Muito se tem falado da data assinalada pelo governo de Giorgia Meloni que comprova o executivo mais longevo desde a fundação da República. Na realidade, é preciso ver que Meloni não é o chefe de governo com mais dias em exercício. Essa putativa distinção cabe a outros antecessores como Giulio Andreotti e Silvio Berlusconi. É verdade que a duração do actual mandato de Meloni não deixa de ser um feito a comemorar numa república marcada pela fugacidade dos seus governos. Porém, as generalizações que têm sido feitas escondem dois factos mais decisivos.
O primeiro é o de que as décadas da democracia-cristã italiana, ainda que caracterizadas por governos de curta duração, foram mais estáveis politicamente do que essa simples aritmética faria supor. Com o domínio do partido da democracia-cristã de De Gasperi, Fanfani, Andreotti e Moro – por vias democráticas e outras não-democráticas –, embora a figura do Primeiro Ministro mudasse, muita da estrutura e da agenda dos governos ia permanecendo. Na vertiginosa sucessão de governos, houve mais continuidade do que atribulações ou rupturas. Em retrospectiva, isto é, visto a partir dos três primeiras décadas do século XXI, essa continuidade, com todas as suas patologias, que incluiu corrupção, influências mafiosas e terrorismo de extrema-esquerda, parecem agora uma época de ouro. Não é preciso boa-vontade excessiva para tornar este exercício comparativo lisonjeador para a Itália do pós-II Guerra Mundial – pelo menos até ao início dos anos 90. A Itália dessa época teve crescimento económico sustentado como nunca tivera antes, nem voltou a ter desde então, abrangendo inclusivamente o território a sul deixado para trás nos vários períodos de desenvolvimento económico que elevara o Norte apenas. Construiu uma base industrial exportadora que, em vários sectores, foi a inveja do mundo. Democratizou as estruturas de um Estado democrático moderno – nos cuidados de saúde, nos direitos laborais, no ensino obrigatório e universitário, na descentralização administrativa e política do território. Formou uma classe média numerosa, próspera e com elevadas taxas de poupança e propriedade. A Itália nesse período foi um dos centros mais vibrantes das formas artísticas, culturais e de produção de conteúdos da sociedade tardo-moderna ocidental, no cinema, na literatura, nas artes, nas ciências, mas também na moda, na música ligeira, na invenção de bens de consumo, no design e na publicidade e na concepção de uma gastronomia de requinte universalizável. No plano externo, emancipou-se rapidamente da sombra do fascismo e da derrota na guerra, juntando-se à França e à Alemanha, também elas refundadas depois do trauma da guerra pela democracia-cristã (inteiramente na Alemanha; em parte, com o Gaullismo, em França), para criar a Comunidade Económica Europeia e tornando-se parte imprescindível dela – o que levaria à sua inclusão na primeira vaga de formação do euro no final do século apesar de ser evidente para todos que não cumpria os requisitos de adesão. Juntou-se aos EUA para constituir a NATO no confronto com o comunismo soviético, no quadro de uma dinâmica política sui generis relativamente ao desenvolvimento do seu partido comunista interno e às relações que este manteve com o sistema político estabelecido até à sua insignificância actual.
O segundo facto diz respeito aos últimos 30 anos. Desde que as iniciativas do poder judicial de combate à corrupção nos anos 90 destruíram os partidos tradicionais que tinham edificado a república do pós-guerra, a começar pelo partido da democracia-cristã, o sistema político foi forçado a criar partidos políticos novos num contexto também novo de estagnação da economia italiana e de crise demográfica séria, com o correspondente envelhecimento do país. Dessa instabilidade crónica sobressaiu Berlusconi que, a dada altura, parecia ter encontrado a fórmula, ainda que não-institucionalizada, de imitar a estabilidade de estruturas e políticas da democracia-cristã. Isso nunca aconteceu verdadeiramente, mas o fim dessa pobre imitação veio com a crise da zona euro. A partir daí as exigências europeias de estabilização do euro passaram a mandar no sistema político, que desprovido de liderança e de instituições credíveis, optou pela selecção de chefes de governo não escolhidos pelo povo italiano. Primeiro, com a imposição de Primeiros-Ministros ditos “tecnocráticos”, que nunca tinham sido eleitos para coisa nenhuma, como Mario Monti em 2011 e Mario Draghi para, dizia-se, fazer frente à emergência do COVID e “executar” o PRR de versão italiana. Mas mesmos os líderes partidários obtinham a chefia do governo sem que fosse claro para o eleitorado italiano que tinham sido objecto da sua preferência maioritária.
Em grande medida, o feito de Meloni situa-se aqui: o sistema político conseguiu finalmente colocar na chefia do governo um líder partidário escolhido por uma maioria (relativa) do povo, à frente de uma coligação de partidos. O caso é ainda mais surpreendente se nos recordarmos como, dentro e fora de Itália, Meloni fora caricaturada ou subestimada. Inicialmente, ela era o rosto do regresso horrível do fascismo e do fim da democracia em Itália. Também no plano europeu, a histeria colectiva com a perspectiva de ter uma “extrema-direita” pura e dura na governação de um dos principais Estados-membros da União rapidamente foi substituída pela normalidade com que Meloni construiu alianças confiáveis com a Comissão e vários líderes europeus feitos na forja da “luta contra o fascismo”. Menos acefalamente, Meloni foi sempre tida como uma filha de um deus menor, excluída dos salões elegantes da política italiana, uma mulher não reconhecida por méritos intelectuais, profissionais nem políticos passados. Agora, concluirá o seu primeiro mandato e continua a ser a favorita para vencer as próximas eleições legislativas.
Infelizmente para ela, e para a própria Itália, muitos são os sectores em que o governo de Meloni se manifestou incompetente e/ou impotente para reformar. Os resultados para apresentar não são muitos, nomeadamente na inversão do declínio económico italiano e na reforma das suas administrações públicas. É a sina de muitos dos governos europeus actualmente em funções. Mas no caso da Itália as reformas são mais urgentes do que noutros lugares. E Meloni, que intrepidamente se recusou no passado a juntar, em várias ocasiões, a “consensos” políticos de estagnação, trazia uma promessa geral de mundança – não de continuidade. O valor da estabilidade desvaloriza-se rapidamente quando se confunde com declínio.