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Ligação da MNTC à Carris foi maior. Contratos entregues à empresa de manutenção atingiram mais de 2 milhões de euros

Os contratos da Carris com a MNTC ainda não estão todos divulgados. Mas os que estão representam um volume de negócios de 2 milhões para a empresa de manutenção.

Alexandra Machado
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São afinal, pelo menos, 11 os contratos que a Carris assinou, desde 2019, com a MNTC, conhecida comercialmente por Main, e que era a empresa de manutenção do Elevador da Glória quando, a 3 de setembro de 2025, descarrilou, originando 16 vítimas mortais e 24 feridos. Esses 11 contratos resultaram num negócio total para a MNTC de mais de dois milhões de euros.

Alguns desses contratos só este ano foram tornados públicos, no portal Base, pela Carris que fez o levantamento de todos os contratos com a MNTC que, entretanto, deixou de ter relacionamento comercial com a empresa de transportes públicos detida pela Câmara Municipal de Lisboa, conforme noticiou o Observador.

Quando aconteceu o acidente do Elevador da Glória, a MNTC foi escrutinada e será agora arguida, de acordo com o Público, no processo de investigação do Ministério Público, que já fez saber que deverá ter conclusões apenas no primeiro trimestre do próximo ano, o mesmo prazo indicado agora pelo GPIAAF (Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários) para concluir o que se passou a nível técnico.

Nesta investigação técnica, o GPIAAF indica que, além das peritagens dos sistemas técnicos, “a investigação tem procedido também ao aprofundamento da análise dos fatores imateriais pertinentes, como sejam os fatores humanos e organizacionais envolvidos no acidente, procedimentos e práticas de manutenção, bem como o enquadramento legal da operação, entre outros aspetos”. Os processos de manutenção do modo elétrico estão, aliás, a ser alvo de uma auditoria externa pedida pela Carris e que está a ser feita pela Exceltic, que foi iniciada em abril deste ano.

https://observador.pt/especiais/manutencao-da-carris-passou-por-varias-fases-iniciou-externalizacao-em-2005-mas-a-dos-ascensores-so-aconteceu-em-2012/

Se, na altura do acidente, havia apenas um contrato, referente a manutenção da Glória, no portal Base, logo a seguir ao acidente a Carris disponibilizou um outro. O primeiro era de outubro de 2024 e tinha um valor total de 995 mil euros, mas era referente a um contrato firmado em 2022; o segundo era de 221 mil euros e era de um contrato de agosto de 2025, um mês antes do acidente, mas só publicado após o desastre.

Só em outubro do ano passado a Carris publicou, no mesmo portal, um contrato firmado com a MNTC em julho de 2025, num total de 467 mil euros, para serviços de manutenção preventiva e corretiva de carros elétricos históricos e carros elétricos articulados Siemens. Contrato não relacionado com os elevadores históricos. Foi preciso esperar por este ano para que surgissem mais dois contratos no portal Base da Carris com a MNTC e tendo o Elevador da Glória no centro.

São duas contratações essenciais para investigar a manutenção ao longo dos anos do Elevador da Glória. Um diz respeito à reparação geral do Elevador da Glória, em 2022, e o o outro para a reparação intercalar do elevador em 2024, que deram à MNTC negócios de 69.115 euros e de 57.388 euros respetivamente. O Observador já tinha noticiado que a MNTC trabalhava com a Carris, pelo menos desde 2018, quando foi contratada para a reparação do elevador da Glória após um acidente de 2018, mantido em segredo. Esse contrato não foi colocado no portal Base.

Os registos públicos dos contratos públicos da MNTC com a Carris para o Elevador da Glória só começam em 2022, quando foi contratada, por concurso público, para a Manutenção dos Ascensores da Bica, Lavra e Glória e Elevador de Santa Justa, pelos tais 995 mil euros.

O primeiro contrato que surge no registo das compras públicas entre estas duas entidades é o referente a uma reparação de oito carros elétricos no Museu da Carris e que levou a um negócio de 19.544 euros. É de 2019.

https://observador.pt/2025/09/16/manutencao-reparacao-e-substituicao-do-cabo-da-gloria-feitas-pela-mesma-empresa-a-mntc-desde-pelo-menos-2022/

Ou seja, no levantamento feito pelo Observador no portal Base, há 11 contratos entre MNTC e Carris, no valor total de mais de 2 milhões de euros (mais concretamente 2.132.441 euros), quase metade de todos os contratos públicos assinados pela MNTC disponibilizados no portal Base. Há 48 contratos da MNTC com organismos públicos — a começar em 2017 — num total de 4,8 milhões de euros. Quando se deu o acidente estavam registados no Base 42 contratos por 3,79 milhões de euros.

O Observador contactou a Carris para apurar a totalidade dos contratos com a MNTC, tentando perceber se ainda ia entrar mais algum, mas até à publicação deste artigo aguardava pelas respostas.

Num conjunto de informação que a Carris disponibilizou sobre os contratos de manutenção é referido que a empresa “tinha cinco contratos com a empresa MNTC – Serviços Técnicos de Engenharia: um relativo a equipamentos históricos e os restantes relativos a veículos do modo elétrico”, concretizando:

  1. Serviços de manutenção dos Ascensores da Bica, Lavra e Glória e Elevador de Santa Justa – Revogação por mútuo acordo;
  2. Serviços de substituição de unidades de frenagem de cepos (referência pc7ah) de carros elétricos históricos – Cessão da posição contratual para a empresa Liftech;
  3. Serviços para lavagem e lubrificação de 135 bogiees dos carros elétricos remodelados – Cessão da posição contratual para a empresa Liftech;
  4. Serviços de manutenção preventiva e corretiva de carros elétricos históricos e carros elétricos articulados – Cessão da posição contratual para a empresa Liftech;
  5. Serviços de revisão dos elétricos do Museu da Carris – Cessão da posição contratual para a empresa Liftech.

E dizia, tal como o Observador noticiou, que a Carris “já não tem qualquer relação contratual com a empresa MNTC – Serviços Técnicos de Engenharia, LDA.”

Reparação geral de 2022 previa responsabilidades para danos por cumprimento “defeituoso” do contrato

No contrato assinado para a reparação geral de 2022 determina-se que a MNTC é “responsável pelos danos causados pelo incumprimento e/ou cumprimento defeituoso do objeto do contrato, devidos a negligência, quebra de sigilo e não cumprimento das disposições regulamentares aplicáveis a este tipo de trabalho”, além de que “se se verificarem deficiências que indiquem algum defeito na qualidade dos serviços prestados, [a MNTC] obriga-se a alterar os serviços deficientes, imediatamente, após notificação da Carris”.

E obriga-se a que os trabalhadores da empresa contratada tenham “formação adequada às tarefas a desempenhar, bem como a informação e sensibilização sobre os riscos profissionais inerentes às atividades a desenvolver”.

A Carris reservou-se o direito de inspeção em todo e qualquer tempo ou lugar, ocasional ou permanentemente.

Segundo informação da Carris, divulgada após o acidente, a reparação geral de 2022 foi a última grande grande reparação, tendo sido substituído o cabo em 2024.