Já não sou de esquerda há mais de vinte anos mas continuo a amar os intelectuais de esquerda originais (também não sou propriamente de direita mas essa é outra história). Porquê? Porque os intelectuais de esquerda originais odeiam intelectuais de esquerda.
Numa história que é cheia de curvas e contracurvas, não é irrazoável admitir que os intelectuais de esquerda originais, por muito que criticassem o papel da religião, não conseguiram evitar do cristianismo a influência do auto-ódio. Jesus recomendar que a pessoa “aborrecesse a sua própria vida” encontrou um eco especial nos intelectuais de esquerda originais.
Sim, os intelectuais de esquerda originais podiam malhar em senhores, em patrões, em capitalistas e em opressores no geral, mas nunca se exprimia um ódio tão cristalino nas suas palavras como quando falavam acerca de si mesmos. O intelectual de esquerda original apercebe-se da contradição que é assumir-se como tal. O intelectual de esquerda original quando se olha ao espelho sabe que o herói não é ele; pelo contrário.
Os exemplos são tantos que vou cingir-me a três que me são queridos. Nos últimos tempos tenho-me dedicado a ler mais o Theodor Adorno. Em “Minima Moralia” ele escreve assim: “o facto de os intelectuais serem, ao mesmo tempo, beneficiários de uma sociedade má e, ainda assim, serem aqueles de cujo trabalho socialmente inútil depende em grande parte a emancipação de uma sociedade da utilidade — esta não é uma contradição aceitável de uma vez por todas e, portanto, irrelevante. É, antes, o próprio elemento em que os intelectuais vivem. Tudo o que o intelectual faz é errado”. Adorno compreendia que o intelectual de esquerda está sempre feito: não tem como orgulhar-se em ser intelectual de esquerda.
O segundo exemplo é o Slavoj Žižek. No caso dele, é difícil escolher só uma citação. Sucintamente, Žižek sabe que a maior ironia é que, para se poder fazer críticas radicais, é necessário ocupar uma posição de privilégio: “o que odeio nestes académicos liberais, pseudo-esquerdistas e de alma bela é que fazem o que fazem plenamente conscientes de que outra pessoa fará o trabalho por eles” (“Conversations with Žižek”). Apesar de estar ainda bem vivo, Žižek herdou dos intelectuais de esquerda originais o ódio aos intelectuais de esquerda.
O terceiro exemplo, e mais do meu coração, é cinematográfico: num dos melhores filmes de sempre, João César Monteiro é em “Recordações da Casa Amarela” o João de Deus que vagueia por Lisboa como espécie de profeta louco e mandrião que, ao recusar os ditames de uma vida socialmente responsável, pode ver tudo de fora estando dentro. A determinada altura, passeia-se por um Chiado acabado de arder como se fosse um oficial do exército. Quando a polícia o desmascara, é-lhe perguntado o que faz da vida (Henrique Viana é igualmente excelso na cena). Num dos gestos mais gloriosos do nosso cinema, João de Deus põe um óculo sobre o olho direito e desfere: “sou um intelectual de esquerda”. João César Monteiro herdou dos intelectuais de esquerda originais o ódio ao intelectual de esquerda.
Os intelectuais de esquerda de hoje são uma vergonha porque se amam a si próprios precisamente por serem intelectuais de esquerda. Os intelectuais de esquerda de hoje não percebem nada acerca dos originais e por isso nada lhes resta senão o triste hábito da preservação e da auto-estima. Os intelectuais de esquerda de hoje só sabem rir dos seus inimigos, nunca de si mesmos. Estão completamente arruinados.
Talvez reste às pessoas que não são de esquerda a preservação do melhor que há nos seus intelectuais originais.