As perguntas são muitas: porquê agora? Há música nova a caminho? É a celebração antecipada dos 30 anos do álbum Sem Cerimónias (de 1997)? É o regresso dos Mind da Gap? A resposta é mais simples do que todas aquelas que podíamos ponderar. “Passámos muitos anos a tocar juntos e as coisas saem naturalmente. Dá uma certa pica relembrarmos como era. Isso basta-nos”, explica Serial ao Observador.
Estamos no terceiro e último dia do Festival F — a 11.ª edição realizou-se em Faro de 3 a 5 de setembro — e a formação do Porto atua encaixada entre Maninho e Branko. Se a sequência segue o mesmo género de música? Não, mas isso pouco lhes importa. “Alguém aqui [na organização] pensou: ‘Vamos lá buscar estes gajos que eles até eram fixes’. Ficamos contentes por isso”, diz Ace.
Aceitam pela facilidade com que voltam a entrar neste mundo e porque, acima de tudo, lhes dá gozo. “Em alguns aspetos, acho que conseguimos aproveitar melhor do que há 20 ou 30 anos”, diz Serial. Ainda assim, há um misto de adrenalina e saudosismo. “Isto era tão bom e, ao mesmo tempo, a certa altura deixou de ser”, explica Ace.
A banda separou-se em 2016, cerca de duas décadas depois de terem ajudado a colocar o hip hop português no mapa da música, reunindo-se apenas pontualmente desde então (em 2024 no festival Super Bock Super Rock e em 2025 no evento Música no Jardim do Morro). Este é o primeiro concerto de 2026 (segue-se uma atuação no festival Iminente, em Lisboa, a 17 de setembro). Não há mais datas agendadas, eles também não as procuram. Se surgirem convites, ótimo. Se não surgirem, ótimo também.
Têm falado em criar música nova, mas falta “o clique”, justifica Ace. “Quando tiver de acontecer, se tiver de acontecer, assim será”, garante Serial. Paralelamente, cada um tem a sua carreira, embora sejam vagos nos detalhes. “É a vidinha normal”, diz Ace.
Porém, apesar de não fazer isto com a frequência de outros tempos, não se esqueceu da disciplina. Às 16h está pronto para o soundcheck, gosta de ser pontual. Ainda há cabos a serem ligados, colunas a serem posicionadas e ecrãs a serem testados, portanto só 22 minutos depois é que Ace e Serial começam os respetivos testes. O primeiro alinha as rimas que o tornaram conhecido, num jogo de memória que parece feito sem grande esforço; o segundo instala-se atrás do computador portátil e da mesa de mistura, em cima de uma placa elevada que lhe dará destaque durante toda a atuação. Falta Presto, que, a esta hora, está a regressar das férias em família nos Açores. Estará presente a horas para que a formação de sempre (os rappers Ace e Presto e o produtor Serial) se apresente exatamente como começou.




Depois dos ajustes, pausas e repetições, os testes de som estão despachados para que os músicos possam fugir do calor. Fizeram dois ou três ensaios antes da data só para refrescar a matéria e encaram o resto com a descontração e a serenidade que ganharam com a idade. “Para variar um pouco, até vamos introduzir no alinhamento músicas que não temos tocado nos últimos tempos”, adianta Ace.
Embora queiram agradar aos fãs, o músico admite que já só pretendem fazer o que lhes apetece, até porque tem outra teoria para explicar a atualidade dos Mind da Gap. “‘Quem não aparece, esquece.’ Já diziam a minha mãe e a minha avó.”
Não o diz com amargura, é apenas uma fatalidade, garante. “Acho que as pessoas desistiram, já passou muito tempo. Acredito que na playlist diária de alguns possa estar uma música nossa, mas não sentem necessidade de nos mandar mensagens a perguntar quando regressamos.”
Talvez não seja, então, boa ideia ir até à vedação que separa os camarins do resto do recinto 15 minutos antes de começar o concerto espreitar o ambiente. O Largo da Sé está praticamente deserto, mas se há coisa que este espaço já provou é que tem o dom de encher-se e esvaziar-se em poucos minutos. O fenómeno repetiu-se ao longo do Festival F com Chico da Tina, HMB, Branko ou Clã e acontece de novo na noite deste sábado, 5 de setembro. A esta hora, Ace ainda não sabe, mas os fãs mais antigos de Mind da Gap ou novas aquisições vão manter-se firmes durante 1h20 e a praça só voltará a esvaziar-se quando as luzes do palco se apagarem.
Ace tem a roupa impecavelmente engomada e a condizer. A T-shirt e os ténis são brancos, as calças e o chapéu são bege — no armário ficaram as meias que exibiam FC Porto que tinha durante a tarde. Anda de um lado para o outro, olha-se ao espelho, procura a toalha branca que terá sempre por perto durante a atuação. “Pede ao Vasco e ele diz-te se a toalha é minha ou não”, diz a um membro da equipa técnica.
Vasco Ferreira é o agente. Anda escada abaixo e escada acima em velocidade cada vez mais acelerada — ele será também o membro mais alerta durante todo o concerto, pedindo para aumentar volumes de som, repondo bebidas ou qualquer outra coisa que ajude os seus músicos a preocuparem-se apenas com a atuação.
Ace coloca os auriculares ainda no camarim. Junto dele já está Presto. Está vestido com uma camisa de manga curta com riscas azuis, calções e boné — roupa de férias, portanto, ou de alguém que continua tão descontraído como quando tinha 20 anos.
“Dois minutos, prepara-os aí”, grita Vasco a alguém enquanto sobe novamente as escadas. A pessoa desconhecida responde: “Vamos começar a horas? Isso é que é de valor.”
No exterior do camarim — um pré-fabricado com uma mesa, cadeiras, petiscos, bebidas, um espelho e, mais importante, ar condicionado —, Serial passa os últimos minutos com a mulher, a quem beija carinhosamente a mão antes de se dirigir para as escadas que dão acesso ao palco. Ele é o primeiro a subir, posicionando-se no nível mais elevado ao fundo do palco às 23h02 e lançando a introdução. Ace e Presto trocam algumas palavras impercetíveis antes de subirem até ao topo da escada. Aí, cada um com uma toalha ao ombro, recebe o respetivo microfone. Dão um aperto de mãos informal, encostam ombro com ombro e avançam. Que comece o reencontro dos Mind da Gap.
Pioneiros de uma geração
Foi em 1993 que três jovens portuenses — Nuno Carneiro (Ace), Hugo Piteira (Presto) e Rolando Sá (Serial) — que ouviam sonoridades de nicho se juntaram e começaram a fazer música. Inicialmente tinham um nome que, perceberam rapidamente, ninguém conseguia pronunciar. Os Da Wreckaz deram lugar aos Mind da Gap e o resto, como costuma dizer-se, é história. “Éramos completamente maluquinhos por hip hop, mas éramos poucos”, diz Ace.
Ouviam nomes internacionais porque era o que existia e, certo dia, de passagem pela loja de música BimotorDJ, Serial percebeu que estava outro jovem a ouvir o mesmo que ele. “Lembro-me de o ver sentado no chão e de pensar: quem é este gajo?” Acabariam por conhecer-se mais tarde por intermédio de Presto. “Vivíamos no nosso mundinho, muito fechadinho, mas também muito fixe. Era a nossa cena.”
Sabem que surgiram numa era em que o hip hop era olhado de lado e não tinha praticamente espaço no panorama nacional. “É verdade que foi um tempo ingrato, mas quando as coisas são ingratas, por vezes recompensam de outra forma”, considera Serial.
“Aparecemos numa altura em que pouco havia, criámos muitas coisas, inovámos e apresentámos muitas coisas à música nacional, não só ao rap. Apresentámos um estilo próprio”, recorda Ace.
O rap era visto como uma espécie de brincadeira e os Mind da Gap revolucionaram essa ideia, explicam. “De alguma forma, profissionalizámos a coisa. Fomos dos primeiros. Os Da Weasel já andavam no circuito, faziam concertos grandes, mas nós éramos puros — puros no sentido de não ter guitarra, não ter bateria”, diz Ace.


Na altura, o hip hop português estava numa fase embrionária ou ainda inexistente. Garantem que olhavam para eles como se fossem aliens, mas os três sabiam que o que estavam a experimentar fazia todo o sentido. Serial tinha então uma loja de roupa — “hoje chama-se streetwear, mas aí não tinha nome, era roupa para malta que gostava de rap”, descreve Ace — e foi precisamente aí que o músico encontrou Serial a trabalhar em Piu-Piu-Piu.
“Tinha o material todo montado no balcão, lembro-me perfeitamente. E essa foi a primeira música totalmente nossa, gravada por nós.” Enviaram a maquete para o Repto, programa da Antena 3, e o tema foi um sucesso imediato.
Nessa cassete seguia também outra faixa, Tá-se Mal. É precisamente essa que raramente tocam ao vivo, mas que ali, naquela noite, tem espaço no alinhamento. Chega depois de Mestres sem Cerimónias e Falsos Amigos. Os primeiros temas são uma espécie de aquecimento. Serial comunica por gestos à equipa um problema com o som. A simbologia é rapidamente descodificada e em dois minutos sai de um caixote uma nova coluna que lhe é instalada aos pés. És Como um Don e Bazamos ou Ficamos, dois dos grandes sucessos dos Mind da Gap, dão uma ajuda para que isso aconteça. O chapéu de Ace já foi à vida e, de repente, estamos todos novamente em 2002, mergulhados no álbum Suspeitos do Costume — o terceiro de originais, depois de Sem Cerimónias (1997) e A Verdade (2000).
“Bazamos ou ficamos?”, pergunta Ace à praça, que lhe responde com muitos aplausos. Os telefones ligam-se para gravar Dedicatória e Presto tem um pedido: “Vocês [cantem] também”. O público canta o refrão à capela. Aliás, não há pedido a que não acedam. “Quando eu disser hip, toda a gente diz hop!”
Quando, nos anos 90, começaram a ganhar dinheiro com concertos, não iam além dos cinco contos. “Era uma porcaria, mas na altura era o que havia”, conta Ace. A verdade é que nunca conseguiram viver só da música. Hoje, dizem, seria diferente. “Basta olhar para os cabeças de cartaz dos festivais, o hip hop é mainstream” — na última noite do Festival F também há espaço para Papillon e Slow J. Recuando 30 anos, a realidade era bem diferente. “Era só rock. Uma vez tocámos no festival da ilha do Ermal e éramos a única banda de rap. No meio de Marilyn Manson, Moonspell e Mão Morta”, recorda Serial. “Foi engraçado porque não tínhamos nada a ver com aquilo, mas as pessoas curtiram.”
Na verdade, toda a gente “curtia” Mind da Gap, dos rockeiros aos metaleiros, havia uma certa simpatia generalizada por este trio que estava a fazer algo inovador e refrescante. Mais recentemente, já tiveram miúdos a dizerem-lhes que os ouvem por causa dos pais, mas garantem que a maioria dos jovens que hoje consome hip hop não conhece os Mind da Gap. “Os miúdos entre os 15 e os 19 anos não fazem ideia de quem somos. Se nem o Sam the Kid, que é um tipo consensual, conhecem…”
Há (pelo menos) uma prova do contrário no meio do público. Francisco veio com o filho, outro Francisco, mas houve alguma negociação prévia. O primeiro queria ver Mind da Gap, o segundo Slow J. Não estavam, portanto, em desacordo quanto ao dia e os horários não se sobrepunham, mas decidiram fazer uma espécie de jogo. “Ele fez-me uma playlist do Slow J e eu mostrei-lhe o que ouvia quando tinha a idade dele”, conta o pai. O caminho do filho levou-o um pouco mais longe: “Depois dos Mind da Gap, pus-me a ouvir Da Weasel e Sam the Kid.”
O alinhamento inclui Estilo Clássico, Socializar e Essência. Raquel Matos Pinto ainda sabe de cor a letra de Jardim. “Quando tinha 15 anos ouvia Mind da Gap, hoje ouço Carminho [que atuou no palco Ria, o principal, menos de duas horas antes]. A métrica é mais fácil de acompanhar, já não tenho estaleca para o rap”, confessa. Mais atrás, Cátia Sales dança e canta como se tivesse crescido ao som de És Onde Eu Quero Estar. Só que tem apenas 21 anos. “O meu irmão é 18 anos mais velho do que eu. Quando era mais nova, fez-me uma lavagem cerebral para me obrigar a ‘gostar de música como deve ser’, dizia ele. Houve coisas que ficaram.” Já fez vários vídeos que irão todos para ele, claro.
Lá à frente estão quatro homens na casa dos 40 anos, um deles com uma criança às cavalitas. Ela não conhece as letras, mas os adultos agitam as mãos com os dedos do meio e anelar recolhidos enquanto cantam Não Stresses e o miúdo copia.


“Tá tudo connosco ou quê?”, pergunta Ace com um sotaque portuense cerrado. A toalha já está na cabeça quando começa Invicta. Não podemos julgar, é meia-noite, ainda estão 24 graus e ele já debitou quase tantas palavras por segundo quadrado quantas aquelas que cabem neste texto.
“Curiosamente, está cá uma pessoa que me ligou a dizer que esta era uma das músicas mais bonitas dedicadas a uma cidade.”
O enigma é desfeito segundos depois quando Valete surge em palco perante os gritos de surpresa de quem está encostado às grades. A festa faz-se com Não Pára, tema que lançaram juntos em 2010. “Está à rasca de um dente. Veio cá porque é soldado, soldado do hip hop”, explica Ace na despedida de Valete.
“E agora, para acabar em beleza, quem foi ao ginásio hoje que me perdoe, mas está na hora de ficarmos Todos Gordos”, grita Ace.
É o fim perfeito para um concerto esticado (mais do que a uma hora que tem sido habitual), onde o público mostrou aos Mind da Gap que estão convidados a voltar, sempre que quiserem.