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(A) :: Cédric Kahn sobe o nível da competição em dia de graves transtornos psicológicos

Cédric Kahn sobe o nível da competição em dia de graves transtornos psicológicos

Certezas: “15/18” é o filme mais forte deste princípio de Festival de Veneza. Ao mesmo tempo, Paul Schrader e Shinya Tsukamoto mergulham no trauma.

Francisco Ferreira
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Veneza teve uma sexta-feira de “escuridão” este ano, com filmes pesados como chumbo a nível psicológico no melhor dia do festival até agora. Foi de ir ao divã (do psicanalista), de manhã cedo até o sol se pôr. Houve traumas de guerra e maus-tratos na infância experienciados na adolescência, caça a pedófilos e uma assunção de culpa que ficará anos na memória, embora The Basics of Philosophy — vá-se lá saber por alma de quem — tenha sido arrumado nas ficções fora de concurso.

Novo filme de Paul Schrader produzido por Martin Scorsese, The Basics of Philosophy segue John, um professor universitário, especialista em Espinoza (Jack Huston). Ele tem contas a acertar com o passado. Jovem adulto, tentou ser professor de piano mas, certo dia, encostou a boca ao sexo de um rapaz de 14 anos a quem dava aulas. Aquele acto sexual homoerótico e único marcou-lhe a vida e marcou a vítima (Santiago Cabrera), que John procura agora, no bar gay que aquele agora dirige, para testar-se a si próprio longos anos depois, já que está prestes a casar-se com uma professora divorciada (Sofia Boutella), sua colega na Universidade, por sinal mãe de um rapaz de… 14 anos. E o pedófilo dentro dele, ainda existe no guião de Schrader e na perturbação dos seus grandes planos?

“Fui educado em escolas cristãs e estudei teologia, não posso evitar o sentido da culpa”, acrescentou o cineasta, homenageado em Veneza 2022 com um Leão de Ouro honorário, sobre a sua nova criatura atormentada. São invenções dele as personagens centrais de Taxi Driver (1976), Touro Enraivecido (1980), A Última Tentação de Cristo (1988) e Bringing Out the Dead (1999), para voltarmos ao compincha Scorsese que agora o produz. Uma luz de salvação surgirá mais tarde mas jamais destapará por completo a sombra daquele momento isolado da vida de John, que o conduz à amargura e quase ao desespero. A generalidade da crítica americana tratou o filme de sensaborão. Deste lado, a resposta é outra, com Schrader a seguir a linha de No Coração da Escuridão (2017) e The Card Counter: O Jogador (2021), o melhor que ele fez neste século.

15/18 é um caso sério deste festival, apontamo-lo desde já ao palmarés, sem a menor hesitação. O título internacional em inglês do regresso de Cédric Kahn ao Lido acrescenta-lhe um parêntesis — (A Place to Heal) — já que o filme mergulha, de facto, numa unidade de pedo-psiquiatria em França destinada a ajudar adolescentes entre a idade do título. Ali conhecemos Lucia, Enzo, Élouise e mais uns quantos, de 17 anos. Fabulosos intérpretes, alguns com provas já dadas (Lucia é interpretada por Malou Khebizi, a protagonista de Diamante Bruto), outros em estreia absoluta, com o próprio Kahn, que é um óptimo actor, a interpretar o chefe do departamento de psiquiatria ladeado por Sophie Guillemin, actriz que o cineasta lançou no já longínquo ano de 1998 em O Tédio, produzido por Paulo Branco. Desta familiaridade se falou também com o cineasta em conversa que há de vir, 15/18 não sairá certamente de Veneza sem uma venda para comercialização em Portugal.

Os jovens pacientes do filme vêm de realidades muito duras lá fora. Kahn segue o método que Laurent Cantet abriu em Entre les murs/A Turma, câmara ao ombro cerrada, muito física, a seguir as personagens, mas aqui os “alunos” são outros, a agitação é geral, há muitas cenas de pancadaria, o confronto físico é constante. E o olhar do filme torna-se um apoio firme, que não condena nem pode fazê-lo, porque aqueles miúdos não têm coordenadas definidas, não são crianças, é certo, mas também não são adultos. Alguns sabem que, no dia dos seus 18 anos, serão chutados cá para fora, para a selva. É o que diz a Lei.

Por isso se torna forte, e belo, aquele momento de evasão em que os nossos protagonistas de 17 anos se evadem pela calada da noite e se escapam pela floresta. “Depois daquele confinamento”— é Cédric Kahn quem fala — “pensei que seria estimulante ver os adolescentes em fuga e atear fogo às coisas, num impulso de sobrevivência. Numa entrevista, o psiquiatra francês que inventou a clínica de psicoterapia experimental La Borde, Jean Oury, disse que a pessoa com doença mental ‘precisa de árvores, de estações, de raízes para se curar. Na cidade, só nos apetece atirarmo-nos para debaixo de um autocarro.’ Esta frase ficou comigo.” Há que contar com 15/18 para o palmarés do próximo fim de semana.

E o que dizer de Mr. Nelson, Did You Kill People?, de Shinya Tsukamoto, inspirado na história verídica de um ex-marine negro, traumatizado pela Guerra do Vietname? Pioneiro do cyberpunk japonês desde Tetsuo, há muito que Tsukamoto elegeu a guerra, especialmente a que atingiu o seu país, como eixo central da sua obra cinematográfica. Mas aqui ele visitou guerra alheia em que o Japão não esteve envolvido, e língua distante da sua, o inglês. Talvez por isso seja este filme sobre o Vietname diferente de todos os outros, feito como um gesto de expiação, ou como uma “oração contra a guerra”, palavras do cineasta.

Nascido numa família muito pobre em Nova Iorque, Allen Nelson assentou praça na marinha americana aos 18 anos para fugir à miséria e foi mandado para os campos de treino de Okinawa, onde os EUA preparavam os recrutas. Em 1966, estava no Vietname, na frente de batalha. Mr. Nelson, Did You Kill People? vai-se construindo em flashbacks à medida que Nelson conversa com o psiquiatra, Dr. Daniels (Geoffrey Rush), sobre a sua experiência traumática. É um filme desequilibrado nesta fase.

Mas alguns flashbacks são siderantes porque Tsukamoto está disposto a mostrar o horror visceral da guerra sem subterfúgios nem fascínios de loucura e conquista, tão explorados pelo cinema americano, antes e depois do apogeu de Apocalypse Now. Numa cruel cena de combate, um vietcong inimigo capturado diz a Allen Nelson (Rodney Hicks) que, também ele, por ser negro, é um prisioneiro no seu país. O activista anti-guerra que apareceria depois nasce naquele momento.

Já visto está Primetime, entrada na ficção do documentarista americano Lance Oppenheim inspirado em Chris Hansen (Robert Pattinson), o líder do programa de TV To Catch a Predator, que aliciou e capturou em directo (com a colaboração da polícia) potenciais predadores pedófilos a partir de falsos perfis de adolescentes forjados nos bastidores do programa. O filme passa-se em 2006. O dito programa foi para o ar nessa altura, até ser cancelado em Dezembro de 2007. Estava no topo das audiências. Comparado com isto, Ink, o filme de Danny Boyle que abriu este concurso, parece uma excursão de escuteiros. E assim vai Veneza 2026. Ao Primetime voltaremos em próxima crónica.

O autor escreve segundo a antiga ortografia