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(A) :: Amor aos livros e tempos difíceis

Amor aos livros e tempos difíceis

O quarto livro de Maggie Tokuda-Hall, com ilustrações de Yas Imamura, faz-se de beleza lírica, mas também de um desnecessário manifesto político e ideológico.

Vasco Rosa
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Serei seguramente a última pessoa a desacreditar que entre bibliotecária e leitor se possa construir uma relação íntima que vá muito para lá do ambiente forrado de livros em que ambos passam boa parte do tempo, ou que a paz dum lugar de estudo e leitura constitua uma reserva de silêncio e introspeção quotidiana de grande valor humano, porém difícil de estimar pela larga maioria das pessoas. Vidas assim passadas constituem, na verdade, uma forma de privilégio em qualquer época ou lugar, e certamente mais ainda em situações dramáticas como a do caso verídico que este livro juvenil narra e evoca, ocorrido no campo de detenção de nipo-americanos no deserto do Idaho (Montanhas Rochosas) criado pelo presidente Franklin D. Rossevelt em fevereiro de 1942 — três meses depois do ataque nipónico a Pearl Harbour — e cujos protagonistas são, afinal, nada menos que os avôs maternos da autora, Maggie Tokuda-Hall (1984), que o publicou em 2022.

Este é o seu quarto livro, depois de Also an Octopus (2016), ilustrado por Benji Davies, aliás um artista escritor de eleição para a editora Orfeu Negro, The Mermaid, the Witch, and the Sea (2020) e Squad (2021), ilustrado por Lisa Sterle, indicados ou finalistas de prémios norte-americanos da sua especialidade (Squad recebeu mesmo o Golden Popyy Award for Young Adult, instituído na Califórnia). Em 2025 conseguiu ver finalmente impresso o seu primeiro trabalho, The Worst Ronin, uma novela sobre samurais, violência, ambição e perda que Faith Schaffer ilustrou, dois anos depois de The Siren, the Song, and the Spy — como The Mermaid, the Witch, and the Sea uma narrativa de grande fôlego, dirigida a jovens de 14 anos ou perto disso.

As ilustrações a guache e aguarela de Yas Imamura — uma asiática-americana com trabalhos sobre Antigo Egipto, dinossauros, a artista Yoko Ono (2025) e a astrónoma Cecilia Payne (2026), entre outros — conferem à história de Amor na Biblioteca uma sensível beleza lírica pouco vista entre nós, pela delicadeza seguramente oriental do traço e da expressividade das figuras (particularmente evidente nas cenas de grupo) e da macieza cromática posta na delimitação de objectos e superfícies domésticas, e o texto de Tokuda-Hall é, na generalidade, aquilo que se espera duma narrativa daquela reclusão forçada por condicionantes estranhas ao entendimento de cada um, podendo por isso servir de elogio estratosférico da liberdade de imaginar e sonhar que a leitura de livros proporciona. E todavia tudo o que mais importa para a escritora — um tanto ou quanto inesperadamente, pois se dirige a crianças e jovens novos o suficiente, diria, para serem poupados aos imbróglios dos adultos — são as duas páginas finais duma Nota da Autora que outra coisa não é que um manifesto político e ideológico contra “a supremacia branca” e a “tradição profundamente norte-americana do racismo”, a mesma, insiste ela, que “permite que a polícia assassine pessoas negras, no nosso presente”, numa referência óbvia ao caso George Floyd e ao movimento Black Lives Matter, de maio de 2020. E logo a seguir: “É o mesmo medo que leva à proibição de entrada de muçulmanos. É o mesmo desprezo que cria a supressão de eleitores, a discriminação no acesso a cuidados médicos e os desertos alimentares. A mesma crueldade que sulcou reservas em terras soberanas roubadas […] o ódio […] é uma tradição norte-americana”.

Desconheço — e vontade não tenho de conhecer — se em notas finais deste tipo Maggie Tokuda-Hall martela com idêntica brutalidade a cabeça dos jovens leitores dos seus outros livros, em que o wokismo mais militante de resto prolifera, pelo que nos é dado ler pelas sinopses sobre eles, mas direi que as vedações de arame farpado que ilustram as guardas deste seu Amor na Biblioteca e as torres de vigilância presentes em cinco das vinte e três imagens do livro representam também muito bem o seu modo de pensar e viver, que se a alguns dão agora vontade de rir, na verdade não têm mesmo graça nenhuma. Para a Orfeu Negro, tão investida e fiel ao mesmo diapasão ideológico, estará certamente tudo certo e bem alinhado com a cartilha da última década, mas fica por saber que culpa terão jovens leitores em formação dos delírios dos seus inadvertidos e fanáticos progenitores…