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Medjugorje: pouco sobrenatural, mas muito pastoral

Uma consoladora certeza: se as ‘aparições’ de Medjugorje são de natureza sobrenatural, a Igreja, a seu tempo, o reconhecerá.

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
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No dia 24-6-1981 teve lugar a primeira ‘aparição’ em Medjugorje a três jovens, que se repetiu no dia seguinte, diante de seis ‘videntes’ que, durante anos, tiveram ‘aparições’ diárias, até lhes serem revelados 10 segredos e passarem a ter, esporadicamente, ‘aparições’ pessoais. A Santa Sé ainda não se pronunciou sobre o carácter sobrenatural destas supostas ‘aparições’ marianas, mas não restam dúvidas quanto aos frutos apostólicos desta experiência, atestada por católicos fervorosos, cristãos menos devotos e até crentes de outras religiões, agnósticos e ateus: desde 1981 e até 2010, os peregrinos ascenderam a vinte milhões! Entre eles é generalizada a convicção de que Nossa Senhora aparece nessa colina, mas, até à data, a suprema autoridade eclesial ainda não confirmou, nem desmentiu, essa suposição.

Se a questão teológica ainda suscita muitas reservas entre os peritos, a realidade pastoral parece ser claramente positiva. É certo que o aspecto doutrinal precede e condiciona a prática pastoral, mas nada impede que um grupo numeroso de fiéis se concentre numa determinada colina para rezar a Deus, por intercessão da Rainha da Paz, sem que isso signifique, ou negue, que Nossa Senhora aí apareceu. O facto de a Igreja nunca ter declarado a autenticidade das relíquias de São Tiago que se veneram em Compostela – uma questão que é científica e não doutrinal –, não obsta a que nesse lugar se preste culto ao apóstolo, com grande proveito espiritual para os fiéis.

Recentemente, o jornalista italiano David Murgia noticiou que, dos 33 cardeais, bispos e teólogos próximos à então Congregação para a Doutrina da Fé, consultados em 2016 sobre as ‘aparições’ em Medjugorje, uma ampla maioria se manifestou contrária à sua origem sobrenatural: 21 afirmaram que consta a sua não sobrenaturalidade; 9 entenderam o contrário, ou seja que consta a sua sobrenaturalidade; enquanto os 3 restantes preferiram não emitir um juízo afirmativo ou negativo sobre a questão. Desta comissão faziam parte personalidades tão relevantes como os Cardeais Gerhard Müller; Christoph Schönborn; Antonio Cañizares; Ricardo Blázquez; Angelo Scola; Donald Wuerl; Marc Ouellet; Fernando Filoni; Camillo Ruini; e o então Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, Luis Ladaria, mas ignora-se como votaram.

Note-se que não é a mesma coisa afirmar que não consta a sobrenaturalidade de um determinado fenómeno extraordinário, ou que consta a não sobrenaturalidade desse facto pois, neste último caso, nega-se que o mesmo possa ter uma origem extraordinária, enquanto que, no primeiro, apenas se afirma que não foi possível afirmar a sua natureza sobrenatural que, contudo, não se nega. Ora, no caso de Medjugorje, dois terços dos peritos questionados entenderam que consta a sua não sobrenaturalidade, enquanto apenas 9 chegaram à conclusão contrária.

O resultado do último inquérito sobre este fenómeno representa uma involução em relação ao resultado apurado pela comissão constituída, em 2010, pelo Papa Bento XVI e presidida pelo Cardeal Ruini, sob os auspícios da Congregação para a Doutrina da Fé, que é o organismo da Santa Sé competente em razão da matéria. Esta comissão distinguiu as ‘aparições’ iniciais, das mais recentes. Em relação às sete primeiras ‘aparições’, 13 membros dessa comissão pronunciaram-se a favor da sua sobrenaturalidade, um votou contra e outro considerou que a decisão deveria ser adiada. Mas, em relação às ‘aparições’ seguintes, ninguém afirmou constar a sua sobrenaturalidade: 2 membros da comissão votaram a sua não sobrenaturalidade e os restantes não chegaram a nenhuma conclusão. É, portanto, claro que, segundo este relatório, as primeiras ‘aparições’ são mais credíveis do que as posteriores.

Em Dezembro de 2015, o Papa Francisco decidiu chamar a si este ‘dossier’, sem assumir nenhuma posição doutrinal, talvez para evitar que uma eventual declaração pudesse ter um efeito negativo em relação à excelente experiência religiosa que se vive em Medjugorje, desde que nessa localidade se deram as alegadas ‘aparições’ de Nossa Senhora. Em 2019, Francisco autorizou expressamente as peregrinações a esse lugar, que até então estavam desaconselhadas, mas teve o cuidado de fazer saber que uma tal medida, de carácter exclusivamente pastoral, não significava um implícito reconhecimento da autenticidade sobrenatural do fenómeno.

Em Maio de 2024, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou as novas normas para o discernimento sobre acontecimentos supostamente sobrenaturais, como Medjugorje. A partir de agora, o juízo desse organismo não incide sobre a sobrenaturalidade do facto, mas no seu aspecto pastoral. A 19 de Setembro de 2024, com a aprovação de Francisco, o mesmo Dicastério emitiu a nota «A Rainha da Paz», em que, aplicando a nova normativa, confirma a Medjugorje o ‘nihil obstat’ em relação às peregrinações, «ainda que isto não implique uma declaração do carácter sobrenatural». Para Francisco o ‘nihil obstat’ é «absolutamente suficiente», pois «não há necessidade de ir além». Ou seja: com 21 dos seus 33 consultores a votarem contra a sobrenaturalidade, o então Papa optou por privilegiar o fenómeno pastoral, em detrimento da respectiva questão doutrinal.

Para a Igreja, a revelação da fé necessária para a eterna salvação terminou com a morte do último apóstolo e, portanto, todas as aparições posteriores, mesmo que reconhecidas como credíveis, não alteram o depósito da fé, nem podem ser impostas aos crentes. É à suprema autoridade apostólica que compete examinar, julgar e decidir sobre supostos fenómenos sobrenaturais, em ordem ao bem espiritual da grei que lhe foi confiada, pois a prática pastoral há-de estar sempre radicada na verdade.

O que caracteriza a verdadeira devoção mariana é a humilde obediência ao mandato de Cristo (Jo 2, 5), por via do seu representante na terra, o Papa, a quem cabe discernir os verdadeiros carismas e graças de Deus (Mt 16, 19). Como muito certeiramente disse o Cardeal Cerejeira, não foi a Igreja que impôs Fátima, mas foi Fátima que se impôs à Igreja. Eis, pois, uma consoladora certeza: se as ‘aparições’ de Medjugorje são de natureza sobrenatural, a Igreja, a seu tempo, o reconhecerá.