Poderá ser “o mais intenso” e mais longo de sempre, mas nem por isso deve Portugal ficar preocupado. O fenómeno meteorológico El Niño está a instalar-se e promete intensificar-se nos próximos meses, podendo mesmo estender-se até meados de 2027. Mas, apesar do alarme internacional — que já chegou a alguns países da Europa —, ao Observador dois especialistas garantem que os efeitos no nosso país serão pouco significativos. Quererá isso dizer que podemos ficar descansados? Não exatamente.
Primeiro, a América do Sul, depois o sul da América do Norte (perto do Golfo do México) e ainda África. “Toda a bacia do Pacífico é afetada” pelo El Niño, explica ao Observador Pedro Miranda, climatologista e investigador do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
“Toda a zona intertropical, entre os +30 e os -30 graus de latitude, vai sentir. Quem vai sentir mais, em primeiro lugar, é a América do Sul. Em segundo lugar, a América do Norte, perto do Golfo do México, e a África Oriental, junto à costa de Moçambique e da Somália — sendo que Angola terá um efeito mais atenuado”, sublinha o especialista. A esta lista, o climatologista Mário Marques junta ainda o sudeste asiático e o norte da Austrália, onde se prevê a ocorrência de seca em plena estação de chuvas. “E, claro”, avisa Mário Marques, “estamos no início e as repercussões começam agora; serão muito mais severas em dezembro”.
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Entretanto, as campainhas de alarme de algumas das maiores organizações mundiais já têm soado. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) alertava na quinta-feira para uma probabilidade “excecionalmente elevada, próxima dos 100%”, de persistência do fenómeno durante os próximos meses. Também António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, citado no mesmo comunicado, ecoava as preocupações ao sublinhar que “o El Niño está a agigantar-se diante dos nossos olhos”.
Os especialistas ouvidos pelo Observador não negam estas previsões que, dizem, têm uma elevada probabilidade de se concretizarem. “Não conseguimos prever a meteorologia, mas conseguimos prever o El Niño”, ironiza Pedro Miranda. O climatologista explica que, além de ser um processo lento, a medição e previsão do fenómeno assentam na análise da temperatura das águas do Pacífico — um valor que os cientistas sabem que está a subir e que acompanham da mesma forma que em eventos anteriores.
Este fenómeno não é uma novidade. A novidade está, sim, no grau de intensidade e de duração que se espera para as zonas em maior perigo. “Algumas regiões poderão ter um evento El Niño não só mais intenso do que há registos, mas também mais prolongado no tempo. Isto é, poderá ser inclusive por 2027 adentro. Normalmente, esses eventos El Niño duram seis meses, no máximo nove meses. Mas este pode durar um ano”, ressalva o climatologista Mário Marques.
Apesar disso, e ao contrário dessas regiões, a Europa terá maior probabilidade de ficar a salvo — pelo menos a metade mais a sul. “No histórico, não há indicações de que a Europa seja afetada de forma relevante”, afirma Pedro Miranda. Ainda assim, o Reino Unido está em alerta — ao ponto de o governo ter aconselhado a população a manter algumas reservas de alimentos e água, antevendo períodos de corte de energia devido à passagem do El Niño. Para o climatologista, é “normal” os ingleses “entrarem em pânico”. “E não é que não haja razões, uma vez que se situam mais a norte na Europa e podem ser mais afetados do que nós”, explica. Mário Marques aponta a diferença em relação a outros pontos do planeta: “Normalmente, um evento El Niño para a Europa tem impactos muito indiretos.”
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Segue-se um ‘mas’: “Quando temos um mundo que está a mudar, temos de ser prudentes”, afirma Pedro Miranda, ressalvando que “não sabemos até que ponto isto pode avançar.” “A minha expectativa é a de que não vai ter um impacto fantástico na Europa, porque nunca teve. No entanto, deixando a ressalva de que, sendo um sistema muito intenso, é preciso ter prudência, para não acontecerem coisas invulgares. Por outro lado, uma coisa é um impacto direto na Europa, quando uma coisa afeta o mundo, nós somos afetados, pelo menos indiretamente”, diz Pedro Miranda.
Já estamos a sentir o El Niño?
Apesar de o El Niño já produzir efeitos visíveis do outro lado do Atlântico, na Europa a situação é de normalidade. “No continente americano, os impactos já se estão a manifestar, mas, na Europa, alguns efeitos indiretos que poderiam acontecer não se estão a verificar”, explica o climatologista Mário Marques, que identifica dois:
- Em primeiro lugar, a corrente de jato — “uma corrente que é produtora das depressões” — já seria de esperar, “sobretudo na Europa Central e de Leste. Ou seja, aquelas “tempestades de verão, com chuvas fortes e trovoadas”. Porém, “isto não está a ocorrer” e a chuva continua “para a Escandinávia e Inglaterra”, mantendo-se o tempo seco no sul da Europa;
- Outro sinal seria “uma anomalia negativa na temperatura de água do mar do Atlântico”, com águas mais frias do que o habitual — o que “também não está a acontecer”.
Mesmo a chuva que caiu recentemente em Portugal também não teve qualquer ligação com o fenómeno, de acordo com o mesmo especialista. Aliás, chegou até com atraso. “Esta chuva já devia ter acontecido. Em agosto, já é normal termos dias de trovoada e com alguma instabilidade e até com temperaturas frescas. Aliás, eu participei na Volta a Portugal como consultor em termos de meteorologia e lembro-me que muitas vezes as chegadas à torre eram com 6, 7 graus”.
Sendo as manifestações do fenómeno fracas até este momento, Pedro Miranda não arrisca apontar a forma como o El Niño se poderia manifestar em Portugal. Já Mário Marques não espera um “outono muito ativo” (ou seja, com muita chuva), sobretudo na primeira fase, até pelo menos dezembro”. “De resto”, continua, “vai ser um setembro seco e já está a contradizer um pouco aquilo que eventualmente seria expectável no evento do El Niño”.
O que é o El Niño e como funciona?
Se em Portugal “não se pode falar numa influência muito direta”, o resto do mundo conta outra história. “No histórico, o que o El Niño faz é alterar a convecção do Pacífico”, explica Pedro Miranda.
Em condições normais, entre os trópicos, os ventos sopram de leste para oeste, empurrando a água quente para o lado da Indonésia e da Austrália. É lá que o ar quente sobe (convecção) e forma as nuvens de chuva. Só que, quando o El Niño acontece, há uma “reversão dos ventos”. “Há um desequilíbrio. O vento baixa um bocadinho e aquela chamada piscina de água quente que está na Indonésia desloca-se lentamente”, sublinha Pedro Miranda.
Como a água fica mais quente num sítio diferente do habitual, o ar quente e as nuvens sobem noutras regiões, provocando cheias em locais normalmente secos e secas onde costuma chover. Cria-se, assim, uma “zona de formação de tempestades”. Trata-se, por isso, de “uma interação entre ar, peixe e oceano” que ocorre de forma recorrente, em intervalos variáveis, alterando também a sua intensidade de evento para evento.
Por ser uma “interação entre ar e oceano”, é através da monitorização da temperatura das águas do Pacífico que os cientistas medem o início do fenómeno e confirmam que o El Niño se está a deslocar até atingir a costa da América.
Apesar de ser encarado com renovada preocupação, Pedro Miranda lembra que o fenómeno está longe de ser uma novidade: “O El Niño é uma coisa que é muito antiga. Sabemos que existe El Niño desde que os espanhóis chegaram ao Peru. Antes disso, não há histórias escritas, portanto, não há garantias.”
Esta sazonalidade, já que o fenómeno ocorre por volta do Natal, está na origem do seu próprio nome. Batizado pelas populações da América Tropical do lado do Pacífico como referência ao menino Jesus, o evento recebia este nome porque o aquecimento das águas acontecia tradicionalmente durante o inverno do hemisfério sul, coincidindo com a época do Natal.
“Existe um sinal de mudança climática no mundo que não é o El Niño”
Para lá da agitação em torno do El Niño, os especialistas convergem num ponto essencial: a verdadeira ameaça, sobretudo para a Europa, é outra. “É preciso perceber uma coisa: existe um sinal de mudança climática no mundo que não é o El Niño”, alerta Pedro Miranda. “Portugal não está na linha da frente [do El Niño]. Tem é de se preparar para as alterações climáticas, certamente. Não especialmente para este El Niño”, refere ainda o mesmo especialista.
Ainda assim, os dois estão ligados. Afinal, por que razão passaremos a ter tempestades, como o El Niño, mais intensas? “O mundo está mais quente. Quando o mundo está mais quente, uma coisa é garantida: há mais vapor de água no ar. E, portanto, num mundo mais quente, quase todas as tempestades têm a ver com a água — que é um processo importantíssimo para libertar energia para uma tempestade”. Ou seja, “se o ar tem mais água, isso quer dizer que vamos ter tempestades mais intensas”.
Isto porque, quando o ar vem do norte, podemos ter imenso frio mas tipicamente não temos tanta chuva. O problema está mesmo no ar quente, que “aumenta a probabilidade de as tempestades serem localizadas mas mais intensas”. E, as temperaturas no mundo estão a aumentar. Duas palavras: alterações climáticas.
Para Mário Marques, a grande preocupação deve, por isso, estar concentrada nos impactos do aquecimento global. “As alterações climáticas são uma doença. Faz lembrar um cartoon com três ondas: uma onda pequena que é a Covid — é aquela que mata imediatamente —; depois, uma onda maior, que são as guerras regionais; e depois temos uma onda muito grande, mas que demora a chegar: as alterações climáticas.”
[O diretor do SIS entra na sala de audiências e recusa cumprimentar Frederico Carvalhão Gil, com quem trabalhou durante décadas. A traição do espião abalou profundamente o Estado português e Neiva da Cruz não lhe perdoa. Em tribunal, o espião defronta os antigos colegas do SIS. E, para se defender, ataca o sistema. Nunca vai admitir o crime de espionagem. O que não significa que não seja condenado por ele. Já pode ouvir o sexto e último episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor” no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube. Pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, o terceiro episódio aqui, o quarto aqui e o quinto aqui.]