor antes de se tornar editor, empresário, cientista, inventor e o diplomata americano indispensável em Paris. Washington começara como agrimensor, fizera-se proprietário rural e general. Alexander Hamilton era um órfão nascido nas Caraíbas que chegou às colónias ainda adolescente e ajudaria a desenhar o sistema financeiro americano antes dos quarenta. James Madison, aos trinta e seis anos, preparou Filadélfia estudando experiências anteriores de confederação e república com a disciplina de quem se preparava para um exame do qual dependia um país. John Adams — ausente em Londres como ministro, tal como Jefferson estava em Paris — era filho de um lavrador e fizera nome defendendo os soldados britânicos acusados no Massacre de Boston quando quase ninguém queria defendê-los. Nenhum deles encaixa no molde moderno do político profissional. Eram advogados, proprietários, leitores, soldados, empresários e homens dispostos a arriscar, que tratavam o cargo público como uma estação da vida e não como a vida inteira.

Agora o segundo milagre: a forma como foram escolhidos. Os delegados a Filadélfia não se nomearam a si próprios, não fizeram campanha e, em vários casos, não queriam ir. Foram designados pelas legislaturas dos seus estados — doze dos treze enviaram delegações; Rhode Island recusou participar — e, portanto, selecionados por pessoas que conheciam os seus percursos de perto. Tinham servido com eles, litigado contra eles, observado o seu julgamento e a sua fiabilidade ao longo de anos. Cinquenta e cinco homens acabaram por participar, com uma idade média pouco acima dos quarenta, e quase todos traziam um historial verificável: governadores, juízes, generais, autores de constituições estaduais, signatários que já tinham apostado o pescoço uma vez. A nomeação era mais encargo do que prémio: meses longe da lavoura e do escritório, num verão de Filadélfia, ao serviço de um empreendimento de legalidade e êxito incertos. Jefferson, lendo a lista em Paris, chamou-lhe uma “assembleia de semideuses”. A frase é citada como elogio aos homens. Devia também ser lida como elogio ao mecanismo: seleção por pares, aplicada a candidatos com feitos observáveis, para um cargo cujo custo pessoal era elevado. Que tais homens existissem é notável. Que instituições rivais os tenham selecionado repetidamente é ainda mais instrutivo. Este ensaio é, em boa medida, a história de como esse filtro se inverteu.

O que construiu a bancada

A geração fundadora foi fabricada, e o processo de produção tinha cinco componentes visíveis.

Primeiro, a formação. Estes homens foram marinados desde a infância em Plutarco, Cícero, Tito Lívio e no cânone republicano romano — e representavam-no conscientemente. Washington mandou encenar o Catão de Addison para os seus oficiais em Valley Forge e passou a vida pública a imitar Cincinato, o romano que tomou o poder supremo, o usou e voltou ao arado — incluindo o próprio ato em si, duas vezes. Os clássicos funcionavam como software moral: uma biblioteca partilhada de exemplos que dizia aos jovens ambiciosos qual era o aspeto da grandeza, de modo que, quando chegasse a prova, cada um deles soubesse de antemão e em detalhe o papel pelo qual a posteridade o iria avaliar.

Segundo, o incentivo da fama. O grande ensaio de Douglass Adair identificou o motor: o que os movia não era o dinheiro nem a popularidade, mas a fama no sentido clássico, o veredicto da posteridade, a imortalidade laica. É ambição, tão egoísta como qualquer outra, mas apontada ao horizonte temporal mais longo possível. Um homem que otimiza para o que os historiadores escreverão daqui a dois séculos comporta-se de maneira muito diferente de um homem que otimiza para o telejornal da noite. O génio daquela cultura não foi suprimir a ambição, foi apontá-la.

Terceiro, o risco próprio. Assinar a Declaração era assinar uma confissão de traição. As vidas, as fortunas e a honra sagrada não eram uma floreada retórica, eram os termos do contrato, e vários signatários pagaram-nos por inteiro. O risco existencial é um filtro: afasta os frívolos, os meramente vaidosos, os turistas.

Quarto — e é a este mecanismo que dou mais peso — a política não era uma carreira. Eram lavradores, advogados, impressores, soldados, cientistas. Tinham construído alguma coisa antes do cargo, tinham para onde voltar depois do cargo, e retiravam rendimento e identidade de fora da política. O universo de onde se extraíam os líderes era, por isso, composto por pessoas com competência demonstrada noutro sítio e baixa dependência do Estado, que é precisamente a combinação que torna um homem capaz de dizer não.

Quinto, a escala. Uma sociedade pequena, densamente ligada, assente na honra e em relações repetidas, onde a reputação era imposta à distância de uma conversa e onde toda a gente voltaria a encontrar toda a gente. O carácter era colateral, e o colateral era depositado diariamente.

A honestidade obriga ao outro lado do livro. A mesma cultura produziu Aaron Burr: o filtro nunca foi perfeito. A educação dos Cíceros da Virgínia foi financiada, em boa parte, pela escravatura — a independência que acabei de elogiar assentava, para muitos deles, na negação absoluta da independência de outros — e a incapacidade daquela geração para resolver a contradição acabou paga em sangue. Além disso, o tipo fundador degradou-se depressa: na era jacksoniana, a política americana profissionalizou-se e o sistema de despojos passou a distribuir cargos pelos fiéis do partido, enquanto a Constituição permanecia quase a mesma. Esse contraste é crucial. O pergaminho mudou pouco; a qualidade média dos protagonistas mudou muito. Logo, uma parte importante do problema situa-se a montante do texto constitucional: na seleção de quem entra.

O funil ao contrário

Inspecione-se agora a maquinaria moderna, componente a componente, e repare-se que todos os filtros foram invertidos.

A política profissionalizou-se. O percurso normal vai hoje da juventude partidária a assessor, deputado, dirigente e membro de gabinete: uma carreira em que se entra cedo e da qual se sai tarde. Daqui nasce um problema clássico de seleção adversa. Quando o cargo é uma profissão, o universo tende a autosselecionar-se para pessoas cuja vantagem comparativa é conquistar posições políticas, enquanto aqueles com competência demonstrada noutros domínios enfrentam o maior custo de oportunidade de entrar. O político que não tem saída tem também menos independência: grande parte do seu capital profissional depende da próxima nomeação, da próxima lista, do próximo congresso. O problema não é moralizar contra quem faz carreira política. É perceber que construímos um sistema que recompensa estruturalmente a dependência e penaliza precisamente a independência que dizemos querer.

Por baixo de tudo isto está um dos paradoxos mais incómodos da democracia: a competência que ganha eleições não é a mesma competência que governa. A campanha seleciona para fluência, presença perante a câmara, capacidade de fabricar entusiasmo, disciplina de mensagem, alianças internas e controlo da máquina. Governar exige outra carteira: paciência para o detalhe, discernimento entre más opções, capacidade de dizer não aos amigos e disponibilidade para pagar hoje por resultados que só aparecerão amanhã. Schumpeter identificou o mecanismo há décadas: a política democrática é concorrência por votos, e a concorrência produz especialistas — neste caso, especialistas em obter votos. A profissão é tão distinta de governar como a publicidade é da engenharia. As duas competências podem coexistir na mesma pessoa, mas não há razão para esperar que coincidam sempre. Um sistema de seleção saudável precisa, por isso, de inserir algures no circuito pessoas capazes de observar diretamente as competências de governo. O nosso passou décadas a enfraquecer esses filtros.

Os guardiões foram depois demolidos, muitas vezes com as melhores intenções. Jonathan Rauch chamou a atenção para um aspeto das reformas das primárias americanas: a velha “sala cheia de fumo”, com todos os seus pecados, funcionava também como revisão pelos pares. Profissionais que tinham trabalhado com os candidatos durante anos avaliavam qualidades que só se observam de perto e no tempo — discernimento, fiabilidade, autocontrolo, carácter. Substituir integralmente esse filtro por primárias abertas significa entregar mais peso às qualidades que atravessam um ecrã: confiança, fluência, capacidade de mobilizar ressentimento, desempenho. Some-se um ambiente mediático que recompensa a autoexibição e uma carreira em que o fracasso raramente significa ruína profissional, e o funil fica quase completo. Risco baixo admite frívolos; rendas altas atraem caçadores de posições; carreirismo seleciona dependência; o ecrã promove o ator. Ponha-se o mecanismo a funcionar durante duas gerações e o resultado deixa de parecer acidente. Torna-se equilíbrio.

A ágora estilhaçada

Há um componente da máquina que merece capítulo próprio, porque mudou dentro da memória dos vivos e ajuda a explicar a aceleração da degradação. Durante grande parte do século XX, os meios de comunicação de massas criaram um terreno comum. Um punhado de canais e jornais, consumidos por vastas maiorias, produziu — quase por acidente e apesar dos seus enviesamentos — dois bens públicos. O primeiro era uma base factual relativamente partilhada: os cidadãos discordavam ferozmente sobre o que fazer, mas partiam mais vezes da mesma descrição do que tinha acontecido. Walter Lippmann observou há um século que os cidadãos democráticos agem não sobre o mundo diretamente, mas sobre as imagens que dele têm na cabeça. O velho regime mediático punha, pelo menos, imagens semelhantes em muitas cabeças. O segundo bem era a guarda do portão. Editores e diretores de informação, tal como os chefes partidários, funcionavam como filtros não eleitos da seriedade pública. Eram por vezes convencidos, capturados ou simplesmente errados. Mas um árbitro imperfeito e identificável é institucionalmente diferente de milhões de árbitros invisíveis a operar por regras que ninguém vê.

Depois o terreno fragmentou-se em duas fases, cada uma com lógica económica impecável. Primeiro, o cabo descobriu que servir intensamente um segmento podia ser mais rentável do que servir toda a gente de forma insossa, e o árbitro partilhado dividiu-se em franquias rivais. Depois, as redes sociais personalizaram o próprio campo: já não há sequer garantia de que dois cidadãos vejam a mesma sequência de acontecimentos. O algoritmo está otimizado para o envolvimento e, muitas vezes, o envolvimento favorece surpresa, conflito e indignação. Não é preciso que o algoritmo tenha ideologia; basta que tenha preferência por atenção. O segundo produto é a câmara de eco: não se limita a reforçar o que pensamos, fabrica a impressão de que quase toda a gente visível concorda connosco. Quando a discordância aparece, chega então como desvio ou malícia, não como condição normal de uma sociedade livre. O terceiro produto é a política de tema único: o eleitor só de imigração, o só de clima, o só de género. Um político perante tribos assim organizadas precisa menos de um programa de governo do que de máxima pureza na pergunta que define cada tribo. A construção de coligações — o trabalho efetivo da democracia — passa facilmente a ser cotada como traição. Entretanto, milhares de jornais locais fecharam, e a investigação sobre esse desaparecimento associa-o a menor escrutínio, menor participação e maior polarização nacional. O buraco na estrada e o conselho da escola perderam espaço para a guerra cultural importada do feed.

Ligue-se isto à máquina de seleção. O paradoxo entre fazer campanha e governar agrava-se porque o feed transforma a política numa campanha permanente: recompensa viralidade, ressentimento e pureza — muitas vezes o inverso das qualidades úteis para governar — e pune a nuance com invisibilidade. Os últimos guardiões perdem o veto: um candidato com seguidores já não precisa do partido, do editor ou dos pares para chegar ao eleitor. E a pergunta comum do boletim de voto enfraquece: numa ágora estilhaçada, eleições que deveriam ordenar prioridades partilhadas arriscam transformar-se num recenseamento de identidades, em que a mobilização dos já convencidos vale mais do que a persuasão dos indecisos. É um jogo que o ator joga por instinto e o construtor tende a jogar pior.

A honestidade exige a concessão. O velho cartel de canais e jornais era também capaz de complacência, conformismo e silêncio; a fragmentação trouxe à luz histórias verdadeiras que os antigos árbitros ignoravam ou enterravam. O ganho é real. Mas também é real a troca: substituímos um terreno comum imperfeito por milhares de realidades parcialmente privadas. A república alargada de Madison foi concebida num mundo em que a facção viajava à velocidade de uma mala-posta. A distância e o tempo ajudavam a arrefecer paixões antes de elas se concentrarem. O feed aboliu ambos. A maquinaria constitucional do século XVIII corre agora sobre uma tecnologia de comunicação que altera vários dos seus pressupostos. O espanto não é que selecione mal. É que ainda consiga selecionar alguma coisa.

A bancada vazia

Percorra-se agora a primeira fila das democracias ocidentais e contem-se os Washingtons. O problema não é que todos os líderes sejam medíocres, nem que cada país apresente o mesmo defeito. É que demasiados sistemas parecem estar a selecionar com eficácia para competências de conquista do poder e com muito menos eficácia para independência, prudência e governo. Nos Estados Unidos, o espetáculo político tornou-se para milhões de eleitores parte da própria qualificação presidencial. No Reino Unido, uma década de instabilidade consumiu cinco primeiros-ministros, incluindo uma cujo mandato foi caricaturado pela célebre alface de supermercado. França chega ao fim da era Macron mais endividada, mais polarizada e mais difícil de governar do que no início, apesar da inteligência e da articulação invulgares do Presidente. Em Espanha, a sobrevivência parlamentar de Pedro Sánchez exigiu mudanças de posição de enorme custo reputacional, enquanto José Luis Ábalos, antigo ministro e antigo secretário de Organização do PSOE, foi condenado em junho de 2026 pelo Supremo a vinte e quatro anos e três meses de prisão. Na Alemanha, a erosão dos partidos tradicionais alimentou uma força que os serviços de segurança alemães colocaram sob escrutínio por extremismo. E, por cima disto, a União Europeia continua a carregar um problema de legitimidade próprio: grande capacidade administrativa, mas uma cadeia de responsabilização política mais remota do que a dos governos nacionais. Não é preciso concordar com cada diagnóstico para ver o padrão: os mecanismos de seleção estão sob tensão em quase todo o Ocidente.

Isto dificilmente é apenas uma série de azares independentes, e também não pode ser explicado por falta de talento nas populações. Quando democracias diferentes, com constituições diferentes, começam a produzir sintomas parecidos, vale a pena procurar mecanismos comuns: profissionalização da política, filtros partidários enfraquecidos, comunicação fragmentada, custo elevado de entrada para quem tem uma vida profissional fora do sistema e recompensa crescente do desempenho mediático. O funil não é idêntico em todos os países. Mas as suas peças tornaram-se equipamento de série.

O padrão repete-se

Antes do programa, uma verificação contra a nostalgia: 1776 é uma amostra de um? Não. O fenómeno da bancada fundadora repete-se, e as repetições partilham uma assinatura. Os genrō da era Meiji: samurais menores da periferia perdedora de uma ordem feudal que, perante a chegada das canhoneiras ocidentais, refizeram o Japão numa geração — formados fora da corte, selecionados pela crise, avaliados pela posteridade. Os europeus do pós-guerra: Monnet, o comerciante de conhaque e financeiro; Adenauer, o presidente de câmara que Hitler tinha preso; De Gasperi, que esperou que o fascismo passasse a catalogar livros na biblioteca do Vaticano. Homens formados inteiramente fora do regime que substituíram, convocados pelos escombros. O círculo de Lee Kuan Yew, a quem entregaram um porto pantanoso sem interior e sem água depois da expulsão da Malásia em 1965, a governar sob risco existencial, com salários indexados ao mercado privado e, para os padrões da região, com uma honestidade pessoal monástica.

E três bancadas do século XX que valem por si. Israel declarou a independência a 14 de maio de 1948 e foi invadido no dia seguinte pelos exércitos do Egito, da Síria, do Iraque, da Transjordânia e do Líbano. A geração que fez o Estado debaixo de fogo — Ben-Gurion, Weizmann, Sharett, Begin — vinha toda de fora da política profissional: sindicalistas, um químico, jornalistas, comandantes clandestinos. E Ben-Gurion executou o gesto de Annapolis com uma literalidade quase absurda. Em dezembro de 1953, no auge do poder, demitiu-se do governo e da Knesset e foi viver para uma cabana no kibutz de Sde Boker, no deserto do Negev, para dar pessoalmente o exemplo que andava a pedir aos outros. Voltou em 1955 quando o chamaram, e voltou para a cabana quando acabou.

A África do Sul de 1994 é o caso mais improvável de todos. Um homem que passou vinte e sete anos na prisão saiu para negociar com quem o tinha prendido, ganhou a eleição, governou um mandato e foi-se embora. Mandela podia ter ficado o tempo que quisesse e ninguém lho contestaria; poucos dos seus contemporâneos no continente resistiram a essa tentação. Cumpriu cinco anos e entregou o lugar. É o Cincinato mais limpo do século XX, e é uma das razões pelas quais a África do Sul, com tudo o que correu mal desde então, ainda tem eleições.

E a Índia. Gandhi nunca ocupou cargo nenhum — nem primeiro-ministro, nem ministro, nem deputado — e foi a maior autoridade moral do seu século. À volta dele havia uma bancada extraordinária: Nehru, que passou cerca de nove anos em prisões britânicas antes de governar; Patel, que integrou mais de quinhentos principados numa república em pouco mais de um ano; Ambedkar, nascido intocável, doutorado em Columbia e na London School of Economics, que redigiu a constituição do país que o tinha tratado como impuro.

Em todos estes casos reaparecem, com combinações diferentes, quatro ingredientes: formação ou realização fora da política profissional, risco elevado, redes relativamente pequenas capazes de impor reputação e um horizonte temporal medido em décadas. O fenómeno dos pais fundadores não é apenas excecionalismo americano. Há uma receita reconhecível — imperfeita, perigosa em alguns contextos, mas legível.

Onde a política é aborrecida

As bancadas fundadoras foram convocadas pela crise. Há uma segunda prova do argumento, mais suave, nos sítios onde a política foi deliberadamente tornada pequena ou tecnicamente exigente. A Suíça é governada por um Conselho Federal de sete membros eleito pelo parlamento, sob uma presidência anual de baixa teatralidade. Boa parte do parlamento funciona segundo o princípio de milícia, com deputados que mantêm atividades profissionais, e o referendo limita a capacidade de transformar cada eleição numa autorização para grandes gestos. O prémio simbólico da política suíça é deliberadamente reduzido: pouca glória, poder repartido, muita administração. Singapura chegou a um resultado parcialmente semelhante pelo caminho oposto: um Estado forte, ministros recrutados também fora da política e remunerações desenhadas para competir com carreiras privadas de topo. A ressalva é essencial: Singapura restringiu a competição política de formas que uma democracia liberal não deve importar. Mas a lição comum sobrevive. Quanto menos o cargo funcionar como palco e quanto mais funcionar como responsabilidade concreta, mais provável é atrair construtores e não apenas atores.

O programa: mudar os preços

Não se pode legislar carácter. Pode-se, no entanto, alterar os preços que a máquina de seleção cobra e paga, e deixar que a composição dos candidatos mude. Cinco alavancas, por ordem decrescente de confiança.

Primeira, encolher o prémio. Quanto mais poder discricionário e renda extraível estiverem ligados ao cargo, mais o cargo atrai caçadores de rendas. Cada regime de licenciamento convertido em regra automática, cada subsídio discricionário abolido, é uma melhoria não só na conduta como no recrutamento, porque baixa o retorno do cargo exatamente para as pessoas que se quer desencorajar. É o argumento da corrupção aplicado uma etapa antes, no ponto de entrada.

Segunda, corrigir a economia do recrutamento. Aqui a evidência é real: uma experiência de campo de Dal Bó, Finan e Rossi mostrou que oferecer salários mais altos em concursos para a função pública mexicana atraía candidatos mensuravelmente mais inteligentes e mais motivados — melhores pessoas, não pessoas mais gananciosas — e Singapura faz a mesma aposta à escala nacional há décadas, indexando os salários ministeriais aos topos do setor privado, de modo que a comparação na cabeça de um talentoso de quarenta anos seja ministro ou sócio-gerente, e não assessor ou lobista. Pagar a sério, recrutar lateralmente, e tratar a realização pré-política como requisito e não como curiosidade.

Terceira, restaurar a revisão pelos pares. Algures no circuito, pessoas que efetivamente trabalharam com um candidato — que o viram cansado, contrariado e tentado — têm de ter poder real de veto. Os partidos já fizeram isto. Alguma coisa tem de o voltar a fazer. Confiança elevada quanto ao diagnóstico, baixa quanto à política de o implementar, já que exige que a corporação se desarme a si própria.

Quarta, repor risco — mas risco ligado ao desempenho. Objetivos públicos quando forem mensuráveis, avaliação séria, transparência sobre resultados e consequências políticas reais para falhanços demonstráveis. A aposta deve estar no que o titular controla. Um sistema que impõe risco aleatório seleciona os prudentes para fora; um sistema que liga risco a decisões e resultados filtra melhor os frívolos.

Quinta, as variáveis lentas: a fama e a formação. Uma sociedade tem os líderes que celebra. O motor de Adair só funciona se a plateia estimar construtores acima de atores, o que faz da cultura da biografia, dos exemplos, de quem recebe as estátuas e os documentários, um fator de produção da oferta de estadistas e não uma decoração. Plutarco não era entretenimento, era infraestrutura. E a formação acontece em instituições a montante da política: escolas que ensinam por realização real em vez de por obediência produzem pessoas com alguma coisa no seu nome antes dos quarenta, que é a matéria-prima a partir da qual tudo o resto seleciona.

O caso português

Portugal importou o funil completo, com aperfeiçoamentos locais.

Antes dos mecanismos, o produto. O maior problema da política portuguesa não me parece ser a corrupção, que é episódica, nem sequer a incompetência, que varia. É a escassez de convicção visível. Trinta anos de funil deixaram-nos demasiados dirigentes que atravessam uma carreira inteira sem uma posição pela qual tenham pago um preço identificável. Respondem com a versão da resposta que ofende menos gente; tratam a distância entre o que disseram há cinco anos e o que dizem hoje como um problema de arquivo, não de carácter. Chamo-lhes “pessoas sem alma” num sentido deliberadamente técnico, não teológico: falta-lhes uma coisa interior que decida quando o cálculo exterior deixa de dar resposta.

São os pragmáticos do focus group e da sondagem relâmpago. Não a sondagem como informação — legítima e útil — mas a sondagem como substituto de opinião. Mede-se o que o público já pensa, devolve-se-lhe isso em forma de convicção e chama-se-lhe escutar o país. O produto não é um governante com posições; é um governante com leituras. O eleitorado percebe a diferença. Daqui não vem toda a abstenção, obviamente, mas vem parte do cinismo que a alimenta. E daqui vem também o prémio de mercado de quem diz seja o que for com convicção reconhecível, incluindo coisas terríveis. Um sistema que seleciona durante décadas contra convicções custosas acaba, mais cedo ou mais tarde, a comprá-las a quem as vende mais barato.

Comece-se pela demolição da revisão pelos pares. Os partidos portugueses adotaram eleições diretas dos líderes, apresentadas como democratização, e ganharam participação formal dos militantes à custa de parte do filtro interno. Os líderes passaram a depender mais da capacidade de mobilizar uma plateia partidária e menos do julgamento acumulado dos colegas que os viram negociar, administrar, hesitar, falhar e recuperar. O problema não é dar voz aos militantes. É confundir popularidade interna com avaliação integral de capacidade.

Veja-se a primavera de 2026. Luís Montenegro antecipou as diretas do PSD para maio e desafiou publicamente Pedro Passos Coelho a candidatar-se; Passos recusou. Montenegro foi reeleito com 94,8 por cento dos votos expressos. Votaram 15 261 dos 56 868 militantes inscritos — menos de 27 por cento. Um concurso de popularidade precisa pelo menos de plateia. Aquilo foi uma aclamação numa sala quase vazia. Chamar a isto, sem mais, um triunfo da democratização é abuso de linguagem.

Segundo aperfeiçoamento: a proctologia da candidatura. A imprensa portuguesa aperfeiçoou um exame em que cada multa, cada opinião de juventude e cada negócio de cada familiar podem ser escavados e amplificados, de tal modo que o preço esperado de entrar na vida pública, para quem efetivamente viveu uma vida, é o desmembramento público dessa vida. Este escrutínio tem uma função democrática indispensável; o problema começa quando deixa de distinguir conflito de interesses de biografia, abuso de erro, matéria pública de intimidade irrelevante. As pessoas que um escrutínio indiscriminado afasta são precisamente as que têm carreiras, reputações, famílias e património a perder. As que menos afasta são as que fizeram da política a vida inteira. Seleção adversa, outra vez, agora com iluminação de estúdio.

O caso Spinumviva é uma demonstração quase de laboratório. Luís Montenegro tinha criado, em 2021, no intervalo entre a liderança parlamentar e o regresso ao poder, uma sociedade de consultoria. Em março de 2025, uma crise política centrada nessa empresa e nos seus clientes culminou numa moção de confiança derrotada por 137 votos contra 87 e na queda do Governo ao fim de pouco mais de um ano. A concessão é obrigatória: havia uma questão real de conflito de interesses, e a comunicação do caso foi mal conduzida. Nada disso deve ser varrido para debaixo do tapete. Mas olhe-se também para o incentivo que o episódio envia a quem pondera entrar na política depois de uma carreira privada: ter construído alguma coisa cria superfícies de ataque que um currículo inteiramente partidário não cria. A resposta não pode ser menos escrutínio. Tem de ser escrutínio melhor, capaz de distinguir experiência relevante de conflito real.

Terceiro aperfeiçoamento: o risco existe, mas nem sempre está ligado ao desempenho. Em novembro de 2023 caiu um governo de maioria absoluta na sequência de uma investigação do Ministério Público. António Costa demitiu-se; não chegou a ser constituído arguido nesse processo e a dimensão que lhe dizia respeito foi separada. Sem tomar posição sobre a culpa de ninguém, o episódio expõe um problema de seleção: o risco reputacional da vida pública pode ser enorme muito antes de existir uma decisão judicial. O risco próprio filtra os frívolos quando a penalização acompanha conduta demonstrada. Quando o risco é longo, difuso e imprevisível, pode filtrar sobretudo os prudentes — precisamente aqueles que têm alternativas fora da política.

Quarto: paga-se mal, e paga-se mal da maneira errada. As remunerações de topo da hierarquia política portuguesa são elevadas face ao salário médio nacional, mas baixas face ao que profissionais com experiência comparável podem ganhar em carreiras privadas de elevada responsabilidade. O ponto não é decidir quanto “merece” ganhar um ministro. É perceber que o salário é também uma variável de recrutamento. Se o diferencial para o setor privado for muito grande, funciona como um imposto seletivo sobre quem tem melhores alternativas. A discussão pública costuma ser enquadrada como justiça distributiva; devia ser também tratada como engenharia de seleção: quem é que aparece a este preço?

Quinto: a lei tributa a entrada e a saída. O regime de incompatibilidades e transparência exige, justificadamente, exclusividade em muitos cargos, declaração de património e interesses e restrições a certas atividades. Essas regras protegem o Estado; ao mesmo tempo, os seus custos recaem mais sobre quem chega com património, empresas ou carreiras complexas. Do outro lado, existem limitações pós-mandato destinadas a impedir portas giratórias. Também são necessárias. O problema é de desenho: impedir captura sem tornar o regresso à vida civil uma penitência. A própria lei portuguesa contém exceções para o regresso à atividade anterior; a cultura pública é menos subtil. Um antigo governante pode ser tratado durante anos como suspeito por definição, o que empurra demasiada gente para o único mercado de trabalho em que o passado político é ativo em vez de passivo: o próprio ecossistema partidário e público. O circuito de dependência fecha-se onde devia abrir-se.

E quando a porta de saída existe, muitas vezes não aponta para Mount Vernon. Aponta para outra instituição pública. António Costa, que saiu do Governo em novembro de 2023, preside hoje ao Conselho Europeu. Durão Barroso deixou o cargo de primeiro-ministro em 2004 para presidir à Comissão Europeia. António Guterres é um caso diferente — saiu por iniciativa própria em 2001 e seguiu uma carreira internacional humanitária e diplomática — mas também nunca regressou verdadeiramente à vida civil portuguesa. O problema não é a legitimidade dessas funções, nem o mérito de quem as ocupa. É o padrão de carreira que comunicam. Uma sociedade que quer que os seus líderes tratem o poder como uma estação da vida tem de tornar o regresso à vida comum normal, honroso e profissionalmente viável. Portugal construiu demasiadas escadas rolantes e poucas estradas de volta.

O nosso Mount Vernon

Portugal produziu, nas últimas décadas, pelo menos um exemplar muito nítido do tipo de trajetória que este ensaio procura: alguém que chegou ao poder numa hora difícil, pagou o preço político do que julgava necessário e, depois, mostrou capacidade real de sair do circuito.

Pedro Passos Coelho recebeu o governo em junho de 2011, semanas depois do pedido de assistência financeira externa e no meio de uma crise soberana severa. Foi escolhido na hora difícil, quando o cargo era visivelmente um castigo antes de ser um prémio. Executou o ajustamento sabendo o preço eleitoral e pagou-o sem grande autocomiseração pública.

A objeção óbvia é séria e não a vou contornar. Washington desceu de uma montanha que ainda era dele: a guerra ganha, o exército a adorá-lo, o poder inteiro na mão e ninguém em posição de lho tirar. Passos saiu a perder. Ganhou as legislativas de 2015 em votos e em mandatos, foi impedido de governar por uma maioria parlamentar de sinal contrário, e deixou a liderança do PSD em janeiro de 2018 com a posição interna gasta e uma derrota autárquica em cima. Ninguém abdica de uma montanha que já lhe foi retirada.

Concedido. Mas o teste de Annapolis não está apenas no momento da saída; está no que se faz com o capital que sobra. E é aí que a analogia aguenta melhor o peso. Um antigo primeiro-ministro português conserva visibilidade, redes e oportunidades consideráveis. Passos Coelho voltou às aulas e à vida privada. Resistiu a sucessivos apelos para regressar à primeira linha e, na primavera de 2026, recusou a disputa interna para a qual o calendário do próprio partido tinha sido antecipado. Cada recusa deixa no chão uma opção que um profissional do ramo teria fortes incentivos para agarrar. É uma definição operacional de independência: ter meios para dizer não — e usá-los.

Concorde-se ou discorde-se das suas políticas; não é essa a questão. O que importa aqui é a trajetória: serviço numa hora de necessidade, seguido de capacidade para sair sem procurar imediatamente a posição seguinte. É, na democracia portuguesa recente, uma aproximação reconhecível ao regresso a Mount Vernon. Que a cultura política trate essa trajetória como excentricidade em vez de padrão diz muito sobre a inversão do funil. E o facto de ela existir demonstra que a oferta não desapareceu; está apenas mal servida pela máquina de seleção.

Há outro dado de 2026 que devia interessar aos pessimistas. António José Seguro é, no percurso até 2014, um produto quase puro da carreira partidária: militante do PS muito jovem, líder da Juventude Socialista, secretário de Estado, deputado, eurodeputado, ministro, líder parlamentar, secretário-geral. Nada nessa lista é Cincinato. O que o distingue é o que aconteceu depois de perder as primárias de 2014: saiu. Passou cerca de uma década fora da primeira linha política, a dar aulas e a desenvolver atividade privada, e regressou para ganhar Belém com 66,84 por cento dos votos válidos na segunda volta. A ausência tornou-se parte do argumento eleitoral. Isto é um sinal de mercado: existe procura por pessoas que demonstram ter vida fora do circuito. O problema continua a estar na oferta e nos filtros que a moldam.

A primeira volta de 2026 acrescenta informação na mesma direção, embora não prove sozinha a tese. Henrique Gouveia e Melo, um oficial de marinha com historial executivo muito visível, obteve 12,32 por cento. João Cotrim de Figueiredo, que entrou na política depois de uma longa carreira de gestão, teve 16,01 por cento. Luís Marques Mendes, com décadas de percurso partidário e comentário televisivo, ficou nos 11,30 por cento. André Ventura, o candidato mais adaptado à lógica de mobilização e confronto, chegou à segunda volta com 23,52 por cento. É tentador somar “construtores” contra “atores”, mas isso seria transformar uma eleição complexa num teste de laboratório que ela não é. A leitura mais prudente — e ainda assim relevante — é que o eleitorado português não rejeita perfis vindos de fora da carreira partidária. Há mercado para eles.

Falta a fatura da ágora estilhaçada, que Portugal recebeu com atraso e está a pagar depressa. O Chega passou de um deputado em 2019 para doze em 2022, cinquenta em 2024 e sessenta em 2025, tornando-se a principal força da oposição. Explicar esta ascensão exige olhar para o conteúdo do partido, para o descontentamento que o alimenta e também para a fábrica mediática em que compete. Feed personalizado, política de tema único, guardiões enfraquecidos e um eleitorado cansado de variações do mesmo currículo criam condições especialmente favoráveis a quem domina a política como espetáculo. A tecnologia não explica tudo. Mas altera decisivamente a função de produção do sucesso político.

Duas reparações decorrem diretamente das metades de Singapura e de Mount Vernon deste ensaio. Primeiro, pagar de forma suficientemente competitiva para que a comparação na cabeça de um profissional talentoso de quarenta anos deixe de ser absurda. Segundo, construir a estrada de regresso: o cavalgar de Washington para casa exigia que houvesse uma Mount Vernon para onde regressar. Nenhuma medida é popular. Ambas são relativamente baratas. E ambas atuam exatamente onde o problema começa: na entrada e na saída, não apenas no exercício do cargo.

A necessidade, o último selecionador

Falta um resíduo, e tem de ser dito sem verniz, porque é a força mais consistente do registo histórico e a menos confortável: a necessidade. Quase todas as bancadas fundadoras deste ensaio foram convocadas por risco existencial — guerra de independência, navios negros na baía, um continente em escombros, expulsão para a soberania, um tesouro em cessação de pagamentos. A crise faz uma triagem que o conforto raramente faz. Expulsa alguns frívolos, traz para a política pessoas que vieram fazer alguma coisa em vez de ser alguma coisa e alonga o horizonte temporal porque a sobrevivência o exige. Isto não significa que a crise produza automaticamente grandes líderes; produz também demagogos e tiranos. A conclusão não é desejar a catástrofe. É não desperdiçar as crises que chegam sozinhas, porque elas suspendem por momentos as regras normais de admissão da corporação. E, entretanto, construir as alavancas anteriores para que o circuito não seja ativamente hostil às pessoas de que uma sociedade precisará quando chegar a hora séria.

A lição mais profunda dos Fundadores está na combinação que costuma ser citada pela metade: desenhar instituições para sobreviver aos patifes, educar cidadãos para admirar os heróis e manter o preço da virtude suficientemente baixo para que a ambição vulgar o consiga pagar. O regresso de Washington a Mount Vernon parece um milagre de carácter, e em parte foi. Mas foi também o produto de uma cultura que passara décadas a dizer ao seu homem mais ambicioso qual era o gesto que o tornaria imortal. Acertem-se os preços. Encha-se a biblioteca de exemplos. Construa-se uma estrada de entrada para quem já fez alguma coisa e uma estrada de saída para quem acabou de servir. Quando a hora séria chegar — chega sempre — as pessoas sérias têm de estar localizáveis. Isto não é otimismo. É aprovisionamento.