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Nanni Moretti corre pelo Leão com uma paixão protegida pelos astros: "Succederà questa notte"

É a história de uma paixão persistente, um filme obstinado e romanesco, com Louis Garrel e Jasmine Trinca. Dividiu o Lido — mas não foi Moretti sempre assim?

Francisco Ferreira
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O novo Moretti chama-se Succederà questa notte. Franziu alguns sobrolhos em Veneza, cinquenta-cinquenta, dir-se-ía, acredita-se que os engulhos vêm sobretudo da prosa do romancista israelita Eshkol Nevo, muito “alambiqué” (como dizem os franceses) de situações e personagens, tal como já acontecera em Três Andares, a primeira vez que Nanni foi beber àquela fonte. De qualquer modo, uma coisa é a fonte literária, outra o argumento que o cineasta “cozinhou”, novamente com Federica Pontremoli e Valia Santella, a partir de Lev Raev/Hungry Heart, livro de contos de Nevo.

Succederà questa notte, para ir ao osso, é a história de uma paixão persistente que o acaso e os astros vão favorecendo ao longo do tempo: a de Matteo (Louis Garrel), incapaz de esquecer que, certo dia, conheceu Greta (Jasmine Trinca) num court de ténis e perdeu um jogo rápido sem fazer qualquer ponto. Mas ele quer marcar. Depois do 40-0, ela ganhou e virou as costas. Passam sete anos, outros sete, três ainda, Matteo casou e teve um filho, Greta casou e teve uma filha, mas a atracção daqueloutro instante no court não desvanece, por mais tempo que passe, obsessão que colocará estes dois seres a gravitar um no outro. “Esperarei por ti, o tempo que quiseres”, dirá Matteo. Quem disse que Moretti não é romântico?

O argumento é complexo. Só para se dar uma ideia, o filme abre algures em Oslo e com um momento palpitante, tresloucado: uma nora nórdica e grávida esbofeteia a sogra italiana quando esta lhe diz que, em Itália, é que a criança deveria ser educada, junto à família paterna numerosa. A jovem mulher de barriga não tolera a afronta. Matteo ouve a conversa atónito. Nora, sogra, assim como a criança que ainda não nasceu são personagens muito secundárias nesta história. Pois voltarão ao filme, uns bons 80 minutos depois, para momento marcante. Num filme construido de acasos, nada ao acaso é deixado.

Com os anos aprendemos que, no caso de Moretti, é preciso dar tempo ao tempo, ver duas vezes, para apreciar com razão a textura da filigrana, porque o cineasta é profundo nos sentimentos, nas histórias de amor, de traição e de abandono, nos laços entre pais e filhos que nos acompanham toda a vida. Matteo e Greta equacionam se vale ou não a pena destruirem duas famílias. Mesmo inspirado num romancista que não temos na cabeceira, há que contar com Nanni. Mesmo perante um filme em três línguas, com intérpretes de diferentes nacionalidades (como na cena da estalada), há que contar com Nanni. E há o humor, pois claro: “não é o viagra a maior invenção do homem depois da guitarra eléctrica?”

O filme dividiu Veneza, sim, mas há cenas óptimas em Succederà questa notte. Notáveis, mesmo. Já estão na mala, vão para casa. Louis Garrel (o filho) e Hippolyte Girardot (pai) no Anoeta de San Sebastián (o estádio da Real Sociedad) a ver um concerto de Springsteen. Quando Nanni voltar a dar entrevistas (recusou todas, não está em forma), explicará ao certo como chegou a este achado. Jasmine Trinca, disfarçada de velhinha num filme dentro do filme, à procura da filha menor. A hesitação entre um disco de Pink Floyd e outro de Radiohead, seguido de momento de dança que vai para a série de antologia de Veneza 2026  — e o que se ouve, o que eles dançam, é She’s a Rainbow, dos Stones (colheita do Their Satanic Majesties Request). Ou a cena de sexo entre Matteo e Greta após tanta espera — tão comovente, tão difícil falar dela por palavras, é belíssima.

Moretti, de 73 anos, não vinha à Mostra desde 1989 e da tumultuosa estreia de Palombella Rossa (então afastado da Competição, encostado à Semana da Crítica — o realizador não gostou e nunca mais voltou, até hoje). Em Veneza, Nanni disse que, há muitos anos, inventou uma frase um pouco parva, mas que é muito útil em entrevistas e conferências de imprensa: “Gostaria de fazer sempre o mesmo filme, só que melhor…” Depois esclareceu: “Significa isso que o tempo passa? Não. Enfim, não quero fazer sempre o mesmo filme e, por isso, desta vez (…) imaginámos uma história de amor.”

“Estávamos perante uma escolha bastante óbvia quando se adapta uma colectânea de histórias, de contos: ou fazer um filme coral, ou encontrar uma única história que tivesse força suficiente para se transformar num filme”, continuou. “Na realidade, não fizemos nem uma coisa nem outra. A grande liberdade que nos concedemos foi a de identificar temas, mas também cenas ou palavras, em cada um dos contos, para depois tecer uma única história — esta história de amor — na qual se cruzam todos os temas do livro. Assim, o coração do livro, que é precisamente a ideia de ligação, os laços entre as pessoas, permanece.”

Moretti e Veneza: as pazes estão feitas. A presidir ao júri, está a norte-americana Maggie Gyllenhaal. Intuição nossa, só vale o que vale: ela é bem capaz de gostar desta história.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.