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Palcos em antigas fábricas e fachadas onde não se mexe: como é que o Festival F se constrói na zona histórica de Faro

Os moradores deixam de ter estacionamento, há locais onde nada pode ser afixado e edifícios abertos ao público durante três dias. A 11.ª edição do evento termina este sábado na Vila Adentro.

Andreia Costa
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É numa das paredes amarelas da antiga fábrica da cerveja que o espetáculo de videomapping se instala por estes dias. Porém, é difícil prestar-lhe atenção neste momento porque, no palco que se situa mesmo em baixo, estão a tocar os Inhuman. Aqui toda a gente sabe quem é esta banda de gothic metal — são algarvios, de Silves — e talvez isso justifique a enchente nesta zona no segundo dia do Festival F, em Faro.

Além da música, o evento traduz-se na única ocasião em que é possível ter acesso a locais como este, fechados ao público durante o resto do ano. O festival acontece na Vila Adentro, a zona mais antiga da cidade, e tem uma energia especial ao conseguir que um ambiente histórico sirva de cenário para sonoridades tão diferentes como o fado de Carminho, a pop de Bárbara Tinoco, o rock alternativo dos Paus, o metal dos Moonspell, o hip hop de Slow J ou os DJ sets que preenchem diversas zonas, incluindo a da restauração. Porém, montar palcos, casas de banho, pontos de água ou sinalética num cenário com património acarreta dificuldades extra. Além disso, é preciso preservar ao máximo a normalidade da vida das pessoas que vivem habitam.

Os trabalhos arrancam um mês antes, mas têm de avançar por fases. “Começamos sempre pelo [palco Metalofarente] Quintalão e pelo [palco] Museu, porque são zonas da autarquia e, por isso, mais fáceis de trabalhar”, explica Gil Silva, programador do festival, ao Observador.

O primeiro herdou o nome do quintal do antigo magistério primário, é um espaço enorme delimitado pelas muralhas da cidade e só durante o Festival F é que recebe público. O segundo fica no Museu Municipal de Faro. A par deles, avança a montagem do palco Fábrica. O edifício passou para as mãos da câmara municipal no final dos anos 90 e tem um processo de reabilitação em curso, mas teve várias vidas antes disso. Por aqui se construiu uma fábrica de destilação de álcool em 1904. Terá funcionado até 1935 e novamente entre 1968 e 1992, ocupado pela Cervisul, distribuidora de cerveja e vinhos do sul. O edifício é imponente e é fácil imaginar a azáfama que o preencheu e a importância comercial que teve. O futuro não parece completamente certo, mas por estes dias a tinta descascada, os vidros partidos e as madeiras a gritarem por reforma recebem a atenção merecida.

Os dois palcos principais, o Ria e o Lusíadas Sé, são os últimos a ocupar os respetivos lugares. “Nesse caso, os trabalhos começam 15 dias antes. A vida ali não pára e tentamos minimizar os incómodos que possamos causar.”

Estamos na zona histórica da cidade, que não se faz apenas de monumentos ou serviços públicos. Há casas particulares e negócios que não podem simplesmente deixar de existir por estes dias. Apesar do incómodo, Gil Silva garante que quem vive nestas ruas aceitou bem o evento desde o início [em 2014], ainda que durante alguns dias a rotina se faça com mais limitações. “O festival também veio dinamizar esta zona que era circulável durante o dia mas que, à noite, não tinha qualquer animação. É verdade que durante uma ou duas semanas ficam sem estacionamento, é mais difícil chegar a casa, mas também sentem que o património é valorizado.”

Os moradores merecem um carinho especial de toda a organização, garante o programador, e uma das formas de demonstrá-lo é oferecendo-lhes bilhetes para o evento. “Os moradores têm acesso ao festival e podem trazer os seus convidados. O festival também são as pessoas que moram aqui.”

Os restaurantes que ficam dentro do recinto têm igualmente direito a bilhetes “para que possam gerir as respetivas reservas e oferecê-los aos seus clientes para que não deixem de vir por terem de pagar a entrada”.

O público pediu, o recinto cresceu

Há sinalética afixada nas paredes (com horários ou indicações de palcos), mas não em quaisquer umas. Na Igreja da Sé e no Museu não se mexe devido ao valor histórico. “Temos sempre essa noção e fazemos tudo para não interferir com os monumentos nacionais que temos aqui.”

Ao longo dos anos, o mapa do recinto foi crescendo, incluindo mais espaços — e, por consequência, mais ruas para fechar e mais moradores afetados. Começou com três palcos e tem agora sete. Os claustros da Sé e os palcos junto à Sé e à Ria Formosa foram os últimos a serem acrescentados, desenhando em 2018 o mapa tal como ele é hoje. O motivo foi só um: “O crescimento aconteceu porque sentimos essa necessidade da parte do público”.

Passar com carrinhas em ruas estreitas, construir palcos em pisos empedrados e desnivelados ou pensar em novas formas de revitalizar espaços geralmente vazios traz muitas dores de cabeça, reconhece Gil Silva, mas há o reverso da medalha. “É termos a satisfação de ver que o público acede a espaços que geralmente estão fechados.”

O palco Arco é o ponto de encontro ideal para quem quer ver o sol a por-se na Ria Formosa enquanto ouve música. O espaço é intimista, os sons de nicho (Rafael Toral, Must Be Blue, Herlander) e o ambiente saído de um postal. Para lá chegar, é preciso encontrar o final de um beco e passar um portão com uma grade trabalhada, quase como se estivéssemos a entrar numa zona secreta. O percurso tem outra surpresa na Rua Professor Norberto da Silva: um edifício de dois andares, branco, que pode não estar classificado como histórico, mas é culturalmente relevante. “Nesta casa morou o Zeca Afonso. Faro foi o primeiro sítio onde ele deu aulas, no final da década de 70.”

Ao longo destas ruas, cujas paredes centenárias convivem com graffiti recentes, estão pequenos produtores independentes e artistas locais. Bijuteria, roupa, ilustrações ou cosmética natural merecem uma paragem na correria para passar de um palco para o outro.

Nos diversos percursos não há tempo para o tédio. Arruadas de Al Fanfare e Funkarmonica, dança da Urban Expression, declamações da Poesia Companhia e interpretações do grupo coral Ossónoba asseguram a animação. As ruas estão decoradas e à noite a iluminação dá ainda mais destaque às obras locais penduradas por todo o lado. Quando os nomes mais sonantes do cartaz começam a atuar, nota-se um aumento significativo de pessoas, mas as ruas nunca dão a sensação de claustrofobia.

Os empedrados e os muros altos que nos rodeiam remetem por vezes para o ambiente de uma feira medieval, mas a realidade dos tempos modernos rapidamente nos traz de volta a 2026. Como? Basta entrar na área da silent party, onde a música é substituída pelo silêncio — pelo menos, aparentemente. É que aqui há auscultadores para o público, que escolhe entre dois DJ, que transmitem a sua música em canais diferentes. Cada um ouve no volume que quer, dança o que quer e ao seu ritmo. A luz verde dos auscultadores de três amigas na casa dos 70 anos revela que estão a ouvir YMCA, enquanto uma mãe com três miúdas de 11 ou 12 anos tenta acompanhar os passos delas num dos muitos sucessos de Pedro Sampaio que passa neste momento no canal que corresponde à cor vermelha.

De regresso à rua principal, a música volta a ouvir-se por todo o lado. Para quem mora aqui, será assim até às cinco da manhã, mas esse é o preço a pagar por receber um evento tão diferente quanto o Festival F. “O maior gozo que retiramos disto é sentir que as pessoas que vêm de fora se sentem acolhidas e que, quem as recebe, sente o seu património valorizado.”