Um estranho filme de verão
Sempre houve uma tradição de filmes de verão. Costumavam ser comédias leves ou filmes de ação ou terror exóticos, com bikinis e palmeiras e mar de Tubarão até ao Mamma Mia! O filme mais falado e visto deste verão foi a Odisseia de Christopher Nolan, que pode ser muita coisa, mas leve não é uma delas. Se fosse mais próximo do original grego antigo até funcionaria melhor no registo tradicional dos filmes de ação de verão: uma viagem pelo Mediterrâneo cheia de acidentes e incidentes, naufrágios e ilhas paradisíacas, ninfas, feiticeiras e monstros, muita ação, algum terror e um final feliz.
Se calhar já estão fartos do tema, mas nunca é de mais falarmos da Odisseia. É verdade que o filme de Nolan está longe do nível dessa obra fundadora da nossa civilização, uma história que tem continuado a alimentar a nossa imaginação coletiva há mais de 2,500 anos. É um filme demasiado previsível do vista cinematográfico e sobretudo de uma releitura em linha com a maçadora ortodoxia política e moralmente correta do Hollywood do século XXI. Portanto, paralisado por culpas várias, envergonhado do sexo e aproveitando para exibir a diversidade racial da baixa de Los Angeles. Faz sentido uma atriz negra talentosa e bonita representar a mais bela rainha da Grécia Arcaica, Helena de Tróia? É tão ridículo como termos o talentoso Sir Laurence Olivier a representar o Mahdi, o líder fundamentalista do Sudão, no filme Khartoum, de 1966.
Um filme ou romance que pretende ser histórico assume a obrigação de criar uma ilusão credível do que sabemos desse período, e ser criativo com o muito que não sabemos. Quem quer fazer o que lhe apetece tem a pura fantasia ou o romance pós-moderno. Isso significa que não devem ir ver o filme? Eu não sou de boicotes. A arte e a expressão devem ser livres, inclusive de falhar e nós de criticar. Pelo menos Nolan contribui para se falar da Odisseia de que temos uma edição muito cuidada e altamente recomendável da Quetzal numa tradução do Frederico Lourenço.
De Ulisses aos drones
Na Odisseia o herói que dá o nome à epopeia – Odisseu para os gregos, ou Ulisses para os romanos – era frequentemente apelidado de homem das mil artimanhas, um engenhoso de mil engenhocas: um polymetis πολύμητις, ou um polymechanos πολυμήχανος. Afinal foi Ulisseus que teve a ideia do famoso Cavalo de Tróia, um arquétipo recorrente na nossa cultura. Com ele concluiu, literalmente, com engenho o cerco grego da cidade de Tróia que já se arrastava há dez anos.
Estive brevemente na Lousã, num campo dE verão para jovens, organizado pela representação da Comissão Europeia. Uma das questões interessantes que foi levantada pelos jovens presentes foi sobre o peso crescente de perigosos engenhos de guerra, dos drones ou da inteligência artificial: isso não seria injusto, não criaria uma distância problemática entre combatentes e as suas ações? A questão é frequente e pertinente, mas resposta é menos evidente do que poderia parecer.
Toda a história da humanidade, todo o longuíssimo percurso interligado entre inovação tecnológica e armamento, vão precisamente no sentido de garantir que o combate é o mais injusto possível a nosso favor. Se a humanidade fizesse questão de enfrentar as ameaças num combate “justo” corpo a corpo, para dar uma hipótese ao inimigo, provavelmente não estaríamos aqui: os mamutes e os tigres dos dentes de sabre teriam ganho esse combate “justo”. Os utensílios mais antigos que encontramos – de pontas de lança a pontas de flecha – são uma prova sólida de que os homens sempre quiseram combater com o máximo de eficácia e o menor risco para si próprios.
A figura de Ulisses ilustra isso mesmo desde a mais remota antiguidade. Este épico arcaico da Grécia Antiga louva um herói por combater de forma inteligente, por procurar o mais possível poupar os seus soldados e derrotar os inimigos pelo estratagema – uma palavra que também vem do grego antigo – poupando as próprias forças. Essa tem sido sempre a forma ocidental de fazer a guerra. Hoje, há um verdadeiro risco de que o Ocidente perca essa vantagem, com implicações perigosas para a eficácia da dissuasão de futuras agressões armadas. Claro que tal não significa que não existam riscos com novas tecnologias militares. As armas nucleares – abordados no filme anterior de Nolan – são um exemplo extremo disso, mas também da possibilidade de o seu uso ser regulado e acabarem por funcionar como fator importante de dissuasão de grandes guerras. Em particular a Inteligência Artificial representa um potencial enorme para o bem e para o mal que tem de ser bem gerido com enorme prudência, que parece faltar para já. É uma infelicidade e um risco que tenhamos de nos armar para nos defendermos de ataques armados, mas é o mundo em que sempre temos vivido desde o tempo de Homero, e não há sinais de que isso esteja a mudar. Enquanto assim for será bom contarmos com um Ulisses do nosso lado.