Este domingo, Saxónia-Anhalt vai a votos. As eleições regionais na região do leste da Alemanha estão a ser atentamente acompanhadas. As sondagens dão uma vitória confortável à Alternativa para a Alemanha (AfD, sigla em alemão). E o partido de extrema-direita pode chegar a uma maioria absoluta, que lhe permitiria governar a sós o estado. Seria algo inédito desde o final da Segunda Guerra Mundial e que está a gerar preocupação no Governo liderado pelo chanceler Friedrich Merz.
Desde o final da Segunda Guerra Mundial, o mainstream político pôs em prática um cordão sanitário contra todas as forças de extrema-direita, de que faz parte a AfD. Praticamente todo o panorama político recusou-se a colaborar com estes partidos. Num sistema que privilegia a formação de coligações e em que obter maiorias absolutas é uma tarefa bastante complexa, a Alternativa para a Alemanha, apesar do crescimento dos últimos anos, foi sendo constantemente excluída de várias coligações.
O cordão sanitário ainda está em vigor, mesmo começando a existir algumas vozes à direita que defendem as negociações com a AfD. No entanto, caso o partido obtenha uma maioria absoluta, não será preciso fazer uma coligação. Assim, a Alternativa para a Alemanha pode mesmo governar sozinha a Saxónia-Anhalt, que começaria a funcionar como um tubo de ensaio para as políticas do partido liderado por Alice Weidel — a mulher que ambiciona tornar-se a próxima chanceler.
A crer nas sondagens reveladas nos últimos dias, a AfD obterá uma vitória inequívoca, sendo previsto um resultado na ordem dos 42% das intenções de voto. A União Democrata-Cristã (CDU), o partido de centro-direita que atualmente governa a Saxónia-Anhalt, deverá registar uma perda massiva de votos, ficando-se pelos 22,5% das intenções de voto. Em terceiro segue-se o Die Linke — a força política de esquerda radical que ficará próxima dos 11% das intenções de voto. O Partido Social-Democrata (SPD) obterá apenas 8%, ao passo que os Verdes poderão não chegar aos 5% — um resultado mínimo que lhes permitirá manter-se no parlamento regional.
Por agora, as sondagens indicam que a Alternativa para a Alemanha (AfD) obterá cerca de 41 deputados no parlamento regional da Saxónia-Anhalt. O partido está muito próximo da maioria absoluta: num parlamento de 83 lugares, serão necessários 42. Caso a AfD não atinja essa fasquia, a governabilidade do estado exigirá uma aliança inédita que reúna praticamente toda a restante oposição — incluindo a CDU, o SPD e o Die Linke. Seria uma solução bastante complexa, devido à má relação entre os democratas-cristãos e a esquerda radical.
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Porque é que esta vitória seria importante para a AfD?
Alice Weidel nunca escondeu o ambicioso plano de se tornar chanceler. Até 2029, enquanto principal líder da oposição a nível nacional, a dirigente partidária pretende ganhar ainda mais apoios e solidificar a base eleitoral. Uma vitória na Saxónia-Anhalt seria uma importante fonte de legitimação para a AfD: serviria para demonstrar a contínua normalização eleitoral do partido e, no cenário de conseguir a maioria absoluta para governar, a prova de que a extrema-direita pode assumir o poder.
Devido às ligações com a extrema-direita e tendo em conta o passado da Alemanha, a AfD continua a motivar anticorpos entre grande parte dos alemães. Contudo, a mensagem antissistema do partido está a revelar-se cada vez mais eficaz no leste do país, que foi governado pelo regime comunista da República Democrática Alemã (RDA). A unificação continua a ser uma ferida aberta: 36 anos depois, persiste uma profunda disparidade económica, cultural e demográfica entre o Leste e o próspero Oeste.
A profunda mudança política prometida pelo partido está a convencer cada vez mais habitantes no leste da Alemanha, como se vê pelas sondagens na Saxónia-Anhalt. Mais do que isso, a AfD aposta numa narrativa contra a imigração, assim como defende uma aproximação à Rússia. Nos territórios da antiga RDA, que sofreram um profundo processo de desindustrialização após a reunificação, esta mensagem revela-se cada vez mais cativante.
Além disso, a Alemanha foi um dos países mais afetados pela guerra na Ucrânia. Por se opor à invasão, o país deixou de comprar gás natural barato à Rússia, sem conseguir compensar totalmente o vazio deixado por essas importações energéticas. O custo de vida disparou. O motor económico da Europa esfriou por arrasto. No leste da Alemanha, estruturalmente mais vulnerável, as consequências económicas foram sentidas com particular intensidade.
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É por isso que a mensagem de aproximação à Rússia, abertamente defendida pela AfD, agrada a vários eleitores no Leste do país, muitos dos quais ainda mantêm alguma nostalgia em relação aos tempos da RDA. O partido defende pragmaticamente o regresso às compras de energia barata russa como forma de aliviar a pressão sobre a economia.
Se governar a Saxónia-Anhalt e alcançar a desejada maioria absoluta, a AfD poderá pôr em prática a sua agenda, da educação à economia. Ainda que na política externa as competências sejam limitadas, o partido poderá dar um exemplo de que é uma alternativa viável de governo — e, assim, institucionalizar-se. Adicionalmente, esta força política passaria a ter presença e poder de voto no Bundesrat, a câmara alta do Parlamento alemão, uma vez que assumiria a liderança de um dos dezasseis estados federados da Alemanha.
Ulrich Siegmund, o antigo vendedor que tem normalizado a imagem da AfD
No passado, vendeu perfumes. Aos 35 anos, Ulrich Siegmund é agora o principal candidato da AfD na Saxónia-Anhalt e quer tornar-se governador. Jovem, dinâmico e carismático, o político trouxe uma nova imagem à Alternativa para a Alemanha, tendo milhares de seguidores nas redes sociais. Domina a oratória sem transmitir a ideia de um político extremista — o seu discurso até é cordial.
Ulrich Siegmund tem um programa de cem dias planeado se tomar posse como governador, se bem que algumas medidas não passem de declarações de intenções. O dirigente partidário quer deportar todos os cidadãos estrangeiros que não tenham o direito de estar no país, assim como obrigar todos os refugiados a trabalhar. Contudo, não é claro se conseguirá avançar com estas medidas, uma vez que a legislação federal pode travar a sua implementação.
O político pretende ainda terminar o financiamento a várias organizações não governamentais. Mais ao seu alcance, Ulrich Siegmund pretende permitir o ensino em casa, assim como promover o ensino de russo. O candidato a governador deseja ainda reduzir a máquina estatal e extinguir dois ministérios atualmente em vigor.
Vulnerável, Merz entra na ofensiva contra a AfD
A situação política do chanceler alemão está longe de ser favorável. A taxa de aprovação do líder germânico atingiu mínimos históricos: cerca de 13% dos alemães elogiam a sua prestação política. A CDU tem segurado Friedrich Merz, mas um péssimo resultado nas eleições regionais que ocorrem este mês (as primeiras são este domingo, mas há também em Berlim e em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental daqui a duas semanas) pode levar a uma insurreição dentro dos democratas-cristãos.
https://observador.pt/especiais/o-chanceler-mais-impopular-de-sempre-perante-uma-afd-que-nao-para-de-crescer-merz-esta-perto-do-fim/
Ainda assim, Friedrich Merz tem-se empenhado em apoiar a CDU. “Quem deseja que a Alemanha continue a ser um país aberto e liberal, e quem deseja que a Saxónia-Anhalt continue a ser um lugar interessante, incluindo a nível europeu, não deve votar na AfD no domingo, mas sim na CDU”, afirmou o chanceler alemão esta sexta-feira, acompanhado pelo candidato à reeleição como governador estadual, o também democrata-cristão Sven Schulze.